Desconstruindo preconceitos: a vida de Joyce Brown

castjoyce2012aHá um bocado de tempo atrás eu falei de um webcomic chamado Dumbing of Age e como este abordava o velho e conhecido problema de vigilantes mascarados. Sua única saída do realismo, por sinal. Hoje, quero retomar o excelente título de David Willis para abordar uma das mais complexas, e controversas, figuras da tira, Joyce Brown. Discutivelmente, a protagonista de Dumbing of Age.

Se Amber O’Malley era um exercício de pura ficção na desconstrução do “vigilante”, Joyce é um exercício autobiográfico. Da mesma maneira que ocorreu com seu autor, a jovem chega a universidade totalmente desprovida de conhecimentos “do mundo”. A filha caçula de uma família extremamente religiosa, Joyce foi educada em casa. Seu objetivo na universidade, a princípio, é “encontrar um bom marido cristão”. Embora se veja como uma boa pessoa, o mundo real, longe dos confortos e da doutrinação caseira, rapidamente escancara os preconceitos que ela não imaginava ter.

Muitos dos conflitos e desafios encarados por Joyce, assim como a trajetória de vida dela, são elementos autobiográficos de Willis. Criado em uma família fundamentalista de Indiana, da qual só começou a se desligar depois de ir para a universidade. Ainda assim, porém, levou anos para que ele encontrasse seu próprio caminho no mundo (como um cartunista escrevendo primariamente sobre si mesmo).

O primeiro e menor desses choques vêm em relação aos irmãos David “Walky” Walkerton e Sally “Sal” Walkerton, ela inocentemente pergunta que “sabor” de humano eles são. O comentário ingênuo e ignorante é só um sinal da falta de preparo e noção dela para uma realidade onde nem todos são como ela.

2011-04-07-gaspUm dos maiores desses choques de realidade vêm como resultado da melhor amizade que faz na universidade. A revelação, puramente casual, do ateísmo de Dorothy Keener literalmente a deixa sem ar. O conflito entre a criação onde moralidade e fé eram sinônimos, com a relação com alguém descrente e moral vem como um baque. O embate com os pais indignados com sua amizade com uma “descrente”, uma dor ainda maior.

 

2013-10-08-neighborSeria previsível que Willis seguisse a rota do clichê, e ou rompesse a amizade das duas (o que em certas obras religiosas seria apresentado como um final feliz), ou desligasse Joyce da sua fé. No entanto, a resolução para esse dilema não envolve renegar a amizade ou a fé, e sim justificar a amizade a partir da palavra. Se o cristianismo dos seus pais é um evangelho excludente, controlador e cheio de ódio pelos descrentes, Joyce encontra aqui uma religiosidade acolhedora e amorosa.

 

Outro aspecto lentamente desconstruído diz respeito a sexualidade. De início, ela é profundamente ignorante quanto ao assunto, e extremamente recatada quanto à nudez. A falta de conhecimento sexual pode ser bem definida em um sonho surreal lidando com a mistura dos desejos reprimidos e frustrados com o trauma de uma agressão recente, e cuja única definição possível é “what?”.  A sequência inteira demonstra um misto de vergonha, desejo e total falta de compreensão de como sexo funciona.

Desejo, falta de conhecimento, e trauma.
Desejo, falta de conhecimento, e trauma.

Ao mesmo tempo, apesar de todo o puritanismo, não é como se ela não tivesse interesse.  Apesar de entrar em um relacionamento precisamente para não ter o risco de transar com um jovem gay (Ethan Siegel), Joyce tem dificuldade em “resistir a tentação”. Dificuldade que divide com o namorado gay, que por sua vez a usa para “resisitr a tentação” de arranjar um namorado. Antes disso ela chegou a contratar um “acompanhante” para um encontro para evitar que ela ou o par (Joe Rosenthal) tentassem qualquer coisa

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Esse relacionamento fingido demonstra um dos problemas advindos de sua criação. Embora ela não fale nisso abertamente e talvez nem percebesse conscientemente, Joyce acreditava que poderia “curar’ Ethan de sua “doença gay”. Isso tentando impor “coisas de homem” sobre o rapaz (cujos principais interesses são robôs e quadrinhos. Não exatamente algo estereotipicamente feminino).

