NÃO ENTRE EM PÂNICO #04 – Voto

O voto no Brasil é obrigatório? Lamento decepcionar quem disse que sim, mas não é não. Isso é um erro que muitas pessoas cometem ao pensar no processo eleitoral nacional. Talvez isso esteja relacionado com nosso sentimento de falta de liberdade de escolha que temos tão arraigado em nossa cultura. Quero aqui tentar elucidar esta questão e apontar para qual é a real responsabilidade do eleitor brasileiro.

Votar não é uma obrigação, existem outras possibilidades, porém dar uma satisfação à justiça eleitoral sobre seu voto é sim obrigatório. No nosso sistema eleitoral, existem basicamente quatro opções do que fazer com seu voto: Votar em alguém ou em alguma legenda, votar em branco, votar nulo ou justificar o voto. As três últimas opções são bem problemáticas para uma democracia, talvez a única viável para um processo seja a primeira. Nesta época principalmente, vejo diversas pessoas se atendo ao fato de questionar em quem você vota. Vou dar um passo atrás neste raciocínio e dar uma importância maior ao simples fato de você votar em alguém, que na minha opinião é o ponta pé inicial para a educação política. Antes disso, vou esclarecer um pouco sobre as opções do eleitor brasileiro:

 

O voto em branco

Votar em branco (apertar a tecla “BRANCO”)é dizer para a justiça eleitoral que você não se importa, que tanto faz quem suba ao poder ou quem caia, você está se abstendo desse direito de escolher. É bom frisar que o voto em branco não carrega nenhuma mensagem de protesto. Pelo contrário, é uma manifestação de conformidade em que o eleitor dá a sua escolha aos que estão escolhendo realmente alguém. Tira seu poder de variável na equação. Diz claramente, estou feliz com qualquer resultado. Na minha opinião é o pior tipo de escolha que podemos fazer. É a total apatia política. É um voto que obviamente não entra para a contagem de votos válidos. Sempre achei esta nomenclatura de votos válidos e votos não-válidos (inválidos até) muito precisa. É realmente disso que se trata. Existem dois tipos de voto, os que tem algum valor, portanto são válidos e os que não tem valor. Na prática é simples assim.

 

O voto nulo

É digitar um número que não corresponde a nenhum candidato e dar confirma, (00, por exemplo). Muitas pessoas apoiam o voto nulo como forma de protesto, como algo que carregue a seguinte mensagem: “Nenhum dos candidatos merece meu voto”. Em certo ponto concordo com eles, pois é essa a mensagem que o voto nulo carrega e neste ponto ele se diferencia do voto em branco, pois carrega alguma mensagem de inconformidade. Porém não consigo ver como ele se diferencia do branco objetivamente. Brancos e nulos não entram na contagem de votos válidos. Portanto é a mesma coisa do voto em branco neste aspecto. Não deixa de ser uma certa apatia a política, ou como eu prefiro chamar, aversão política.

 

Justificar o voto

Talvez das três opções que eu estou atacando aqui, esta seja a mais polêmica. Entendo que muitas pessoas não tem a possibilidade de votar, por estarem no exterior ou em viagem durante o período da eleição. Aliás, com a tecnologia que temos hoje, seria muito simples fazer com fosse possível se votar em qualquer lugar. Bom, mas não é isto que me refiro, mas sim ao fato de existirem muitas pessoas que “hackeiam” o sistema eleitoral. Mudam seu local de voto para outra cidade e justificam seu voto em todas as eleições. São aqueles que acham brechas no sistema. Este além de ter apatia ou aversão política, ainda por cima não assume isso. Não preciso nem lembrar à vocês que estes são votos sem valor, votos inválidos.

 

O problema dos votos inválidos

Na última eleição para presidente (2010),  tivemos 135.804.433 eleitores. Deste total, no segundo turno, quase 27% destes votos não foram votos válidos. Num geral foram cerca de 21,5% de abstenções. Este dado me causa grande preocupação, pois é muita gente no país que de fato tem aversão ou apatia política. Pensando nisto podemos realmente afirmar que potencialmente uma educação política, ou até mesmo o compromisso de aceitar dar algum valor ao seu voto, torná-lo válido, mudaria o rumo de muita coisa. Talvez a apatia ou a aversão política seja um dos principais problemas da democracia brasileira, muito mais do que a famigerada corrupção.

Vejo muita gente reclamar da política, generalizar a situação, simplificar as coisas para poder justificar sua falta de interesse em mudar as coisas. Em uma democracia, temos que ter em mente uma coisa: Nós, o povo, é que temos o poder. Melhor dizendo: Nós temos a responsabilidade. Não podemos culpar o povo brasileiro pela corrupção de seus representantes, mas podemos tomar isso como um problema nosso. A indignação, a crítica e a mobilização são práticas que devem ser constantes. Infelizmente, vejo que há uma boa parcela da população que está extremamente distante disso. Que não se dispõe nem a votar, nem a participar minimamente do processo eleitoral. A democracia foi uma luta e exige um esforço para que funcione, ela prima e reflete de certa maneira a vontade do povo. Quando o povo não tem nem vontade de participar, temos as condições ideais para a farra da corrupção institucional no estado Brasileiro.

Desta maneira, é interessante para quem parasita o estado, que você seja um analfabeto político, que você entenda que todos são corruptos, que todos os partidos são verdadeiras quadrilhas, que todo o candidato está ali defendendo seus interesses próprios, que você dissemine imagens nas redes sociais de ódio a política ou a certos partidos, que você entenda tudo como farinha do mesmo saco. Tanto que das 4 opções em relação ao voto, apenas uma é a que tem algum valor. O próprio sistema te dá três maneiras diferentes de tirar o corpo fora do processo. Realmente é difícil pensar que o voto é obrigatório.

 

Voto válido – O voto com valor

Diante disso só há uma coisa a dizer, independente de sua escolha, vote em alguém. Torne sua participação algo válido, nem que seja escolher alguém por eliminação. Isso faz parte da educação política. Ver os erros e escândalos de corrupção do seu candidato ou partido vão, certamente, lhe fazer refletir sobre como é possível e fácil manipular a sua opinião. Com duas ou três falácias ou mesmo com o uso de oratória básica vejo diversos candidatos conquistando um número assustador de apoiadores. O posicionamento político, mesmo que depois seja revisto,  gera algum amadurecimento crítico pelo menos. Pode gerar alguma indignação e talvez desperte a mobilização. Só assim é possível ver o seu voto como algo que tenha algum valor. Algo que repercute na sua vida diretamente.

Todo voto tem um certo nível de aposta. Obviamente não é uma aposta totalmente aleatória e tão pouco é totalmente um lance de sorte, mas não deixa de ser. É preciso apostar que alguém possa dar conta dos problemas do país. É preciso também sempre ter em mente a possibilidade de falha desta pessoa neste investimento e assumir seu papel. Só assim teremos uma democracia sólida de fato, pois o próprio processo pode educar, basta somente sair da inércia.

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