NÃO ENTRE EM PÂNICO #11 – Nolan

Christopher Nolan é um dos mais promissores cineastas de Hollywood da dita nova geração. Suas atuações na direção, produção e roteirização lhe renderam uma filmografia de títulos muito interessantes. Nolan é até bastante pop, mas seus filmes sempre acabam tocando de maneira muito cativante temas relacionados à psique humana. Em seus filmes o cineasta sempre acaba flertando com a ficção científica, em alguns filmes mais do que outros, porém o que se destaca muito é a capacidade de contar boas histórias, fazendo filmes comercialmente rentáveis sem deixar de lado artístico da coisa.

Tenho muito apreço pelos filmes de ficção científica em geral. São raros os bons filmes neste gênero, já que pela característica intrínseca do tema, as produções acabam se tornando caras. Naves, robôs, planetas, cidades frutistas, veículos, armas e toda essa parafernália comum a ambientação das tramas custam caro para serem construídas, mesmo com a atual capacidade de computação gráfica. Outra variante, é que não há tanto público assim para ficção científica. Talvez atualmente o tema tenha entrado mais em evidência, porém certamente durante muito tempo, ficção científica sempre foi um campo só para os nerds. Neste sentido, Nolan se tornou um dos meus cineastas preferidos da atualidade, pois consegue fazer tramas muito boas, explorando do que realmente se trata a ficção científica, da condição humana. Vejamos alguns exemplos disso em sua obra:

 

Amnésia (Memento, 2000) – Roteiro e Direção

Uma obra prima de roteiro certamente,  Amnésia é um filme que a princípio parece complexo, mas que vai se desvendando ao longo do tempo até que você entende o conceito por trás da obra. Não deixa de ter um pezinho na ficção científica, já que a história se desenrola sobre o argumento de um transtorno da memória do protagonista (amnésia anterógrada). O filme trata muito de percepção da experiência, brincando com a cronologia em que os fatos são experimentados. É um filme desafiante ao expectador, algo um pouco avesso aos conceitos hollywoodianos, onde tudo é meio que mastigadinho já. A amnésia joga um holofote sobre a construção de sentido que o protagonista faz, e consequentemente faz isso com o expectador também. Na minha opinião, o filme nos faz refletir sobre como construímos todo uma elaborada trama sobre pequenos fatos. No filme Leonard Shelby confia inteiramente em seus pequenos recados para si mesmo, fotografias e tatuagens, assim como nós fazemos com nossa memória, por vezes distorcida e infantil das coisas. Amnésia é um daqueles filmes que tem várias camadas de compreensão, você pode ver só um roteiro bem feito ou só um suspense sobre a resolução de um mistério e em ambos os casos você vai se divertir, ou você pode aceitar o convite e mergulhar nos detalhes que questionam o tempo todo nossa noção de realidade baseada em nossa memória e no sentido que damos a ela.

 

Trilogia Batman (Batman Begins, 2005 / The Dark Knight, 2008 / The Dark Knight Rises, 2012) – Roteiro, Direção e Produção

A obra que redefiniu os filmes de heróis e de longe a melhor adaptação do Batman para o cinema. A trilogia Batman foi algo que realmente me surpreendeu. Nunca gostei muito do Batman, sempre achei a motivação de Bruce Wayne fraca. O playboy de Gothan nunca iria combater o crime com as próprias mãos a meu ver. Usar a morte dos pais, o amor por Rachel nesse sentido deu certo ar de profundidade ao drama pessoal dele em sua jornada contra toda a corrupção que lhe privou das pessoas que ele amava. Nolan me convenceu que eu estava errado em relação ao morcego, trabalhando muito bem o drama pessoal de Bruce Wayne, enchendo o personagem de tons sombrios de cinza, explorando muito bem a questão da justiça, da vingança, da culpa e do arrependimento. Gosto muito dos vilões dessa trilogia, o Espantalho, o Coringa e o Bane. São vilões com consistência, profundidade e coerência que dão todo o espaço para o Batman ser o que ele tem que ser. Gosto muito também do tom mais realista dado ao Batman nessa trilogia. Em Begins, vemos toda a construção da questão central de Gothan, a corrupção. Em The Dark Knight, Wayne é levado ao limite de todas as maneiras possíveis e imagináveis e se define como um herói diferente. E em Rises, há a superação de tudo num fechamento incrível. Nolan sabia muito bem o que estava fazendo com essa trilogia, deu a ela sua cara e imprimiu um novo conceito sobre filme de heróis, o herói que cria um alterego para tentar superar suas questões pessoais.

