Vent d’ouest: Quando a mensagem do cinema ultrapassa o valor da autoria

"A técnica prevaleceu sobre o gesto"

Há exatos três meses, mais especificamente no dia 9 de maio, pipocou na internet um suposto novo curta-metragem do lendário diretor francês Jean-Luc Godard. Como era de se esperar, a dita nova obra de Godard alcançou, após ser publicada no Youtube, uma instantânea quantidade de acessos impulsivos no site de vídeos e, obviamente, uma série de comentários a enaltecendo.

O motivo do entusiamo cibernético é claro: Godard é um artista que faz jus ao seu culto; por reinventar-se constantemente e ainda assim manter um elo com o seu próprio legado, estabelecendo uma estranha naturalidade em cada transmutação sua. Apesar dessa dificuldade em definir essa essência que molda a carreira do diretor, podemos dizer que é uma junção de manifestações artísticas distintas, em uma colagem de gêneros e uma ousadia experimental que formam um projeto político e estético em constante movimento. JLC começou sua jornada ainda na década de 1950, mas sua primeira obra de sucesso foi Acossado, de 1960; após isso, criou outros clássicos para a história do cinema (Viver a vidaAlphaville, A Chinesa, Week-end…).

A história que envolve a não-obra de Godard inicia-se em abril, quando o jornal Lundi Matin publicou em seu site uma carta aberta de integrantes do Zones À Défendre (“Zonas a Defender”) – grupo que promove campanhas contra o projeto de um segundo aeroporto internacional na cidade de Nantes-FRA, ocupando os locais em que está planejada sua construção, para impedi-la, entre outras ações – para o cineasta. No documento, os militantes lembravam o passado revolucionário do diretor nos anos 1970 e pediam para que ele fizesse no Festival de Cannes o equivalente ao que fazem nas ocupações:

Então, vá lá, Jean-Luc, como uma última batalha, como a mais bela das filmagens, como um poema que tu sabes fazer, com tua linguagem, mas fazendo eco a todos nós: detona tudo. ZAD EM CANNES E BLOQUEIA O PALÁCIO!

No contexto desse empenho e crença de militantes e do tal jornal para tal, baseia-se o fato de que, nas duas últimas vezes que um filme de Godard foi exibido em Cannes, em 2010 e 2014, o diretor “esnobou” o festival e não esteve fisicamente por lá. E nessa edição, seu novo filme Livre d’Image consta entre os indicados e existe a possibilidade dele aparecer por lá. Vale ressaltar que a partir de Film Socialisme (2010), as obras de JLC tem um cunho político mais explícito do que de costume.

O que conecta de fato o jornal com a trama toda é que ele foi o primeiro veículo de imprensa a divulgar a boa nova para o mundo. Sim, antes até de pintar uma nota da assessoria do lendário cineasta. O curta foi indicado como homenagem aos ZAD (veja só que coincidência, rapidez e compaixão artística!) e como crítica ao mundo. O vídeo original está aqui, mas, evidentemente, vou deixar uma versão com opção de legendas grudada a seguir, que uma caridosa alma fez:

O curta é um verdadeiro manifesto a favor do movimento e por isso que chama tanto a atenção. Apreciadores de Godard realmente tiveram motivos para acreditar na veracidade do fato: a voz que narra o documentário é muito próxima a dele; sem contar que a maneira difusa de inter-relação das imagens, sons, ruídos, colagens, textos, ações, discursos e ideias é bem semelhante ao que foi visto em Adeus à Linguagem – último longa-metragem do diretor, lançado em 2014. Mais Godard que o próprio Godard, disseram uns.

E nessas estruturas de concreto continua a florescer nos interstícios, lá onde a umidade ainda subsiste, essa erva que chamamos daninha, e que não faz mais do que nos proteger da erosão. E é o Gourbi, o Far West, os 100 Nomes. Inverter a trajetória. Retornar à vida a partir da morte. Suprimir a agonia. Suprimir a agonia.

O que há de fascinante nisso tudo é o hackeamento de um conceito, a apropriação e uso da proposta de meta-linguagem que o diretor desenvolveu recentemente. Uma reverência tão potente – na fieldade e na força política – que é a autoria anonima com mais identidade na história do audiovisual. Ou apenas expõe o pensamento de que uma estrutura de criação surge e a partir daí não há mais proprietário; uma forma de compor que torna-se universal, se liberta e virá independente para novas transformações.

 

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Giovanni Cabral
Sobre Giovanni Cabral 47 Artigos
Um genuíno caipira hipster das sombras que aprendeu a lidar melhor com os seus fracassos do que com qualquer vitória ilusória. Aqui e em outros escombros da internet, sou divulgador, pseudo-crítico e produtor de arte.

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