Entrevista: Pedro Leite (Quadrinhos Ácidos)

Pela segunda vez, a coluna Paradoxo Sequencial se vê tomada por uma entrevista – desta vez com o quadrinista brasileiro Pedro Leite, autor de Tirinhas do Zodíaco Onde meu Gato Senta. “Um dos maiores desenhistas do brasil” (chegando a mais de dois metros de altura!), meu homônimo hoje produz também a série Quadrinhos Ácidoscom críticas e comentários de questões sociais e absurdos do cotidiano. Foi esta série – vencedora do 30º Troféu Angelo Agostini como melhor fanzine, popular nas redes sociais e marcada por um humor mordaz que pode ser visto aqui – que motivou esta breve e divertida entrevista. Aproveitem!
48-NadaContraColetivo Metranca: Como você começou a fazer quadrinhos?
Pedro Leite: Apesar de sempre gostar de desenhos, eu acredito que comecei a desenhar tarde. Foi só depois de formado na faculdade que realmente me dediquei mais aos quadrinhos. O meu primeiro projeto grande foi a “Tirinhas do Zodíaco”, criado em 2011 junto com o meu amigo Rafael Koff. Esta foi uma série de quadrinhos que criamos parodiando o desenho animado Os Cavaleiros do Zodíaco e em poucos dias já era fenômeno na internet. Isso me deu mais gás para me dedicar mais aos quadrinhos e também foi uma luz no fim do túnel sobre o assunto. Essa série virou um livro independente que já está na sua 3ª tiragem. Após isso criei o “Onde Meu Gato Senta”, que foi uma série de cartuns bem humorados sobre como os bichanos são inoportunos com os seus donos as vezes. Essa série também foi bem recebida na internet e com isso consegui produzir o livro independente com a ajuda do crowdfunding (sistema de financiamento coletivo). Depois disso lancei na internet o “Quadrinhos Ácidos” que é uma série de tirinhas com um humor ácido e abrasivo. Felizmente a série está sendo bem recebida pelo público e imagino que daqui há alguns meses já posso pensar em transformar ela em um livro.
CM: Como surgiu o interesse por arte sequencial?
PL: Como a maioria dos meninos esse interesse veio na infância. Sempre li a Turma da Mônica e sempre gostem muito de desenhos animados. A diferença é que a maioria das crianças largam esse gosto quando crescem e eu nunca larguei. Cada vez gosto mais dessas coisas. Porém, depois de acabar o colégio eu optei por fazer a faculdade de Publicidade, o que me afastou um pouco dessa arte. Só deixei de ter preguiça para desenhar depois de acabar a faculdade, quando notei que viver de publicidade não me daria muita alegria na vida. Larguei a vida em agências de propaganda para me dedicar aos quadrinhos e ilustrações. Atualmente passo mais dificuldade, mas sou mais feliz.
33-AMulherSegundoAPropagandaCM: Você se inspira em algum artista em particular? Quais?
PL: Gosto do trabalho de muita gente, independente se é do ramo dos quadrinhos ou não. Mas dessa área eu gosto muito do Charles Schulz (Peanuts – vulgo Snoopy), Liniers, Sergio Aragonés, Bill Watterson (Calvin e Haroldo), Genndy Tartakovsky (Samurai Jack, Laboratório de Dexter, Sym-bionic Titan – notas minhas), Maurício de Souza, por aí vai…
CM: Seus quadrinhos são bastante mordazes em suas críticas, de onde você tira a inspiração?
PL: Acho que com a idade (tenho 30) eu comecei a ficar um pouco menos tolerante com algumas coisas que vejo no dia a dia. Tenho ficado um pouco mais crítico sobre algumas maneiras de amigos ou detalhes de ações de pessoas na rua. Acho que o que mais me inspira para criar as tirinhas do “Quadrinhos Ácidos” são esses detalhes que antes eu não enxergava. Coisas que me irritam nos outros e até mesmo em mim. Não me considero ranzinza, mas enxergo no “Quadrinhos Ácidos” uma excelente oportunidade de expressar algumas das minhas insatisfações. E é claro, uma boa chance de fazer as pessoas rirem.
CM: Qual o maior desafio trabalhando com quadrinhos, no seu ver?
PL: Ganhar dinheiro. Nem todo mundo que curte o seu site está disposto a comprar o seu livro. Nem todo o patrocinador que topa uma parceria está disposto a pagar um valor decente. É bem complicado, mas acredito que estou progredindo aos pouquinhos.
35-ComoCriasUmaNovelaCM: Como você avalia a cena de quadrinhos no Brasil?
PL: Não sei se posso responder direito essa pergunta, afinal, estou há poucos anos no mercado. Mas o que posso dizer é que noto progressos no país. Antigamente só víamos quadrinhos em banca de jornal e hoje eles migraram para livrarias. Existem livros bem acabados com este material, o que antes só encontrávamos como revistinhas antigamente. Então noto uma valorização maior das editoras sobre a arte dos quadrinhos.
Por outro lado é bizarro ver como as editoras ignoram a internet às vezes. Existem muitos autores excelentes que só conseguem publicar os seus quadrinhos na internet simplesmente porque nenhuma editora descobriu eles. “Armandinho“, “Mentirinhas“, “Ryotiras” e até mesmo as minhas séries são exemplos de materiais que estão “bombando” na internet e que não foram descobertos pelas editoras. Os autores precisaram produzir os seus livros de maneira independente, sozinhos. Por isso às vezes eu realmente não entendo como as editoras não publicam esses trabalhos.
CM: Seus quadrinhos tem publicação fora do formato digital? Há planos para talvez uma encadernação?
PL: Eu sempre penso em como os meus quadrinhos ficarão quando impressos. Produzo as tirinhas pensando em um livro. Uso a internet para divulgar o material, mas o objetivo final é sempre que aquela série ganhe um corpo físico. Preciso pegar com as mãos, sentir a textura do material. Por isso todos os meus projetos precisam ganhar forma física para eu considerar que deram certo. Felizmente o “Quadrinhos Ácidos” está indo nessa direção.
CM: Você segue outros Webcomics? Quais?
PL: Muitos! Vou citar apenas alguns que eu lembro agora: Ryotiras, Um Sábado Qualquer, Mentirinhas, Armandinho, Will Tirando, Lobo Limão, etc…

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E Pedro Leal voltando… Fica aqui a recomendação há todos para que leiam Quadrinhos Ácidos – o trabalho do meu xará é marcado por um humor sagaz e um traço leve que atuam em perfeita sinergia. Vale apena. E enquanto tenho a chance, deixo até para o próprio Pedro Leite uma recomendação também – na verdade duas: os excelentes ShortpackedDumbing of Age, do norte americano David Willis. Ambas estão lotadas de crítica e comentário social – um dia eu falo direito delas.

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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