 

A Origem (Inception, 2010) – Roteiro, Direção e Produção

Um filme que trouxe novamente ao cenário mainstream do cinema uma trama mais complexa, que apesar de auto-explicativa foi algo que fugiu a regra dos filmes comerciais lançados na época. Conseguiu encaixar ação, ficção científica e suspense, sem deixar de lado a questão artística da coisa. A Origem trata basicamente de sonhos e da mente humana num esforço de transpor o que é a mente humana em algo que possa ser filmado. Sendo mais específico, trata-se de um filme de assalto à mente humana durante o sono. Trás à tona novamente uma das temáticas mais clássicas da ficção científica, que é a exploração de terrenos desconhecidos, neste caso, o campo escolhido foi a nossa psique. O filme retrata de maneira muito interessante o sonhar explorando uma tecnologia que permite compartilhar os sonhos entre pessoas, algo que no universo ficcional do filme parece ser algo um tanto clandestino. Há ainda um pano de fundo de espionagem industrial e uma trama onde o mundo está dominado por mega corporações. No entanto, o que deixa a trama mais interessante são os dramas pessoais do protagonista e a constante dúvida entre a realidade e o sonhar. Na trama, as regras do mundo do sonhar são muito bem estabelecidas e pouco a pouco a o roteiro vai brincando com elas. Já assisti várias vezes e ainda não consegui estabelecer o que é a realidade e o que é o sonhar no filme, cada hora penso uma coisa diferente e isso é um mérito do diretor, que nos coloca na discussão sobre o que é a realidade afinal?

 

Interestelar (Interstellar, 2014) – Roteiro, Direção e Produção

Na minha opinião o melhor filme de Nolan até o momento. Esse épico espacial consegue ser muito mais do que uma história sobre viagens interestelares, toca fundo na alma humana. Com atuações primorosas, como a de Matthew Mcconaughey, o filme emociona em diversos momentos. Como toda boa ficção científica deveria fazer, Interestelar explora diversos conceitos científicos para colocar em evidência toda a natureza humana, distorcendo a noção de tempo e espaço e deixando à flor da pele os instintos de sobrevivência, os sentimentos que nos ligam uns aos outros e a esperança que nos move. Usando-se da física como a principal representante da ciência e explorando a questão da relatividade temporal, os erros e acertos dos personagens são extremamente potencializados, tornando tudo muito intenso e fazendo com que neste cenário aparecam todas as questões centrais da trama: Confiança, esperança, amor, fé, verdade, segurança, dúvida… Certamente um filme muito rico de sentimentos e de profundidade. É um filme longo, com quase 3 horas de duração, porém tudo passa muito rapidamente, pois o filme tem inúmeros conflitos que nos prendem a trama e nos fazem parte de toda aquela experiência. A trilha sonora merece um comentário a parte: Simplesmente incrível, como já era de se esperar de Hans Zimmer. Visualmente o filme também é extremamente rico, com cenários espaciais e representações muito impressionantes. Talvez um defeito que possamos elencar na trama é que Nolan explica demais as coisas, deixa dicas, depois retoma e explica-as e não cansado ainda filma tudo e mostra ao espectador. É interessante por um lado, pois se trata de um tema pouco difundido, e aproxima os leigos de conceitos como relatividade temporal, buracos de minhoca, buracos negros e outras dimensões. Por outro lado corta um pouco o tesão do espectador, que fica toda hora ouvindo explicações científicas para conseguir acompanhar a trama. Nada que prejudique muito a trama, afinal de contas, é um filme hollywoodiano.

 

Finalizando…

Vale muito conhecer a obra de Nolan e recomendo fortemente que assistam seu último filme, Interestelar. Para quem curtir muito a trama e quiser se arriscar, recomento que assistam 2001: Uma odisseia no espaço (1968) do mestre Stanley Kubrick. Certamente, vocês como eu, vão reconhecer a influência desta obra em Interestelar. Apesar do cenário muito parecido e de algumas situações extremamente análogas, as duas obras tratam de temas bem distintos. A obra de Kubrick certamente é muito superior, não desmerecendo Nolan, que fez o milagre de me levar ao cinema em 2014 e arrancar as mais diversas emoções durante o filme.

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