O hip hop do Caiman e o Paraí$o Fiscal

“Existem paraísos fiscais porque existem também os infernos fiscais”

 

Da esq. para dir. HDK, Barack e LEF.

Imaginem Caiman como um carro, o DJ Lef dá a direção no volante, o Patrick HDK é a lataria bonita, o Barack é o motor que faz o carro funcionar. Esse é o grupo Caiman. Comecei a reportagem com a analogia do Barack. Foi ele quem criou a frase durante a entrevista.

João Victor Gomes Sara, 21, tem o nome artístico BarackStyle. Ele começou a se aventurar nos beats quando saiu do ensino médio. Barack já escrevia letras antes, durante o ensino fundamental na escola Anna Maria Harger. Tinha um grupo chamado School Crew na escola, que o Patrick também fazia parte.

Patrick Albonico, 20, começou no freestyle durante a sexta série, na escola Anna Maria Harger. “A gente rimava na zoeira, uns freestyle (sic), uma coisa ou outra, aí começou a ficar mais sério”, disse HDK. Chamavam de Batalha da Escola ou Batalha do Recreio, uma galera colava ao redor. “As supervisoras ficavam bravas, achavam que tinha treta rolando”, disse o rapper. Na sétima série ele começou na Batalha da Brixton. “Comecei a batalhar ali, toda oportunidade de batalha eu participava, tinha que esperar um show de rap pra rolar, era bem escasso”, Patrick comparou com hoje, que já existem batalhas mensais em Joinville. O rimador entrou no freestyle mesmo em 2012, não sabe quantas batalhas já participou.

HDK na 7ª BdP. 04/2017. Foto: Lucas Borba.

Lucas Eduardo de Freitas, Dj Lef, tem 28 anos, entrou no rap em 2002, começou a produzir em 2006, mais de 13 anos de caminhada, mas também já participou de outros grupos. DJ Lef era o vendedor responsável pela Brixton Hip Hop Raro. “O Barack começou a colar lá na Brixton pra trocar ideia e mostrar um som”, disse o DJ. Naquela época rolou evento, o Primeiramente, que o Patrick HDK ia cantar, ele foi chamado para abrir. HDK tinha recém saído do Presságio, ele cantava e não conseguia aguentar o show inteiro. Sendo assim, chamou Barack para fazer dupla no show do Xamã, essa junção resultou em duas músicas da dupla, levando adiante a ideia da formação do grupo.

Os DJs são responsáveis pelo funcionamento do som. Eles não se limitam a tocar os discos, também fazem uso criativo dos aparelhos, experimentando e, com isso, compondo novas músicas. O rap nasceu com esses DJs que começaram a tocar. Com o tempo, surgiu uma divisão grande entre o DJ, responsável pelo som, e o Mestre de Cerimônias (MC), o que canta sobre a base rítmica.

No show do Djonga, em outubro de 2017, eles abriram como dupla, mas ainda não tinham o nome Caiman. Só que, no show do Djonga, o grupo já tinha a música Rap&Weed gravada e mixada. O nome foi decidido quando receberam o convite para abrir o show do Racionais. Foi na mesma semana de ensaios que decidiram, mas ainda assim receberam o convite como dupla. O primeiro show que firmaram com o nome foi em janeiro de 2018, numa batalha na Central das Rimas, o Caiman nasceu oficialmente ali.

Sobrevivendo no Inferno, o quinto álbum do Racionais MC’s, está na lista de obras obrigatórias para o vestibular da Unicamp de 2020. O álbum de 97 está na mesma categoria de Luís de Camões e Ana Cristina Cesar. O rap chegou ao Brasil há uns 35 anos, durante os anos 80, e teve origem com a chegada de jamaicanos aos EUA, no fim dos anos 60. Muita coisa mudou. Hoje tem mulheres, festas, carros e dinheiro, mas ainda há protesto e poesia.

“O projeto Caiman acaba sendo mais pra festa em si do que algo mais educativo. É mais focado pro dinheiro mesmo”, disse o DJ Lef. Barack complementou que, por mais que soe estranho, é mais pra fazer festa do que qualquer outra coisa. Usando outra analogia deles, Caiman é uma fuga das ideias de segunda a quinta, Caiman é fim de semana.

“Tem os dois lados, tem que ter o rap educativo, para ser usado nas escolas, mas também tem que ter o rap pra diversão”, disse Patrick HDK. Ele disse que a maioria das batidas não pode tocar na sala de aula, mas toca pro público da sala de aula, o que acaba sendo uma fuga da rotina para todo mundo.

