Novo punk: confira os lançamentos do último outono do selo curitibano Meia-Vida

O Meia-Vida nasceu em Curitiba, em meados de 2012, fundado por Aline Vieira e Gustavo Paim que queriam lançar seus sons e sons que eles gostavam de amigos, assim, decidiram criar um selo para isso. Havia o apreço pela estética de lançamentos de noise e música industrial dos anos 80 em cassete, mas se questionavam sobre o motivo de lançar nesse tipo de material na era do pós-MP3; até que um dia ao ouvir o som “Half-Life”, do Swans, e debatendo sobre várias questões do selo, chegaram ao ponto chave: meia-vida. Em entrevista ao site O Volume Morto, Aline conta que o termo tem origem na existência necessária para alimentar essa produção musical, por terem nascido sem os privilégios para conseguir equipamentos ou material – além do conceito químico, que trata da semi-desintegração dos elementos.

O selo explora as possibilidades sonoras da fita cassete, à sua degradação natural e o fato dela tornar-se ruidosa com o decorrer do tempo. A partir disso, o duo lançou o seu projeto conjunto drone/noise Cama Desfeita; os projetos-solos de Aline, como o Excria Reverbera e o Flores Feias; o álbum de Paim; as inúmeras bandas que ambos participam ou participaram com outras pessoas; trabalhos do Concreto Morto, do paulistano Objeto Amarelo, do francês Vomir, entre outras n coisas – como as que estão abaixo, lançadas no último outono. Sempre focando no DIY e observando o punk por uma outra perspectiva.

Clan dos Mortos Cicatriz – Febril

Quando o sangue coagula e vira lodo, a saliva seca vira cuspe pelo desconforto e o suor escorre ferozmente pelo corpo exausto. Febril é sobre essa agonia cotidiana que passamos diariamente, ao se sujeitar a determinadas situações e apenas engolir, criando feridas e podendo ser implodidas a qualquer instante quando o corpo “não aguentar mais”. Isso gera o pus, a coisa que trabalha entre a tensão, que pulsa querendo romper essa barreira.

Para tal, o quarteto (Ênio no baixo, Felipe na voz, Michael na guitarra e Weliton na bateria) se utiliza de uma sonoridade ainda mais catártica que a do seu primeiro álbum, explorando o clima franco do black metal em retratar as impurezas; soma-se também a isso o punk japonês e toda sua virulência. O som é agressivo e traz letras que abordam a hipocrisia diária, da qual acatamos na maioria das vezes e sem pensar duas vezes. Os questionamentos de “Tinta” e “Suor”, segunda e terceira faixa do registro, focam justamente nisso (Isso seria certo ou errado?). Destaco também um ótimo trecho lírico do último som, “Batalha”:

Em meio à poeira
Dos livros que eu li
Existe uma mensagem
Que me conta quem eu sou
Combater / Dar batalha
Assombrada por formas estranhas
Que em nada se parecem
Com um ser humano
E ainda assim me seduz

Magim – Ignis

O colega Rodrigo Luz sabiamente definiu o som do Magim como um “Exit Order com mais raiva”. E é bem por aí mesmo. O trio, composto de A.V. (vocal e letras), N.C. (guitarras, percussão e ruídos) e M.W. (baixo e bateria), age de forma incendiária e usa o fogo & calor para enxergar sob a escuridão.

Diferente do seu primeiro EP, o Magim vai para um caminho menos jazzy e mais metalpunk, utilizando-se da aura oculta que geralmente envolve o som de bandas de metal para ampliar a sua atmosfera mística. Prova disso são os riffs lentos e barulhentos de “Ignis (ab igne ignem)” que potencializam os clamores por fogo na voz de A.V.; e “Discronia, com suas batidas psicodélicas e o reverb pulsando o vazio.

As Lágrimas – Estamos Todos Nervosos

Do que efetivamente nós somos a favor? Aonde iremos agora? Há algo pelo qual realmente valha a pena lutar? Tudo é efêmero, e nessa era de (pós-)internet pipocando informações e opiniões absurdas a todo instante – por nós e por eles -, o que queremos é só abandonar isso e se entregar para algo ou alguém; qualquer coisa que nos tire desse pragmatismo doentio e que nos faça sentir selvagens e livres. Alguma coisa mais real, onde errar seja normal, e o natural é enfrentar essa barra pesada de lidar com as bads.

Estamos todos nervosos porque o que importa está se esfacelando: o carinho, as amizades, o nojo, o tesão… Os sentimentos que nos fazem humanos e que dão sentido pra seguir cada dia. E o que resta disso é a culpa, o fracasso e o medo. Fernando Theodoro (vocal e letras) e Gustavo Paim (guitarra, baixo e eletrônicos) – mais Michael Wiselque na bateria – não têm a presunção de fazer uma crítica a isso-tudo-que-tá-aí; são só músicas libertas da angústia que invade a alma.

“Os vasos estão descascando / E vocês não estão fazendo nada a respeito”. Rasgue tudo isso e comece de novo.

Cãos – Domesticado

Como bem escreveu o site Floga-se certa vez, Cãos é uma palavrinha que não existe na língua portuguesa, numa brincadeira com o “caos” e “cães” – estes que habitam as ruas e observam o descontrole do ambiente urbano instável. Assim essa banda curitibana grita (late?) sobre o mundo de vidro, fazendo perguntas a si próprio sobre como se desvincular dessas amarras que nos prendem nessa miséria de briga por migalhas e ego (há outra escolha?).

A voz rouca de Gustavo tenta se livrar desse desespero acarretado e exprime a rudeza anêmica que vive por dentro da casca. Cada som traz também um instrumental intenso (nas mãos de Akio, no baixo e saxofone, Ariel, na guitarra, Michael, na bateria, e do próprio Gustavo nos eletrônicos) que vai do calmo ao extremo para que essas reflexões cantadas tenham mais profundidade ainda e as respostas ressoem com mais vigor ao ouvinte. Todas as músicas são grandes histórias que se conectam, mas destaco “Estrada da Morte”, que possui uma construção inebriante.

Shows em Joinville

Vale mencionar que neste domingo (23/09) acontecerá o evento Domingo Cinza, organizado pelo coletivo Cinza. As bandas Clan dos Mortos Cicatriz e Cãos, mencionadas aqui, se apresentarão lá. Também tocarão Ariel Teske, realizando uma apresentação envolvendo sons eletrônicos, samples, improviso, ruídos e muito experimentalismo; a joinvilense Esmectatons, com músicas do seu disco Fashion Model Contest, além de outras músicas de alguns de seus mais de 60 discos, inéditas e improvisos; e Gustavo Paim, que abrirá a noite com poemas do seu livro Atribulação Infinda, lançado em março deste ano pela editora Livros Fantasma. Confira o serviço abaixo:

Domingo Cinza
Data: 23/09
Local: Garage Bar (o novo)
Endereço: Rua Inácio Bastos, 812, Bucarein
Horário: das 18:00h às 23:00h
Valor: R$ 10,00 (pagamento somente no local e em dinheiro)

Proibida a entrada de menores de idade

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Giovanni Cabral
Sobre Giovanni Cabral 47 Artigos
Um genuíno caipira hipster das sombras que aprendeu a lidar melhor com os seus fracassos do que com qualquer vitória ilusória. Aqui e em outros escombros da internet, sou divulgador, pseudo-crítico e produtor de arte.

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