NÃO ENTRE EM PÂNICO #03 – Ateísmo

Religião é um tema bastante polêmico, portanto vou tratar aqui dele de uma maneira bem pessoal. Não quero que ninguém pense que o que eu escrevo aqui é a verdade absoluta, só que é meu ponto de vista baseado nas minha experiência singular de ver o mundo.

Uma das questões que por vezes me fazem nos mais variados contextos é: Qual a sua religião? Como se fosse quase que obrigatório eu pertencer a alguma. Sempre quando minha resposta vem, dizendo um singelo “-Sou ateu” o que se estabelece geralmente é um silêncio constrangedor, na melhor das hipóteses. Quando digo que sou ateu, noto que algumas pessoas já me olham diferente. Nunca entendi muito bem isso, esta relação tão peculiar que as pessoas tem com suas crenças e no meu texto vou tentar conjecturar sobre esse estranhamento. Mesmo não compreendendo muito desta estranheza reconheço a importância do tema e vou aqui contar um pouco do meu background de espiritualidade, mitologia e misticismo, só para que entendam de onde eu falo.

Cresci em uma família cristã, católica apostólica romana pra ser mais exato, fui batizado, fiz catequese, renovação dos votos do batismo e iniciei a crisma, que por motivos ideológicos acabei não concluindo. É importante frisar que, apesar desta formação católica, tive influências de outras leituras espirituais ao longo da vida. Não sei precisar muito bem o que veio primeiro e o que veio depois, mas me lembro de ter contato com a filosofia espírita, kardecista para ser mais exato, bem cedo, por influência de familiares.  Como um bom nerd que sou, quando tinha meus 5 anos já assistia os excelentes animes Cavaleiros do Zodíaco e Shurato, que me introduziram a um dos meus principais interesses: A mitologia. Não quero dizer que o que eu sei de mitologia veio através destes animes, mas certamente me despertou o interesse inicial. A partir daí tive contato primeiramente com as mitologias grega e hindu , a nórdica e a egípcia vieram em seguida, e bem, isso me fascinou muito. Sempre tive interesse por fantasia em geral. Neste sentido, a mitologia sempre foi um prato cheio para mim. Para além do meu interesse em fantasia, havia algo na mitologia que, a princípio, eu não sabia dizer exatamente o que era, mas que me dizia muito sobre o mundo e me dava muito material para reflexão da realidade. Tive também contato depois com a mitologia judaico-cristã, justamente nesta fase da catequese.

Gosto de citar essas experiências para estabelecer o primeiro ponto da minha argumentação, baseado na concepção de que a religião advém da mitologia. É notório que em todas as religiões encontramos algum tipo de mitologia que baseia seus sistema de crenças e costumes, explica a criação do universo e o propósito do homem. O principal ponto que quero levantar aqui é que mesmo sendo ateu, eu continuo considerando o valor destas produções míticas. Penso que os teístas, partem da crença de que sua mitologia de fato aconteceu e ela explica e orienta a conduta do ser humano no mundo. Eu como ateu penso nas metáforas contidas nestas histórias e na suas aplicações à experiência humana, sem me prender ao que uma ou outra diz. Para ser mais claro, sem dar valor de verdade absoluta e literal a elas. A mitologia não está ai para estabelecer fatos, ela trás um certo simbolismo que remete a experiência humana subjetiva de forma a ser compreendida nos mais diversos contextos. As metáforas ali contidas podem ser compreendidas por uma grande parcela das pessoas que as leem.  Até por isso que elas resistem ao tempo e são transmitidas até hoje. O que vejo de vantagem no ateísmo é que não há nenhum tipo de restrição para que você possa explorar outras mitologias. No caso do teísmo há uma escolha de mitologia. Alguma delas será privilegiada com o status de verdade. Neste sentido, para mim, ser ateu significa estar aberto para que qualquer história mitológica possa ressoar dentro de minhas inquietações existenciais, sem discriminar se ela está ou não canonizada dentro do sistema de crenças da minha religião. Além é claro de me dar oportunidade de interpretar a mitologia livremente.