“Essa nova geração do rap está entendendo que não é vergonha a gente fazer dinheiro com o que a gente gosta”, disse DJ Lef. Há 15 anos grupos diziam que só tocavam por amor, “mas amor nunca pagou conta de casa”, complementou. Os projetos solos deles tem bem mais ideias construtivas para serem usadas nas sala do que o grupo em si.

Surgiu uma conversa sobre as batalhas de rap na cidade durante a entrevista. As batalhas são eventos de bairros que salvam o hip hop, que mudam a cabeça da juventude que está ali, são portas de entrada. O jovem de 15 ou 16 anos muitas vezes não tem dinheiro pra balada de rap, ou os pais proíbem. São realidades muito diferentes, no Jardim Paraíso, por exemplo, o casal que organizava batalhas defende que rap é protesto, é para transformar a realidade. Vocês podem conferir aqui uma matéria sobre a Batalha do Paraíso (BdP). DJ Lef respondeu o seguinte:

“São pontos de vista, a realidade que vivem é diferente da nossa. Não retiro a visão deles, é outra vivência. Hoje perdeu um pouco desse negócio de ser só protesto. O Brasil é o Brasil há 500 anos, cara, nada mudou. Não vinga se a gente ficar falando a mesma coisa, Sabotage no meu tempo não dá, é muita tristeza, entende?”, reflete. Ele defende que se funk pode falar de animação, sertanejo pode falar, por que rap não pode? Porém, Caiman também tem seus momentos de protesto.

“Mas se é pra bater de frente com algo, que seja de forma animada, que aquilo fique na cabeça, que a gente não lembra como uma coisa triste”, continuou Lef. Chegar em casa e botar um som que pode levar a visão de forma engraçada é o jeito deles de protestar.

O HDK citou uma das entrevistas do Mano Brown, que vou colocar um trecho aqui:

“Ali tem mensagem religiosa, familiar (sobre o Sobrevivendo no Inferno). Essas coisas a gente não apaga da mente da gente. Agora, se a sociedade está precisando ouvir essas músicas, é um sinal que, de alguma forma, ela regrediu. Não é bom quando sons antigos continuam fazendo sentido. Aqueles assuntos já eram para terem sido superados, e alguns já foram”.

 

Dj Lef disse que som de protesto é um pensamento mais de quebrada, são realidades diferentes. “HDK é um freestyleiro, eu não gosto de freestyle, mas é a maior porta de entrada para nossa cultura hoje, são visões distintas”, disse.

O trio disse que a favela já sabe o que é o Negro Drama. “A capa do nosso disco é uma praia, pra gente sair disso, senão pega foto nossa e coloca um muro pixado no fundo”, disse Lef. Segundo eles, a galera que é de outra realidade já não daria o clique porque é rap, não quer ouvir. “Um outro formato, uma música que fale com outra sociedade, pode fazer sair da bolha”.

Eles defenderam que precisam levar as ideias para outros grupos, o que tinham que falar para a galera do rap já foi falado. “Se todo mundo falar a mesma coisa, deixa só um grupo na ativa ou escolhe um para representar”, disse Barack.

O nome do novo álbum tem muito a ver com uma situação que criaram a partir do momento que criaram o nome do grupo, é um cd meio roteirizado, surgiu das Ilhas Caiman, assim como a capa. Barack sempre deu a ideia do grupo ter um nome que lembrasse luxo, nome de banco ou cassino. Num dos ensaios pro show do Racionais, O HDK perguntou “por que a gente não procura um banco lá nas Ilhas Caiman?”. Firmou.

“Show do Caiman” é o nome da primeira faixa do álbum. “A ideia do Paraí$o Fiscal é dinheiro”, disse Barack. Pedi para que eles comentassem as músicas, uma delas é a “Dox Gudang”, é uma das minhas preferidas, mas sou suspeito como repórter. “Bastante gente se identifica, é o resumo de um rolê, uma noite, umas 40 ou 50 pessoas se identificam de verdade, era um rolê de faculdade”, comentou Patrick.

A história de Dox Gudang é uma cena engraçada. Eles no pique da música, bêbados, o rolê era num apartamento. Foram no terceiro andar do prédio e bateram numa porta: “pô, mano, tem muito silêncio, acho que eles tão disfarçando alguma coisa”, pensaram. Aí o HDK chamou a galera num grupo no WhatsApp. Escutaram uma porta abrindo no andar de baixo, eles subiram andar errado, a festa era no 2º. “Mas, síndico, não entendi seu tormento, vai dizer que não pode 35 num apartamento?”, é um verso da música.

“Na verdade, eram 40 pessoas, colocamos 35 pra caber na rima, polícia e vizinhos reclamando”, saíram do rolê, mudaram o pico. Acharam a casa de outra pessoa e ficaram por lá até altas horas. O áudio no final da música foi o HDK que fez de madrugada, num grupo do WhatsApp.

