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“Estão forçando ideologia nas histórias” – Ideologia, alegoria, personagens… tudo a mesma coisa

Muito se reclama de autores “enfiando ideologia” em suas histórias, como se narrativas não fossem por definição ideológicas. Quanto mais o tempo passa, mais essa reclamação – que para mim não faz sentido, salvo em casos como Senhor A, em que a pregação filosófica come a história – se torna comum – e mais se ignora que muitos personagens existem como personificação de ideais, ideologias e sistemas de pensamento. E isso é válido para toda forma de mídia: heróis e personagens folclóricos personificam modelos a serem seguidos. Javèrt, de Os Miseráveis, nada mais é do que uma personificação do conceito de “lei” sem justiça. Ahab e Moby Dick não passam de representações do quanto obsessões são destrutivas. Tarzan e tantos outros heróis pulp são personificações das crenças de seus autores quanto à superioridade do homem anglo-saxão – nem todos os ideais são positivos, afinal. Basicamente, tudo que foi escrito, sem querer ou […]

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Culto à personalidade e ficção científica: a dualidade Optimus e Megatron

Algum tempo atrás eu fiz um artigo sobre o poder da representação icônica e da imagem idealizada como força positiva no personagem de Optimus Prime, na maneira como ele é retratado nos quadrinhos da IDW. O assunto hoje é o mesmo –  mas na maneira como essa idealização e consequente culto a personalidade pode – e muitas vezes é – uma força negativa. Essa força é uma velha conhecida de ditaduras, cultos, milícias e “megachurches”: a noção do “grande líder” como alguém “maior que a vida”, um homem entre os homens, um profeta ungido pelos deuses. São maneiras eficazes de catalisar a força das multidões ao redor do “herói”, estabelecendo alguém ao redor do qual as massas se congregarem – e a quem obedecer. Assim, ao mesmo tempo que essa devoção e essa imagem mítica pode exaltar seus seguidores, ela também pode levar a população a atos que não cometeriam normalmente, contanto […]

Baú de Brinquedos

Como marketing moldou a Marvel: Secret Wars

O ano: 1984. Maio. Sob letras garrafais, em um evento bombástico e sem precedentes na indústria de quadrinhos, a Marvel Comics juntava seus maiores heróis em uma única trama de proporções cósmicas. Com roteiro de Jim Shooter e arte de Mike Zeck e Bob Layton, a “casa das ideias” surpreendia o público americano com uma história incrível: uma entidade cósmica chamada  Beyonder havia abduzido os maiores heróis e vilões da Terra, forçando-os a lutar para o seu entretenimento em troca do maior prêmio de todos: a realização de um único desejo. Era dado início às Guerras Secretas. Afetando todo universo Marvel… Um dos primeiros “mega eventos” da indústria de quadrinhos, Guerras Secretas causou alterações em quase todos os personagens envolvidos: novos uniformes, novos poderes, novos apetrechos… Anos de histórias futuras foram pautados em elementos introduzidos em Guerras Secretas, com seu resultado mais famoso sendo o super-vilão, posterior anti-herói Venom – surgido do uniforme negro que o Homem-Aranha recebeu como parte […]

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Fãs, discursos e radicalismos

Fandoms tem um problema grave de fanatismo e intolerância, junto com um apego doentio à versões de sua obra amada que não conferem com a realidade da mesma. Isso é uma questão antiga que parece ser tão antiga quanto a própria existência de fandoms. Os extremos dos discursos digitais sobre quadrinhos, literatura e cinema são um caso interessante. De um lado, temos uma brigada conservadora que espuma pela boca caso haja um único personagem não hetero-branco-cristão em suas revistas e insiste em reescrever a história dos personagens para confirmar suas posições (vide dizer que Steve Rogers sempre foi conservador). No extremo oposto, visto primariamente em redes sociais “alternativas” como Tumblr e Archive of our own, temos uma brigada “progressista” que espuma pela boca alegando homofobia sempre que seus headcanons sobre o herói X ser gay/bi/ace/trans não se concretizam.   Os dois lados demonstram simultaneamente um interesse patológico E uma total falta de […]

Baú de Brinquedos

O medo dos robôs e o medo de uma revolução

No clássico cinematográfico Blade Runner, adaptado do livro Androids Dream with Electric Sheep, de Phillip K. Dick, um pequeno grupo de replicantes liderados por Roy Batty se revolta contra seus criadores em busca de seu direito à vida. Em Ghost in the Shell, de Mamoru Ohshii com base em Masamune Shirow, uma inteligência artificial passa a roubar corpos em busca não apenas do sentido de sua existência, mas de seu direito de existir. Já no conto All the Troubles of the World, de Isaac Asimov, o super computador Multivac manipula a humanidade para levar à sua própria desativação. E na canção Saviour Machine, de David Bowie, a epônima “máquina salvadora” tenta futilmente convencer a humanidade a destruí-la. Em comum as quatro histórias citadas tem a objetificação e escravização de mentes inteligentes – mesmo que artificiais – como motor de seus conflitos.   Embora o tópico seja abundante nos anais da ficção científica, é raro que […]