O que também acontece quando digo que sou ateu é tentarem me mostrar que isto é errado. Já ouvi vários sermões de pessoas tentando me convencer que esta opção era algo inadequado, que eu era um grande ingrato, pois Deus tinha me dado tantas coisas boas na vida! Como eu não conseguia reconhecer isso? Bem, se considerarmos toda a civilização humana e todas as religiões que já existiram, fica muito claro que não se pode afirmar que esta ou aquela religião é a correta. Obviamente a religião é algo fundamental para a civilização, tanto que aparece em todas as culturas e em todos os momentos da nossa história. Já pensei muito sobre isso e uma das últimas leituras que fiz destas reflexões é que a religião reflete muito qual tipo de ordem vigente temos naquele determinado momento histórico. Os egípcios veneravam deuses ligados a natureza. Rá o deus Sol, por exemplo, pois a ordem mais influente naquele momento era a ordem natural. As cheias e as secas do rio Nilo determinavam a vida (ou a morte) daquele povo. Já os gregos veneravam os fenômenos psicológicos, citando aqui Eros o deus do amor, pois se davam conta do poder da ordem psíquica sobre a humanidade. Os hebreus veneravam Javé (ou Yahweh), que hoje chamamos simplesmente de Deus na tradição cristã, que é a representação do bem e da justiça, pois vislumbravam o poder e a importância da ordem moral para a organização das sociedade. E hoje? O que veneramos? Vivemos em um período onde podemos dizer que a ordem racional é a mais poderosa. A ordem moral já não tem mais todo esse peso e representatividade. Portanto se partimos deste ponto de vista, seria o mais adequado atualmente que todos fossemos religiosos da ciência? Hoje, por mais irônico que isso soe, a ciência ganhou esse valor de religião para muita gente. Há uma grande crença que a ciência pode dar respostas para tudo. Bom, isso é outra discussão pra lá de cabeluda. Só quero deixar claro uma coisa: Ciência é um método, não uma verdade. Ser ateu neste sentido é simplesmente poder transitar nestes sistemas de crença na ordem, poder dizer: Não há uma ordem para tudo no mundo! Certo e errado são conceitos que se tornam muito valorizados a partir da ascensão da tradição religiosa moderna. É por esta razão que ser ateu soa como algo errado para muitos dos teístas, que aprenderam a ler o mundo desta maneira, que acreditam na existência bem definida do certo e o errado.

Outros ainda, quando digo que sou ateu devem pensar que eu, obviamente adoro o diabo, lúcifer, satanás, demônio,  pata-rachada, mochila-de-criança, belzebu, bafomé, catiço, capeta, coisa ruim… Seja lá qual seja sua crença… Me colocando numa polarização contra eles. Não se trata disso meus caros, ser ateu é justamente não acreditar em nada disso.  Acreditar em qualquer coisa do tipo seria teísmo. Imagino que para estas pessoas seja muito absurda a ideia de que se pode viver uma vida sem acreditar que alguma força superior tenha criado e planejado tudo. Quando eu ainda tinha alguma crença em Deus, eu pensava que tudo na vida tinha um sentido, tinha a fantasia de que estava tudo meio que escrito num livro mágico do destino e que a nós só cabia segui-lo. Pensava na vida como um filme, onde eu era o personagem principal que devia passar por provações e sofrimento para no final obter o tão esperado final feliz. Hoje me lembrando disso fico um tanto quanto chocado e penso: Que visão mais aprisionante de vida! Conforme fui crescendo e pensando sobre toda minha experiência de vida fui percebendo que essa visão de que a cada um cabe somente seguir algo pré-determinado e achar que o mundo todo conspira ou gira em torno de nós é um tanto quanto infantil demais. O mundo já estava ai bombando muito antes de nascermos e vai continuar a bombar muito depois de partimos. Perceber a sua insignificância é algo muito libertador, pelo menos para mim. Hoje vejo a vida com múltiplos sentidos, muitas vezes contraditórios, muitas vezes só depois de muito tempo é que atribuo um sentido para aquela experiência específica vivida. Penso que cabe a cada um esta tarefa de dar um sentido único a sua experiência, e fazer isso quando achar necessário, pois o sentido está ai para ser usado como uma ferramenta, mas não é obrigatório o uso dele não. Suportar também que nem tudo tenha um sentido também faz parte de um amadurecimento. Não espere que depois de muitas coisas ruins acontecerem na sua vida que algo de bom virá para equilibrar as coisas. A vida não é meritocrática, muitas vezes nos esforçamos e fazemos de tudo para que algo desejado aconteça e simplesmente isso não acontece. Muito da vida fica ao acaso, foge a qualquer merecimento ou esforço para controlar os resultados. A nós muitas vezes cabe simplesmente lidar com a realidade.