“Atitude pouco pensada, se beber não subo a escada. Vai acabar correndo risco de bater na porta errada. Tudo muito singelo até a viatura bater, mas quem sabe faz ao vivo e muda o pico do rolê”, eles cantam o que vivem.

O responsável pela divulgação é o Barack, ele faz a distribuição no Youtube. Ele fazem tudo, desde o logotipo até a divulgação. “Temos projetos futuros para conseguirmos formar uma equipe, tanto na questão de venda de shows, como na divulgação online”, disse Barack.

Lef largou duas faculdades para viver como músico. Corre bastante como dj, toca na black music de Joinville. Na parte de marketing, cuida muito do próprio Instagram. “Falo pros meninos que não consigo vender eles ainda, a minha fita e as deles. Me preocupo muito com o meu, com pagar aluguel. Ainda bem que temos o Barack. O mais cabuloso, o que cobra a gente”, disse ele, Barack é o motor, como disse anteriormente.

Segundo eles, Barack é o mais obstinado, Patrick HDK é universitário e está quase casando. “Embora eu seja o mais velho, chega uma hora que enche o saco. Barack tá na febre de dois anos, deu um gás na galera inteira. Fica à mercê do Barack ou não acontece”, disse Lef.

BarackStyle. Foto: Elton Pedroso.

 

Eles defenderam que o rap tem que ser um trabalho levado a sério, a música é um produto que vendem, como qualquer outro produto, não pode ser simplesmente jogado. Rap é vivência, não é só falar e escrever errado. “A nossa capa parece de rap?”, me perguntaram. Eu respondi que parece de funk ostentação.

Patrick disse que muita gente não escuta rap pela visão que tem, então não dá nem espaço pra conhecer. “Tem muito som nosso que é mais voltado para público de festa, nem sempre tem esse público que é mais do gueto, muita gente desse público por ver uma capa de gueto, nem dá oportunidade para conhecer”, explica o MC.

Eles precisam estar onde pagam, onde seja possível viver de música. “Funciona como uma empresa, a gente monta o produto e define o público alvo”, explicou Barack. Fazer algo da melhor forma possível para que alguém compre não é se vender. “Rap tem que ser o que ele quiser, aquilo que tu canta, aquilo que tu vive”, completou Patrick.

Eles fazem som falando de festa, de cachaça, todo o rolê deles é escrito e cantado de forma engraçada. “Se for ver nos rolês, a gente tá sempre daquele jeito, com o copinho na mão, não é forçado, é nossa vivência”, defendeu a dupla de MC’s. “Por que não vender se a gente vive aquilo ali?”, continuou Patrick.

Rodrigo Bujik é o professor deles na caminhada, de família musical, do samba, deu todo um suporte para eles, tem um estúdio. Se chegar numa roda de samba e perguntar, vão saber quem é. Tem a participação dele no refrão da música “Brisa que passou”. “DJ Lef caçando sempre o mais adequado para cada faixa”, disse Patrick.

A maior parte do CD ficou na mão da dupla de MCs, pra ficar mais a cara deles. “Demos liberdade para os beats, e liberdade para nós, mais próximos, construirmos a parada”, completou o DJ. Na música Rap&Weed, eles criaram a introdução conversando, botaram a música na abertura do show do Djonga.

Naquele show o Lef não ia tocar, não tinha suporte do DJ pra trocar de música. “Criamos um arquivo de 22 minutos de beat, no pendrive e ensaiamos pra não errar. A gente não podia parar o show, um segundo ou a gente ia perder a linha. Não podia dar briga, não podia ser interrompido”, disse Patrick. “Agora temos o Caiman apresentando um show de 22 minutos”, anunciaram. O negócio saiu tão bem no show que teve espaço da terceira pra quarta música, a capela. 40 segundos. “Pedi pra parar o beat. Mandei uma poesia ensaiada neste intervalo. Depois o Barack botou o beat. Nunca mais fizemos”, completou HDK.

Em novembro de 2017, eles receberam a notícia que fariam abertura pro show do Racionais. “O jeito que a gente soube foi num grupo do WhatsApp que o Lucas colocou, foi uma adrenalina”, disse Barack. Patrick contou que estava dormindo quando soube, garganta inflamada, quando descobriu deu um grito que piorou a situação.