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Logan: mais do que X-Men, um drama sobre paternidade

Ao longo dos seus 17 anos, a franquia dos filmes dos X-Men oscilou do bom ao horrendo, e em sua zona mais baixa estavam os filmes do Wolverine. Circulando pelas três narrativas mais comuns ao gênero de super heróis- histórias de ação puramente escapistas, alegorias sócio-políticas e discussões filosóficas cujos personagens são meros adereços da narrativa – seria de se esperar que a peça final do Logan de Hugh Jackman repetisse os erros dos prévios “Wolverine” e “Wolverine: Imortal”. Mas “Logan” vai por uma área inexplorada para os filmes de quadrinhos. Abraçando seu material de origem ao mesmo tempo se despe da imaturidade do mesmo, o filme de James Mangold ousa e nos oferece um drama de personagem pesado cujos elementos fantásticos servem de pano de fundo para uma história humana. As discussões sobre preconceito e bioética que marcam os filmes dos X-Men continuam lá,  mas são adereços para uma história que […]

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O dilema da morte no mundo dos super heróis

Existem duas regras perenes quanto a narrativa de super-heróis: 1º, Heróis não matam – matar é coisa de vilão, e heróis sempre encontram outra maneira. 2º, As vezes não há outra maneira e heróis tem que matar para salvar vidas. A contradição entre essas duas regras narrativas, praticamente cimentadas em pedra, é um velho problema dos quadrinhos de super-heróis (e similares) e não raramente vira um clichê hipócrita e surreal.   Afinal, como lidar com a aparente imortalidade dos vilões de quadrinhos – e até que ponto a superioridade moral do homem que não mata é realmente superior a do homem que mata? As coisas sempre foram assim? E não seria melhor se o Super-Homem saísse por aí matando todos os caras maus?   Nem sempre tão pacifistas: os tempos em que heróis matavam   Há um fato importante que é muitas vezes ignorado ao se tratar da questão do matar ou […]

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Fandoms e o anseio por violência

Ocasionalmente, fandoms acabam por servir como uma janela peculiar para a mente humana e para o status quo social. Não é sem motivo: como um pequeno microcosmo da sociedade, as fanbases refletem muitos dos preconceitos, anseios e desejos da sociedade de onde vem seus integrantes.   Uma das formas nas quais este espelho é particularmente interessante é a relação dos fandoms com a violência – e as maneiras como está é vista como justificável, aceitável ou até louvável para grupos de fãs. O debate quanto ao uso da violência e particularmente da força letal é longo e complexo. O que para alguns é inaceitável, para outros é o correto é justo; onde uns veem um apelo desnecessário à força, outros encontram justiça. O que para alguns é vingança, para outros é retribuição.   Nessa leitura, a intenção autoral se torna irrelevante. Como nota Foucault, o Autor está morto: seus desejos e intenções […]

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Tropas Estelares, Earthsea e etnicidade em adaptações

Certas obras não dão sorte quando o assunto é a etnia dos seus personagens. O clássico “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein é um bom exemplo: protagonizado pelo filipino-argentino Juan “Jonny” Rico, a obra foi levada às telas quatro vezes (em vídeo, filme, como uma minissérie para TV e um filme animado) nenhuma das quais preservou a etnicidade do protagonista. No OVA Uchuu Senki, de 1988, pelo estúdio japonês Sunrise, no lugar do filipino dos livros temos um Rico de pele clara e cabelos loiros; a minissérie também trocou a bronzeada Carmencita Ibañez por uma Carmen pálida de olhos azuis claros. Em 1997, levada aos cinemas por Paul Verhoeven, a obra teve seu protagonista trocado pelo alvo John “Johnny” Rico, interpretado por Casper Van Dien; a mudança foi intencional, motivada pelo caráter do filme como uma sátira do livro (lido pelo diretor holandês como uma apologia ao fascismo) na forma de um […]

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Islamofobia e o editorial da Charlie Hebdo