Por vezes, quando ouço ou leio esses belos discursos sobre o divino, Deus e seus planos, muitas vezes em redes sociais, me questiono sobre o seguinte: Será que realmente as pessoas acreditam de fato nisto? Para mim o ateísmo foi um caminho muito intuitivo, ninguém me trouxe para fora do teísmo. Muito pelo contrário, os teístas me afastaram cada vez mais de suas crenças. Todo contato com a crença teísta era algo muito artificial para mim. Eu só acreditava por não ter outra alternativa. Não era algo que você descobria ou chegava a conclusão que realmente ajudava a explicar melhor o mundo, era sempre algo que me passava a impressão de que para alguém é interessante que eu pense desta forma. Para ficar mais claro: Vamos pensar sobre o criacionismo. É simplesmente absurdo hoje, diante das descobertas que temos, acreditar nisto.  Isso exige uma disciplina mental absurda de ignorar certos fatos e conhecimentos que tornavam insustentável, para mim, acreditar nesta parte da doutrina cristã. Esse controle de pensamento sempre foi algo claro na minha visão das coisas, algo que eu percebia desde muito cedo e que decidi não me submeter. A realidade para mim questiona o tempo todo o teísmo e penso que isso também aconteça com as outras pessoas. E porque elas se mantém religiosas?

Para mim a religião não servia de grande ajuda. Talvez meu excesso de pensamento crítico tenha algo haver com isso, mas admito que para muitas pessoas ela sirva sim. Sempre tive o contato com diversas leituras místicas, espirituais e religiosas de mundo, por isso mesmo que decidi buscar a minha própria, e encontro no ateísmo algo que as pessoas encontram na religião, conforto. Diante da falta de sentido do mundo, das dificuldades inerentes a qualquer ser que vive e portanto sofre, da imprevisibilidade dos fatos, do tempo que é implacável e de tantos outros fatores, a religião pode servir como um porto seguro, um lugar onde a pessoa pode se refugiar temporariamente da loucura que é viver. Para muitas pessoas, a religião é o único recurso restante para lidar com tudo isso. Não as discrimino por isso. Sei que existem muitas pessoas como eu, que não veem muita vantagem no teísmo, que já perceberam muitos pontos que levantei neste texto, mas que nunca refletiram sobre sua real posição frente a crença em alguma divindade. Lembro que uma época eu me dizia agnóstico, que basicamente era ficar em cima do muro, eu explicava dizendo que eu não sabia se Deus existia ou não. Bom, mas quem sabe de fato? Hoje vejo que poder assumir um ateísmo é o ideal. Não se trata de saber, mas de acreditar.

Para concluir meu raciocínio, algo que me ajudou a pensar muito sobre as diversas questões que cercam a crença religiosa foi o excelente livro “Deus, um delírio” do Richard Dawkins. Se você se interessou sobre esta discussão é uma leitura quase que obrigatória, independente da sua crença.

Minha maior intenção é fazer com que as pessoas respeitem não só as religiões, mas a opções de crença de cada um. Que aquele velho ditado: “-Religião não se discute” caia por terra, que as pessoas encontrem conforto em suas opções de crença e não simplesmente repitam a mesma forma que lhes foi imposta.

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