Naquela abertura o DJ Cia, do RZO, cedeu 30 minutos pro DJ Lef tocar. “Foi muito mais do que só abrir o show, foi um rolezão”, disse Barack. Muita confiança foi colocada no Caiman, trabalharam direito pra fazer acontecer, levaram o negócio a sério como tem que ser. “A gente não foi atrás pra pedir, eles que nos chamaram, tivemos muito suporte da Agência 047”, disseram. Aquilo abriu muitas portas para o crescimento, tanto para portfólio quanto inspiração para o grupo. Estreia do Caiman com o pé direito, abrindo pro Racionais, em tão pouco tempo.

 

Os contratantes de evento e carreira solo

 

Em dezembro de 2017, Patrick HDK lançou no Youtube a música “Sul tem voz”. Segundo ele, a questão não é o tema do som, é fazer o tema ser bom. Segue um verso:

“Quer lucrar nas custas dos outros, então procura outro, mano, que comigo isso não funciona, não. E eu mando um foda-se pra esses contratantes de evento, que esquecem que na sua própria cidade tem talento. Bando de oportunista que acaba com o movimento, e só se movimenta se tiver um rendimento”.

 

Lef contou que, por trabalhar na Brixton, fez um pouco dos rolês da cidade, tem vivência de contratante. “Tinham muitos eventos em Joinville, mas a galera que organizava, sabendo que tem muitos grupos aqui, que chamavam grupos de fora pra fazer abertura de shows, pagavam grupos de fora, e não davam oportunidade pra rapaziada daqui”, explicou o DJ. É a revolta na música.

A maior parte das oportunidades era da Brixton, tinham poucas. “Muita gente tava implantando evento de fora, vinham pra cá explorar a cidade sem dar oportunidade pro talento daqui ser utilizado. Não era a cidade deles”, continuou Patrick. Eles explicaram que acontece com uma galera que não é necessariamente daqui, acontece com boa parte dos interiores por não estarem no eixo Rio-SP.

Hoje está mudando, cada vez mais pessoas de outros estados estão tendo mais visibilidade. Djonga, mineiro, é um exemplo. A questão do “Sul tem voz” é contra a ideia de que no sul não tem coisa boa. “Uma parada que parte muito mais do público do que quem faz, a desvalorização”, explicou Barack. Patrick falou que não adianta cobrar do artista se o próprio público não dá base pro cara produzir. Aí o Lef levantou uma questão:

“Mas tem muita gente que quer e não estuda pra acontecer, faz um som e espera ser chamado. Não investe em divulgação de som. Estamos falando de um mercado que trabalha pro negócio acontecer. Tem muita gente que faz e, só por ser amigo de tal pessoa, tem o direito de tocar também, mas não contribui em boa parte da cena. Fazer uma rima e botar em cima de uma batida é a parte mais fácil. Entender o giro e fazer render pra todas as partes é o mais difícil, não dá pra botar culpa só nos contratantes também”.

O primeiro EP do Barack, Self Made Man, terminou com a faixa Cash, nada melhor que o Cash II abrindo o novo projeto. Barack vive “uma bifurcação, minha situação é um caso raro, entre viver doidão ou viver a vida adoidado. Não vou fugir da função, cada ação é algo pensado”.

 

Barack juntou num verso as referências Al Jarreau e Al Jazeera. O primeiro foi um cantor estadunidense, versátil em seu estilo de cantar, foi premiado sete vezes com o Grammy, sendo o único a vencer em três categorias distintas: Jazz, Pop e R&B. A segunda referência, Al Jazeera, maior emissora de televisão jornalística do Catar e a mais importante rede de televisão do mundo árabe. Segue o verso:

“Buscando sempre acertar pra minha cabeça não ser alvo. Clássico pique Al Jarreau, ofensivo igual Al Jazeera. GuanaGueto eu vim da sul, visando distância dos tiras”.

 

Viva o Guanabara! Encerro a reportagem com um verso de Chronus, uma das faixas do álbum Paraíso Fiscal:

“Olhando pro nada e rimando com tudo, trancado no quarto pensando no mundo, ficando mais chato a cada segundo. Tô escalando o poço saindo do fundo, com a perna cansada, mente calejada, tirando a cara de todas as pauladas que o mundo aplica. Quer ser zika? Comece na sua quebrada!”

 

Disco Paraíso Fiscal:
Produções: Barack e DJ LEF.
Gravação: BrixTúdio.
Mix/Master: Rodrigo Bujik.

 

Instagram: @patrickhdk | @barackstyle | @djlefprod . Repórter: __borba.

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Lucas Borba
Sobre Lucas Borba 1 Artigo
Anarquista. Criado no Guanabara. Filho de um enfermeiro da Tupy e uma dona de bar no bairro. Brincava com a bola branca de sinuca. "Quando eu era menor, era viciado em laranjinha". Resultado de quedas, escolas públicas e gibis do Sesinho e Sua Turma. Raposa em formação. Estudante de jornalismo.

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