NÃO ENTRE EM PÂNICO #12 – Depressão

Como psicólogo e um apaixonado por psicanálise, qualquer tema relativo a saúde mental, desenvolvimento humano e as questões existenciais que nos cercam me fascina. Na coluna de hoje, abordarei um pouco do fenômeno da depressão, sem pretensão nenhuma de esgotar o tema ou de ser técnico o suficiente para esclarecer tudo sobre ela. Minha intenção aqui é, como sempre, fomentar a discussão e ampliar um pouco como as pessoas percebem a questão, talvez até dar aqui alguma orientação a quem possa estar passando por uma situação dessas e ainda não percebeu. Para tanto, gostaria de dizer neste texto o que não é depressão.

 

Depressão não é tristeza

Por vezes, a tristeza faz parte da depressão, mas a depressão não é somente o sentimento de tristeza. Ficar triste faz parte da vida. É algo necessário até para um certo amadurecimento, para a reflexão de certas questões. Há um certo movimento social e cultural atualmente que nos faz imaginar que a tristeza é algo completamente evitável. Nossa cultura de consumo nos faz imaginar isso de várias maneiras, basicamente oferecendo produtos ou que agregam esse valor, ou que prometem neutralizar este sentimento. Há também uma tentativa cultural de estabelecer, ao meu ver, uma forçação de barra entre alegria ou felicidade e mérito, dando a impressão que estar triste é um demérito, um fracasso sobre a simples tarefa de ser feliz. Essa tentativa de evitar ou esconder a tristeza, que é inerente ao ser humano, nos leva aos pensamentos de querer tratar tristeza como depressão. Damos a ela um nome comum, uma classificação médica, um desenvolvimento claro e uma solução simples. Isso é um grande erro ao meu ver, pois não há solução para a tristeza, que não seja mergulhar nela e tentar encontrar formas singulares de amenizá-la. Há no máximo, tentativas paliativas de contorná-la em alguns momentos ou de simplesmente senti-la intensamente em outros. Faz parte da experiência humana sentir a tristeza, ela nos mobiliza à mudança, ao crescimento e ao movimento tão necessário a nossa vivência singular.

 

Depressão não é luto

O luto é um processo de trabalho após uma perda significativa. Ele deve e precisa ser feito, pois é preciso entender o que se perdeu para poder tomar um caminho e seguir em frente, enquanto isso não acontece, e por vezes isso leva um grande tempo, não há como continuar. Por vezes o luto está envolvido na depressão, mas não necessariamente a depressão é o luto. Perder algo, alguém ou uma possibilidade também faz parte da vida. Só nunca perde nada quem não se arrisca nunca, e cá entre nós, é impossível viver assim por muito tempo. Da mesma forma que a tristeza, o luto também é uma experiência muito necessária em diversos aspectos. O luto nos ensina a viver com o que nos resta e valorizar o que sobrou depois da perda, nos ensina a investir e a retirar o investimento afetivo, nos dá o empoderamento desse processo. Porém, como dito anteriormente, primeiro é preciso saber o que se perdeu. Responder a essa questão a princípio parece óbvio, mas não é nem um pouco. É necessária uma grande reflexão e uma grande mobilização para conseguir definir o que realmente foi perdido. Daí vem a importância da tristeza, que nos faz sentir dor, e não qualquer tipo de dor. Ela cria uma necessidade de buscar a solução para essa questão.

 

Depressão não é uma desordem química

Vejo constantemente diversas áreas do saber dizendo que a depressão se resume a baixa da produção de serotonina. Não que não seja isso, mas não é só isso. Não é algo alheio ao sujeito, que não tem nada a ver como ele, não é algo aleatório, algo que simplesmente aparece um dia quando você acorda. Muito pelo contrário, a depressão tem tudo a ver com o sujeito.  Não é a baixa de serotonina que causa a depressão, é por causa da depressão que a produção de serotonina baixa. Um simples efeito, não a causa. Portanto, não basta somente suplementar isso com antidepressivos. Há também de se fazer um esforço para entender o processo, tanto por parte dos profissionais que lidam com isso, quando por parte do sujeito que sofre com isso. Não é por acaso que a depressão surge, sempre há algo relacionado com, sempre há algo a ser dito sobre. Com isso não descarto fatores biológicos que certamente estão envolvidos num processo depressivo, nem descarto a função dos medicamentos. Só amplio a questão, que ao meu ver vai muito além da quantidade de neurotransmissores. Fazer esportes, tomar sol, cuidar da higiene do sono, isso tudo ajuda, mas não pode-se descartar o principal: É preciso haver uma mudança profunda no sujeito, agindo sobre o que gerou esse processo.