Ao mesmo tempo, a jovem demonstra curiosidade após saber da bissexualidade de outra colega, Jennifer “Billie” Billingsworth. Não consegue, porém, conceber que Billie possa estar namorando com uma garota depois que descobriram que ela estava escondendo um relacionamento. Para completar,  demonstra certa atração pela irmã de Walky, junto com um grau de ciúme de Dorothy, que vira alvo de piada por parte dos envolvidos.

2014-12-15-canceledA constatação de como ela está tratando Ethan vem com uma visita da melhor amiga, Becky MacIntyre. A mesma amiga que, no início do ano letivo a pedira para “não deixar esse lugar a mudar”, e que ao contrário de Joyce, se manteve em uma instituição religiosa, agora agradecia que a universidade havia a mudado. O motivo? Becky fora expulsa da universidade por se relacionar com outra aluna. Em resposta, seu pai ameaçou arranjar “tratamento”. E então ela fugiu. Pros braços de quem ela percebeu que amava… O que obviamente veio como mais um choque.

Apesar de rejeitar os avanços, é vendo o calvário da amiga que ela percebe o quão horrível é o tratamento dado a jovens LGBT. Não mais uma coisa abstrata e sem rosto, a realidade da situação faz o preconceito, tanto o externalizado quanto o internalizado, ser descartado. E a leva a terminar com Ethan porque não era certo. O término em si resultou em algumas expressões homofóbicas acidentais. Bem intencionadas, mas que pegaram mal.

2015-02-13-ptsdTodas essas coisas não se comparam, no entanto, a maneira como Willis lida com outro tópico controverso: As tentativas de estupro em festas e fraternidaes. Vítima de um desses ataques, do qual escapou graças a intervenção da companheira de quarto, Joyce tenta fingir que está tudo bem. Mas a realidade é outra: Parte do motivo do relacionamento fajuto com Ethan, e o de fazer tudo o possível para sempre ter companhia é por que, desde o ataque, ela tem pavor de sair sozinha. Isso é demonstrado com maestria em uma tira, onde ela percebe todos na rua como o seu agressor. Interpelada pela já cita vigilante do campus Amazi-Girl a respeito de um caso de vandalismo, ela desmorona no choro, perguntando só uma coisa: “Porquê você deixou ele fugir?”

Sendo dito tudo isso, Joyce é um personagem complexo e interessante. A cada ação dela vista como negativa, para não falar as ações de personagens ligados a ela, Willis é bombardeado de críticas alegando que “está difamando os religiosos”. Só que as ações dela são as ações dele. Muitas das experiências de vida de Joyce são pessoais, e mais: Willis era pior que os piores momentos de Joyce.

2015-02-17-supportA insensibilidade dela vem de profunda ignorância. Joyce não é maldosa ou odiosa quando se crê capaz de “curar” Ethan. É ignorante. E ela reconhece isso. Quando é jogado na sua cara que a igreja que ela passou a condenar depois da expulsão de Becky era ela, ela reconhece o erro. Sim, ela tem preconceitos a serem sanados. De sobra. Sim, ela erra. Um monte. Mas ela é tanto vítima disso quanto as pessoas que ofende, criada em um meio fechado (ela foi educada em casa, seu primeiro contato com “o mundo” se deu na universidade), cercada de pessoas cheias de ódio e que conseguem dissimular esse ódio em um verniz de amor falso.

Willis não teve tanta sorte. Joyce está em processo de desconstrução desde a primeira semana na universidade. Willis só criou coragem para “pensar por conta própria” ao invés de seguir os preconceitos da família no seu segundo quadrinho, “It’s Walky”. Em suas próprias palavras, o título anterior, “Roomies!” não lidava com temas polêmicos (exceto em um tom moralizador), e todos os personagens eram fundamentalistas religiosos (o que não transparecia, pela falta de um ponto de vista diferente) por medo das  reações da família e do pastor.

Desde “It’s Walky”, em 1999, Willis passou 16 anos trabalhando com quadrinhos, desconstruindo a si mesmo e suas posições, tentando eliminar seus preconceitos. Passou de um quadrinhista conservador para um polemicista que fazia piadas com estupro (o que considera “uma de suas piores tiras”) para um cartunista focado em combater preconceitos e criticar racistas, elitistas, machistas e homofóbicos. Veremos se o mesmo futuro aguarda Joyce.

 

Mas não fique só com a minha palavra, vá e leia Dumbing of Age. É grátis, e é bom.

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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