Palestina, por Joe Sacco.

Vendo a recente – e absurda – ofensiva israelense contra a palestina, tem horas nas quais se é obrigado a mudar o tópico planejado…

palestina_especial_capaTem algumas obras que são leituras obrigatórias; Um Pacto com Deus e outras  histórias de cortiço, de Will EisnerReino do Amanhã, de Alex Ross Mark WaidSin City, de Frank MillerPersépolis, de Marjane Satrapi; Jojo no Imbyou na Bouken, de Hirohiko Araki, e o nosso tópico pontual, Palestina, de Joe Sacco. Enquanto o governo israelense, sob a pretensão de auto defesa (que seria até justificada, não fosse a total disparidade dos poderes), executa mais uma ofensiva à base de mísseis e ataques aéreos contra a Palestina, vidas se perdem cercadas de uma narrativa rudimentar, onde “os bons” lutavam com os “maus”, e clichês como “terrorismo” e “anti-semitismo” (não negando a existência deste – é uma das coisas mais abomináveis que lamentavelmente ainda marcam o mundo) são disparados de maneira  a justificar o morte de civis – e sem saber quem são as pessoas que estão morrendo, muitos concordam cegamente com a narrativa dominante.

Publicada pela primeira vez em 1996, e fruto de meses de pesquisa na linha de frente dos conflitos entre Israel e Palestina, e mais de uma centena de entrevistas, Palestina é um marco em múltiplas frentes: a primeira (e definitiva) obra de não ficção de Sacco, uma das mais belas peças de jornalismo em quadrinhos e uma das mais marcantes aulas de jornalismo em zonas de conflito já escritas. É fácil pensar em uma guerra como uma questão de bem e mal – até que se olha para as pessoas envolvidas. Dizia o escritor americano Orson Scott Card que, quando realmente se conhece alguém, é impossível odiá-lo. Discordo desse truísmo em partes, mas em um grande ponto ele é correto: não há como odiar um grupo quando ele deixa de ser “o outro” para serem pessoas – e as dimensões trágicas do conflito palestino emergem no passo em que dramas cotidianos, tragédias manchadas pela violência e cenas bárbaras de violência tomam cores profundamente reais no nanquim.

palestine-gn-1996-chap-5-was-dcp-06Enquanto muitos jornalistas mantém a pretensão de “Observador neutro” – uma tradição debatida do jornalismo ocidental, que as vezes é impossível de ser mantida – Sacco se torna repetidas vezes um participante ativo das situações retratadas. Seu foco não é uma representação “imparcial” do conflito, mas sua experiência como o ocidental em uma situação desconhecida – e seus comentários e atuação em protestos, bloqueios e funerais. Não muito diferente do jornalismo Gonzo de Hunter S. Thompson; No entanto, forço me a perguntar: havia na cobertura do conflito de Gaza alguma objetividade a ser perdida? Pode se falar em jornalismo “neutro” e “imparcial” quando este é realizado à quilômetros de distancia, ao ponto em que as vítimas se tornam nada além de números a serem relatados friamente no próximo dia?

Apesar da idade (a pesquisa foi feita entre 1991 e 1992, e continuada em Notas sobre Gaza), Palestina ainda é atual; mesmo com o reconhecimento da Autoridade Palestina por parte da ONU, Israel continua seu eterno cerco contra a região. Seus mortos ainda são reduzidos a meros números no noticiário, baixas aceitáveis em nome da ‘segurança”. Uma pena: Era de se esperar que após um relato tão marcante quanto Palestina, o mundo acordasse para a trágica realidade da região, e desse um basta. Não existem heróis ou vilões; o que há é um circulo vicioso de tragédia, ódio e medo, sem fim.

O sofrimento dos refugiados, a dor de quem perdeu um filho para um foguete, o terror dos bloqueios militares e da repressão armada contra manifestantes munidos de pedras: tudo isso não mudou. Ainda se argumenta em prol dessas coisas com o fato que terroristas palestinos lançaram foguetes contra Israel. De fato isso é condenável – mas a reação de Israel é comparável a de quem puxa uma arma em resposta a um soco. É totalmente desproporcional.

sacco palestine panelPalestina é uma leitura obrigatória para quem se almeja jornalista em zonas de conflito. Para quem quer entender os dois lados desse conflito tolo e abominável que se arrasta há décadas, ou para quem quer entender como jornalismo funciona. Admito que já tive noções muito preconceituosas de povos, países, culturas e identidades religiosas – e afirmo: preconceito se combate com vivência. A caricatura de islâmicos como terroristas, por exemplo, se desfez após o contato com colegas e imigrantes islâmicos. Que Palestina continue a servir, se não como solução, ao menos como um despertar para a realidade do povo palestino.

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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