NÃO ENTRE EM PÂNICO #10 – Maconha

Entrando mais uma vez em um tema polêmico, essa coluna se propõe a discutir um pouco da questão da maconha no Brasil. Esse debate acabou sendo levantado durante o primeiro turno das eleições presidenciais, talvez em decorrência principalmente da legalização do cultivo da droga no Uruguai. Antes de começar a elencar aqui qualquer argumento, gostaria de abordar a questão do preconceito em torno das drogas. Bem, na minha opinião, esse é um dos principais problemas em torno do uso de substâncias no Brasil. Muitas vezes não é nem possível ter o debate com as pessoas sobre drogas, sem cair numa total negativa em relação a se informar sobre o tema antes de tomar algum posicionamento. Me vem a cabeça agora aqueles slogans Drogas nem morto, Droga é uma droga, Drogas? diga não… Essas frases prontas realmente afastam as pessoas de ter contato com o que se trata o uso e o abuso de substâncias na sociedade. Outro argumento falacioso utilizado também frequentemente para evadir-se do debate é o de ridicularização do orador, ou seja, acusar quem fala sobre de drogas é necessariamente um usuário. É como se só fosse possível argumentar em defesa própria. Sabemos que não se trata disso, portanto antes de mais nada, convido a uma desconstrução do discurso social sobre as drogas.

 

Não é possível evitar totalmente que as pessoas usem drogas

Desde que o mundo é mundo, as pessoas usam drogas. Isso é um fato incontestável. Não houve nenhuma sociedade humana até hoje que tenha conseguido exito em acabar com o uso de drogas, nenhuma delas foi totalmente livre disso. É uma utopia pensar que seja possível eliminar as drogas da sociedade, muitas delas são parte da cultura, e a questão o uso e do abuso permeia elas necessáriamente. Gosto de pensar que o ser humano sempre arruma uma maneira de burlar os sistemas de controle que são impostos a ele. Mesmo que se criarmos um sistema de extremamente eficaz para não deixar que as drogas cheguem ao usuário, por exemplo, cedo ou tarde alguém descobrirá como burlá-lo. Isso se aplica desde a nossa sociedade atual, onde as pessoas escondem cocaína dentro de embalagens no estômago, quanto as sociedades monásticas onde certamente um ou outro monge, roubava o vinho para tomar um porre. Temos que encarar que o problema das drogas é algo apenas contornável, que podemos sim amenizar os problemas em torno das drogas, mas não eliminar sua presença.  Isso acontece por uma série de motivos, vou tentar aqui elencar o principal deles de maneira bem objetiva: As pessoas gostam de usar drogas, ou seja, elas percebem que isso trás algum benefício a elas, seja o prazer do uso ou os efeitos estimulantes, depressores ou alucinógenos. Esse fator, o desejo de usar é completamente impossível de ser eliminado. Assim sendo, é preciso ter em mente que não existe uma solução propriamente dita para a questão, há sim alguns paliativos.

 

O problema das drogas não é um problema de informação ou conscientização

Na minha visão das coisas, foi-se a época em que as pessoas usavam drogas sem saber que elas faziam mal. Talvez essa época nunca tenha existido. Porém vamos definitivamente colocar uma coisa na cabeça: As pessoas sabem que as drogas fazem mal. A grande questão é porque elas usam apesar de saberem que faz mal? Talvez elas não saibam exatamente como elas fazem mal, efeitos psicoativos a curto, médio e longo prazo… Porém, saber que fazem mal já seria o suficiente para que a pessoa evitasse o uso. É raro ver alguém tomando veneno pra ver o que acontece, no entanto, no caso das drogas, além dos efeitos químicos que elas trazem, que são certamente agradáveis, há outras variáveis além destas. Acho razoável pensar aqui num quadro mais complexo, que varia muito de sujeito para sujeito. Diria até que cada usuário usa drogas apesar de fazer mal, por um motivo muito singular. Portanto não existem ações massificadas efetivas contra o uso de drogas. Simplesmente é um desperdício de tempo e recursos, já que ao meu ver, falando especificamente das campanhas publicitárias e midiáticas contra as drogas, você esta pregando para convertidos. Os usuários de drogas tem um registro na experiência concreta deles que aquilo que é dito nas campanhas não bate com a realidade. As vezes pode até ser prejudicial uma ação neste sentido, já que reforça a segregação frente a questão. Dá a impressão de que os dependentes químicos são menos espertos que nós. O que absolutamente não é verdade.

 

As drogas são só a ponta do Iceberg

Não podemos pensar drogas nunca de maneira isolada em nenhum dos sentidos. Se pensarmos na dimensão do problema social das drogas, por exemplo, como o tráfico e o financiamento da crime organizado, veremos que existem diversas forças e interesses articulados a este problema para qual interessa que as coisas se mantenham do jeito que estão. Portanto é preciso ir além do discursos moralista e pensar realmente se este ou aquele sujeito que defende a repressão do uso está realmente interessado no bem estar da população ou mantendo as coisas como estão ao seu interesse. É preciso reconhecer que nossa sociedade falhou em lidar com esta situação das drogas, talvez por tentar reprimi-la, tanto com a polícia, quanto com a mídia. Penso que o debate deveria ser tecido de maneira mais aberta e profunda para tentar achar soluções diferenciadas, que não são nem um pouco simples. Se pensarmos no problema do sujeito dependente de drogas, ai então veremos que existem diversas forças e demandas ligadas a esse sujeito que também reforçam sua dependência. Num geral, a droga é o menor dos problemas que esse sujeito enfrenta, e diria até que, em certos casos específicos, a droga vem como uma solução bastante efetiva para suas questões frente a vida. Penso que em ambos os casos faltam espaços de discussão que possam ampliar a percepção da sociedade frente a esses impasses. Falta para de tapar o sol com a peneira e reconhecer que este problema é sério, complexo e depende de uma mudança social. A mídia em geral falha muito em apresentar essas questões, sendo muito superficial e preconceituosa na maioria das vezes, mas não podemos culpá-la por isso, pois entendo que a mídia mostra apenas o que as pessoas querem ver. Quando na novela vemos o traficante como vilão, ou o usuário de drogas como um marginal, só estamos fechando mais os olhos ainda para a verdadeira questão: As drogas estão ai, e nós não sabemos como lidar com elas. O que podemos fazer nesse sentido é questionar porque a mídia só nos mostra o que queremos ver, mas isso já é outro assunto…

 

A maconha

Voltando ao ponto inicial, a questão da maconha no Brasil é algo extremamente supervalorizado ao meu ver. Caso alguém não tenha percebido ainda, a maconha, apesar de ser uma droga ilícita, já transita pela nossa sociedade sem o menor constrangimento. Hoje, em qualquer local onde tenham muitos jovens, sem ser preconceituoso e nem generalizar, é quase certo de você sentir aquele cheiro característico. Já presenciei diversas pessoas fumando a luz do dia, no meio da rua sem o menor constrangimento no meio de muita gente, no meio da semana, em horário comercial. Legalizada ou não, a maconha está ai. Acho que deveríamos ter pensado nisso muito antes, talvez há 10 ou 20 anos atrás, se quiséssemos que realmente houvesse algum controle sobre ela. A discussão infelizmente veio tarde demais, hoje talvez o paliativo mais interessante fosse o da legalização. Poderíamos discutir a forma como isso seria feito, mas ao meu ver, não há outra alternativa dada a atual conjuntura. Espero que isso sirva de lição para nossa classe política, que precisa ter sensibilidade no timing das discussões, evitando que problemas maiores se instalem

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