Um Lugar Silencioso: a elevação sensorial da experiência cinematográfica no terror contemporâneo

Nos últimos anos, ficamos acostumados com filmes estrondosos que são construídos com o intuito de fazer a sala de cinema vibrar, e, ao deparamos com um filme quase inteiramente silencioso, temos a certeza que essas artimanhas superlativas – ainda mais em filmes de terror/horror – não são necessariamente fundamentais. “Um Lugar Silencioso” consegue esse mérito justamente ao trabalhar no que seu título propõe, mas não perde o espectador em momento algum e o silêncio só colabora para criar um clima tenso e desesperador.

A bem da verdade, o assisti ilegalmente pelo computador, no conforto do sofá; porém, logo após tê-lo findado, abri o Facebook e fui na busca para ver os relatos dos meus “amigos” depois de também vê-lo, e, os que foram assistir este filme em salas de cinema (quando ainda estava em cartaz por aqui) disseram coisas totalmente positivas, as quais eram a que eu esperaria ouvir. Não querendo soar clichê, mas o fato é que esta é uma daquelas obras justamente calcadas para serem melhor apreciadas num cinema – e isso geralmente é dito quando a produção de som e/ou imagem trabalha com uma amplitude que favoreça a completa imersão. Surpreendentemente, os relatos que eu havia lido foram na linha do “a sala estava cheia, inclusive com adolescentes, mas parece que todos abraçaram a ideia da sinopse e era possível escutar a respiração de alguém ao lado”, uma façanha que me deixa decepcionado por ter perdido essa aura.

Sobre o filme em si, ambienta-se num cenário pós-apocalítico de invasão alienígena. A trama não explica com clareza os motivos do aparecimento desses seres exatamente em nosso planeta; a quantidade de naves caídas ou coisa do tipo; se eles multiplicam-se/reproduzem-se… Mas o essencial para amarrar o roteiro foi muito bem desenvolvido na características desses aliens: eles são completamente cegos, mas têm uma audição muito complexa e sensível, utilizando esse sentido aguçado para caçar e se alimentar de humanos. É bom citar que as criaturas são o único uso evidente de CGI, e este não é feito de maneira escrota como em diversos filmes de horror.

Nesse cenário tenebroso, acompanhamos o dia a dia de uma família que vive de uma maneira completamente silenciosa, se comunicando em libras e prestando atenção aos pequenos detalhes para que não aconteça nenhuma desgraça. Se você fizer barulho, você morre – e essa tensão é tamanha que também nos invade psicologicamente e, automaticamente, ficamos imóveis ao assistir a história (para não gerar ruído). Essa comunicação não foi totalmente forçada ali, já que a filha do casal nasceu surda e todos os membros da família desenvolveram uma linguagem de libras muito própria. A curiosidade é que a atriz que interpreta a menina Regan, Millicent Simmonds, é surda na vida real.

A busca por sobrevivência rodeia a trama toda e, mesmo tendo algumas decisões de roteiro óbvias e forçadas em alguns momentos, o diretor John Krasinski consegue entregar momentos angustiantes do início ao fim, sem nenhum “pico” que minimize o grosso. Aliás, Krasinski faz aqui seu primeiro trabalho na direção, além de ser um dos atores principais. Como trivia, o próprio afirmou que antes de gravar “Um Lugar Silencioso” não se considerava fã de filmes de terror e, para se preparar, Krasinski assistiu a filmes como “Corra”, “A Bruxa” e “O Babadook” (todos clássicos do “pós-terror”). Pode-se notar também claras influências do cinema do indiano Shyamalan, como “Sinais” e “A Vila”, ou ainda do essencial “Alien – O 8º Passageiro”.

Sem maiores spoilers, deixo aqui a dica para quem pretende adentrar nessa ótima safra do terror contemporâneo e não sabe por onde. “Um Lugar Silencioso” trabalha com minimalismo, ruma sem pressa, apesar de ter apenas 90 minutos, mas consegue trazer a agonia e o medo de uma forma intensa.

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Giovanni Cabral
Sobre Giovanni Cabral 49 Artigos
Um genuíno caipira hipster das sombras que aprendeu a lidar melhor com os seus fracassos do que com qualquer vitória ilusória. Aqui e em outros escombros da internet, sou divulgador, pseudo-crítico e produtor de arte.

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