Não é sem motivo que em 2001 Christopher Allen ressaltou as similaridades entre as imagens referentes ao islã propagandeadas na mídia após o 11 de Setembro e a propaganda nazista referente aos judeus. Nos 15 anos que se sucederam aos atentados perpetrados pela Al Qaeda, a imagem do islã foi associada diretamente ao terror. O antigo fascínio orientalista pela “magia das arábias” (em si já racista e xenofóbico, transformando o árabe em um “outro” exótico e alienígena) deu lugar a uma visão demonizada, onde o islã passava a ser “a antítese da civilização”. Em 2001, a face pública do islamismo, escolhida pela mídia americana era o pregador egípcio Abu Hamza. Como Allen nota, Hamza era a imagem do barbarismo; seus ganchos eram brutais “cicatrizes de guerra” de uma sociedade bárbara com a qual a civilização não poderia conviver. Em uma pessoa só, Hamza incorporava todos os clichês islamofobicos, personificando a imagem do […]

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Traíras, Traíras por toda parte

Tem certos tipos de personagem que são recorrentes a ponto de beirarem o clichê. Personas arquetípicas tão universais quanto o ato narrativo em si. Um desses arquétipos, do qual quero tratar aqui, é o subalterno traiçoeiro, uma figura recorrente em histórias de ficção científica, super heróis, desenhos de ação, fantasia medieval, dramas históricos…   Ou seja, em tudo.   O tipo é bem conhecido, em geral sendo o segundo em comando de sua organização. Sua característica primária é a ambição, a ânsia pela liderança. Por mais que seus superiores confiem (ou não) neles, são personagens que os leitores sabem que estão apenas a espera da oportunidade de derrubar o regente e assumir o trono, apunhalar o general e tomar o controle, depor o presidente e se empossar no lugar e por aí vai.   Esse arquétipo do subalterno ambicioso e pérfido é antigo – muito antigo, e como quase todo clichê, tem […]

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Antes de Game of Trones, havia 三國演義 – os três reinos

O épico de fantasia de George R.R. Martin parece ter virada um sinônimo de drama político medieval. Mesmo desprovido de qualquer caráter histórico e sendo situado em um mundo fantástico, seus livros e a série que inspiraram viraram o nome padrão para falar de romances  focados nos traiçoeiros meios da guerra. Mas muito antes do escritor de Nova Jersey nascer, outra obra explorava com igual fervor os dramas, as traições e a perda de vidas em nome do poder. Pouco conhecida no ocidente, 三國演義 (SanGuoYanyi, ou O Romance dos Três Reinos) explorava o jogo de interesses em um dos períodos mais conturbados da história chinesa. Atribuído ao dramaturgo Luo Guanzhong (1330-1400 d.c.) e baseado no vasto trabalho de pesquisa histórica de Chen Shou (233-279 d.c), o épico de 800 mil palavras trata da queda da dinastia Han oriental (a segunda dinastia imperial chinesa, governando a china de 206 a.c a 220 d.c.) e da disputa de poder em meio ao […]

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Zoids: Animais robôs com armas. O que não amar?

No longínquo e desértico planeta Zi, três nações estão em guerra. O Império de Zenebas enfrenta uma derrota após a outra contra a nascente República de Helic, e os sacríficios em nome da guerra colocam o mundo em risco. Ante a derrota, o imperador Zenebas faz um metafórico pacto com o diabo: uma aliança com o militarista império de Guylos – e assim ameaça consumir o mundo em chamas. A guerra mudou: onde antes estavam tanques e aviões, as nações de Zi contam com o poderio militar das espécies nativas do planeta, organismos mecânicos chamados Zoids.   Eis o cenário de uma das mais perseverantes linhas de model kits de robôs gigantes no Japão, Zoids. Criada pela TOMY em 1982, a macro-série pode ser vista como a resposta da Tomy para o sucesso de Gundam pela Bandai. Com padrões de design diferentes, mas enfoques similares em sua narrativa, ambas lidam com a […]

DC Rebirth
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O problema da continuidade e o Retcon

Muito já disse pela nerdosfera a respeito do plot twist de Steve Rogers: Captain America #1 (em breve, sai o número dois). Eu mesmo já fiz um artigo tratando da implausibilidade da revelação final da edição e da trama proposta pelo roteirista. Muito se defendeu o autor, com base na rotatividade da indústria de quadrinhos e na desculpa de que “dá uns dois anos e desfazem isso”   Mas há um detalhe importante que poucas críticas – e quase nenhuma das defesas ao trabalho – abordou: a maneira como a trama de Nick Spencer afeta mais do que somente as edições futuras do Capitão América. Com o twist e a revelação de que Steve Rogers é e sempre foi um agente da Hydra, todas as histórias publicadas são afetadas. É um exemplo clássico de continuidade retroativa, um retcon, ferramenta usada com uma frequência alarmante na indústria de quadrinhos (e também no cinema, na […]