 

Depressão não é algo que simplesmente passa

Muitas de nossas doenças se curam sozinhas. Não é o caso da maioria das depressões. Há de se fazer algo com ela, não adianta deixar quieto, deixar pra lá, é preciso procurar ajuda na maioria das vezes. Muitas pessoas tem a impressão que a depressão veio do nada, ignorando certos fatos e escolhas de sua vida. A depressão antes de tudo é uma renuncia frente ao desejo, ou seja, a falta de coragem de assumir o que pede o próprio desejo do sujeito. Dificilmente isso muda do nada e não há nada que possa me convencer do contrário. O sujeito faz essa escolha de recuar frente ao seu desejo e é preciso que ele perceba claramente esse movimento para que ele possa escolher manter-se nessa posição e arcar com as consequências disso, ou mudar. A falta de vontade de fazer as coisas que gosta, a ausência de prazer em atividades que antes davam prazer, as alterações no sono, as variações de humor, esses sinais quando persistem por um período de tempo considerável, por meses por exemplo, nos dão certa noção de que estamos passando por uma depressão. Mas é preciso um profissional para detectar isso com precisão. Pode-se muitas vezes estar passando por um processo de luto, ou um momento de tristeza intensa. Outro indício forte de depressão, no qual quero ter um cuidado especial neste texto é a ideação suicida. Neste tema gostaria de abrir uma seção específica. Para tratá-lo de maneira mais profunda.

 

Depressão não é besteira 

Não é incomum a ideação suicida ou até mesmo as tentativas de suicídio em pessoas que sofrem de depressão. Infelizmente, por vezes elas tem êxito. O que impressiona muito é que não é incomum também que as pessoas que estão passando por situações como essa peçam ajuda a amigos, familiares, colegas de trabalho ou profissionais da saúde e sejam completamente ignorados. É muito comum as pessoas se evadirem de terem conversas como essas. Grosso modo, as pessoas que pensam em se matar, tem um caminho gradual até chegar a cogitar essa possibilidade. Primeiramente vem falta a vontade de levantar para sair para trabalhar ou fazer alguma atividade, por exemplo, depois o pensamento de que ninguém se importa com você, depois o desejo que o mundo acabe, ou que as coisas mudem magicamente. Quando tudo isso fracassa, o suicídio vem como uma solução para resolver todos esses problemas. A pessoa nota que não tem prazer em absolutamente em nada em sua vida e que nada mais faz sentido. Quando ela comenta de sua vontade de se matar, ou até mesmo de fatos relacionados aos estágios anteriores que eu comentei aqui é necessário tomar isso como um pedido de ajuda. Estando diante de uma situação como essa, é fundamental que se converse sobre o assunto, de preferência se esgote o tema sem pudor ou culpa. No mínimo perguntar a pessoa qual o motivo dela ter cogitado essa possibilidade e ouvir sobre o que ela tem passado nos últimos tempos. Isso realmente ajuda, pode parecer que não, mas ajuda muito. A pessoa em depressão também passa em certos casos por uma certa debilidade de pensamento e raciocínio lógico. Ela não consegue ver que o suicídio, por exemplo, não soluciona nada e é muito importante que alguém diga isso a ela, que demonstre se importar com ela. É preciso também orientar a pessoa a buscar ajuda especializada, mostrar que isso é um problema que tem outras soluções. E principalmente, que se ela se propor a buscar ajuda e se implicar em seu processo de tratamento, que isso passará e ela poderá sentir prazer em viver novamente.

 

Concluindo

Depressão é algo muito mais complexo do que o senso comum concebe. Há por vezes um pensamento moralista que atrapalha muito as pessoas a buscarem ajuda. Depressão não é falta de trabalho ou ocupação, não é algo que se possa fingir, muito menos é um demérito. Muitas vezes, a depressão é  uma forma de lidar com algo que é insuportável para aquele sujeito. Ela é necessária naquele momento específico da vida. Porém, não podemos perder de vista que ela também é algo contornável, que pode dar a oportunidade de entrar em contato com o próprio desejo, obviamente desde que o sujeito esteja disposta a se arriscar. É preciso um investimento para que se saia da depressão, tanto de tempo, quanto de coragem. Certa vez ouvi uma frase que carrego em minha memória que penso se encaixar bem neste momento:

Quando estamos felizes podemos aproveitar a melodia, porém só quando estamos tristes é que entendemos verdadeiramente o que quer dizer a letra

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