NÃO ENTRE EM PÂNICO #09 – Estado Islâmico

Um dos assuntos que tem mais me perturbado nos últimos tempos é a questão da criação do que esta sendo chamado de IS (Islamic State), ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant), ISIS (Islamic State in Iraq and Syria), ou simplesmente Estado Islâmico. Algo que eu, talvez por ingenuidade, achei que nunca mais seria visto novamente na história da humanidade. Pra quem ainda não entendeu, o Estado Islâmico é algo que se assemelha muito com os grandes movimentos totalitários do século XX, citando aqui o nazi-facismo e o stalinismo, onde aproveitando-se de um momento caos social, grupos de pessoas instalam um regime totalitário, em geral extremamente violento, com a desculpa de restabelecer a ordem. É muito característico desses movimentos, de acordo com Zygmunt Bauman, a busca pela ordem como pureza, ou seja, busca-se alcançar algum ideal social assimilando quem estiver dentro de certos critérios e eliminando tudo aquilo que for diferente disso. No nazi-facismo, buscava-se o ideal de raça pura, assimilando aqueles que tinham certas características e eliminando todo o resto. No stalinismo, buscava-se a classe social pura, tentando assimilar todos na mesma classe social ou eliminando os que resistissem a isso. No caso do Estado Islâmico, o que se busca é o modo de vida puro, talvez uma amalgama do stalinismo e do nazi-facismo, algo que junta tanto a questão étnica, quando a questão de ideais sociais, que devem ser pautado, grosso modo, na Charia e na doutrina sunita. Como não poderia deixar de ser, quem for contra é eliminado.

 

A questão histórica e social

A questão do Estado Islâmico está sustentada pelo completo caos social que se instalou na região após as intervenções ocidentais. O Iraque, então governado por Saddam Hussein, representante de uma minoria sunita que dominava o país, depois de anos em guerra com o Irã, que ocorreu entre 1980 e 1988, de maioria xiita, estava extremamente endividado, resolveu então solucionar esse problema invadindo o Kuwait que era um dos principais credores e extremamente rico em petróleo. Nesse movimento, o Kuwait pediu ajuda aos Estados Unidos para conter a invasão Iraquiana e foi atendido, na época pelo então presidente Bush-Pai. Alguns anos depois, já no embalo da guerra ao terror, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão em busca de Osama bin Laden e aproveitaram também para invadir o Iraque em 2003, no governo do Bush-Filho. É importante ressaltar que, não houve nenhum motivo minimamente justificável para essa invasão ocorresse. Talvez a única justificativa para essa invasão seja a viabilidade econômica da operação, pois interessava muito a reconstrução do Iraque e a exploração das reservas de petróleo, já que este papo de levar a democracia e a liberdade ao oriente médio não cola né… Bem, feito isso, Saddam foi deposto, enforcado em praça pública e foi estabelecido um governo provisório e  depois uma democracia imposta. Após muitas mortes de soldados americanos, civis e militares iraquianos, a pressão para a retirada das tropas americanas foi crescendo até que Obama resolveu retirar as tropas terrestres no final de 2011. Hoje na região, o exército americano só interveem com Drones e com aviões. Exatamente isso que você leu, o que parecia ficção científica hoje já esta acontecendo, robôs estão sendo utilizados em guerras para matar seres humanos. Acho que isso é retratado de maneira bem superficial no remake do Robocop do José Padilha.

Durante todo esse período conturbado, a população foi a que mais sofreu. Diversos grupos terroristas surgiram e neles foram depositadas as esperanças de restabelecer o modo de vida da região. Neste cenário surgem as condições ideias para o surgimento de movimentos totalitários, pois o povo cansado de ver seus iguais morrerem e sofrerem, abraça a ideia de uma vingança como a única forma de justiça. Além disso, é preciso lembrar que simultaneamente, deu-se início aos movimentos conhecidos como primavera árabe, muito impulsionados pela censura dos meios de comunicação nos países do oriente médio, pelo uso das mídias sociais e da maior circulação de informação. Na Síria, isso culminou em uma guerra civil, combatida de forma muito violenta por Bashar al-Assad, líder do governo ditatorial. Inicialmente houve o apoio aos rebeldes na Síria pela comunidade internacional, mas o que acabou acontecendo é que, nesta situação de caos, os grupos fundamentalistas islâmicos ganharam força até o ponto de firmarem uma aliança com os grupos iraquianos e formarem o Estado Islâmico.  fazendo uma análise geral dessas questões é possível ver como o grande erro do ocidente foi pensar que o nosso modo de vida seria o melhor para todos. A imposição do american way of life levou a mortes nos dois lados, tanto em atendados terroristas no ocidente, como o emblemático 11 de setembro de 2001, quanto a criação de regimes capazes de barbaridades como o do Estado Islâmico. Dos modos de organização social humanos, a democracia talvez seja o menos ruim, porém não podemos pensá-la como algo a ser imposto de uma hora para outra. O mundo ocidental vive em contato com uma certa livre circulação de informação já há algum tempo e temos consciência da importância disso para o desenvolvimento da civilização, porém quando isso se apresenta de maneira muito brusca, temos resultados catastróficos.

