T.A. Greatest Hits: King Crimson – Indiscipline

Enquanto a maioria das grandes bandas de rock progressivo dos anos 70 já encerravam as suas atividades na década seguinte ou simplesmente mudavam sua sonoridade para algo mais palatável – como aconteceu com o Genesis e o Yes, por exemplo -, o King Crimson retornaria se reinventando nos anos 80, continuando à provar sua relevância na música.

O grupo estreava em 1969 com In the Court of the Crimson King, pedra fundamental do prog e, para muitos, o mais icônico registro do gênero. A fusão de música erudita, jazz e heavy metal com um clima sombrio e experimental que abalou quem ouviu o registro.

O que diferenciou a banda de qualquer outro grupo britânico que toca rock progressivo é a inquietação e a estranha desconstrução em relação a qualquer obra do passado. Basta notar as diferenças entre o introspectivo Islands (1971); o jazz-rock de Lizard (1972); a proximidade com o “heavy metal” em Larks’ Tongues in Aspic (1973) e Red (1974); ou quando traz influências de quem o próprio grupo influenciou – como Porcupine Tree e Tool – em The Power to Believe (2003). Com o guitarrista Robert Fripp sempre na liderança, poucas formações ficaram fixas numa sequência de registros, e a lista de músicos que já passaram pela banda tem nomes como Greg Lake, John Wetton, David Cross e Gavin Harrison .

Em 1981, o guitarrista e eterno membro do grupo, Robert Fripp, decidiu reativar a banda após um hiato de sete anos (que iniciou após o lançamento de Red) com uma formação totalmente reformulada que, além dele, contava apenas com o baterista Bill Bruford como integrante remanescente da última fase do King Crimson na década de 1970. Eles convidaram então os já rodados Adrian Belew (um exótico guitarrista que já havia tocado com Frank Zappa, David Bowie e Talking Heads) e Tony Levin (baixista, parceiro de Fripp na banda de apoio de Peter Gabriel e também famoso por tocar um instrumento chamado chapman stick – de doze cordas, com formato de uma vara que faz uma sonoridade mais melódica).

Inicialmente o nova formação receberia o nome de Discipline, mas o guitarrista líder do grupo achou plausível que esta fosse sim uma nova encarnação da trupe que ele tocara anos atrás. Como novidade no som, além do plus da inclusão de dois novos membros, estava o fato de que o baterista Bill Bruford estava flertando com a bateria eletrônica, e isto é perceptível ao ouvir as músicas dessa nova fase. Aliás, a novidade mais estranha – quando se compara com os álbuns anteriores do King Crimson – é o enveredamento para uma faceta New Wave, que estava tão em alta na época.

Sendo assim, o grupo lançou Discipline em 1981 – justamente aquele que era pra ser o nome do novo combo -, o primeiro  de uma trilogia de álbuns em sequência (que eu costumo chamar de “trilogia das cores”, por cada um ter uma capa minimalista e com uma cor proeminente). O disco costumava ser considerado “um Remanin in Light [clássico do Talking Heads, de 1980] mais esquisito”, por conta de Adrian Belew às vezes parecer emular a voz de David Byrne… Mas acredite, este e os outros registros posteriores tem uma personalidade forte o suficiente para não precisarem serem associados à outros ou ficarem na sombra de x ou y.

Discipline possui sons realmente incríveis, como é o caso dos riffs literalmente animalescos de “Elephant Talk”; dos dedilhados envolventes de “Frame By Frame”; da delicadeza da pseudo-oriental “Matte Kudasai” ou ainda do ritmo funkeado de “Thela Hun Ginjeet”.

Mas vamos destacar a faixa do meio, a 4ª de 7 músicas deste trabalho do King Crimson. “Indiscipline” começa com um estranho compasso de baixo-bateria, que logo é acompanhado por um esmerilhamento de riffs disformes por Belew até que a primeira estrofe da canção é cantada. Essa parte fala de uma lembrança… Algo que o personagem estava envolvido e não sabia se gostava; realmente parece ser um tanto confuso, como se estivesse acordando ou buscando refrescar algo da memória após um back daqueles. Depois desse momento de reidentificar a si mesmo, o instrumental entra numa catarse completamente vertiginosa, onde nenhum músico conversa sonoramente com o outro, mas ambos conseguem entrar numa harmonia fabulosa – o famoso “Caos Controlado”. Finda-do isso, Belew solta descontroladamente a frase “I repeat myself when under stress” (talvez seja a chave para decifrar essa bela letra?), além de mais uma estrofe enigmática antes de voltar à catarse geral. Entenda a teatralidade do vocalista assistindo uma apresentação ao vivo do som:

I do remember one thing.
It took hours and hours but..
by the time I was done with it,
I was so involved, I didn’t know what to think.
I carried it around with me for days and days..
playing little games
like not looking at it for a whole day
and then.. looking at it.
to see if I still liked it.
I did.

I repeat myself when under stress.
I repeat myself when under stress.
I repeat myself when under stress.
I repeat myself when under stress.
I repeat…

The more I look at it,
the more I like it.
I do think it’s good.
The fact is..
no matter how closely I study it,
no matter how I take it apart,
no matter how I break it down,
It remains consistant.
I wish you were here to see it.

I like it.

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Giovanni Cabral
Sobre Giovanni Cabral 49 Artigos
Um genuíno caipira hipster das sombras que aprendeu a lidar melhor com os seus fracassos do que com qualquer vitória ilusória. Aqui e em outros escombros da internet, sou divulgador, pseudo-crítico e produtor de arte.

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