 

O Estado Islâmico

Uma vez que este panorama foi compreendido, é preciso entender um pouco do que consiste o grupo terrorista que declarou-se Estado Islâmico. Eles estabeleceram um califado, uma forma de governo aceita pelo islã e portanto teocrática e totalitária onde a figura do califa governa. Teoricamente o califa é um dos descendentes diretos de Maomé e por isso tem autoridade para governar. Como em todo o governo totalitário há dois grandes esforços, um de eliminar qualquer tipo de pensamento opositor e o de estabelecer uma propaganda favorável ao regime. Isso é feito através da conversão forçada, mutilamento ou execução dos opositores e de propaganda. O discurso inicial dos membros deste regime era algo que beirava o coitadismo, onde o maior apelo era o fato de serem uma minoria étnica-religiosa (sunitas) e sofrerem repressão dos xiitas e da cultura ocidental. Os membros do estado islâmico ganharam força principalmente nas áreas do onde o estado não chegava efetivamente, nas regiões mais pobres e afastadas. Atualmente o Estado Islâmico ocupa uma área impressionante da Síria e do Iraque e tem pretensão de expandir ainda mais, como é possível ver no mapa:

Territorial_control_of_the_ISIS

Questões levantadas pelo Estado Islâmico

A questão do Estado Islâmico levanta algumas questões que me perturbam um pouco. Em pleno século XXI, a humanidade mesmo tendo avançando muito na questão civilizatória, com o estabelecimento de direitos humanos e os mais diversos códigos de conduta em situação de guerra ainda continua demonstrando uma barbaridade sem tamanho. O Estado Islâmico parece ter vindo de uma outra época, uma época medieval, só que com Ak 47. Ainda estamos nos matando por questões étnicas-religiosas e ainda estamos tentando colonizar culturalmente outros povos. Mesmo depois de muitos anos, ainda sofremos com os efeitos colaterais da globalização.

Outro ponto interessante é pensar como a democracia é frágil e resultado de um esforço. Os regimes ditatoriais e totalitários foram algo muito presente na história da modernidade, tanto no leste europeu quanto na América latina, temos processos democráticos relativamente recentes, ironicamente, na Europa tivemos muitas ditaduras comunistas e na América latina muitas anti-comunistas, portanto vemos que não se trata de um movimento ligado a esta ou aquela ideologia, mas a busca desmedida de um ideal impossível de se alcançar. Nossa realidade brasileira não foge muito a isso e me espanta muito ver em época de eleições as pessoas vendo um solução nesta ou naquela ideologia. A democracia me parece um esforço ou uma tentativa de esquivar-se dos excessos, de limitar o poder, de contornar a barbaridade e a falta de humanidade presente em todo o homo sapiens.

Se algo do tipo do Estado Islâmico é possível atualmente, se algo assim ainda floresce de nossa civilização, me assusta um pouco a ideia de futuro que podemos ter. Tivemos um período relativamente longo sem conflitos de ordem mundial, mas o tempo todo estão pipocando ameaças disso acontecer. Já vi muitos especialistas desacreditando qualquer tipo de hipótese de um novo conflito de ordem mundial aconteça, por questões econômicas e mercadológicas. O que me pergunto é como lidar com questões dessas? Deixar isso se desenrolar sem controle me parece algo muito perigoso, intervir também é algo que já se mostrou desastroso. O que fazer com a barbárie humana é a questão que fica?

Gostou do conteúdo?


Curta a nossa fanpage no Facebook:  
e siga-nos no Twitter:  

O Metranca agora está aceitando conteúdo enviado pelos leitores!
Confira em: https://coletivometranca.com.br/contribua-com-o-metranca/

Veja Também

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*