A queda que mudou os heróis para sempre

ams121frEm junho de 1973, as bancas de revistas e lojas de quadrinhos nos EUA recebiam um título com uma chamada bombástica. Estampada em letras garrafais, The Amazing Spider-Man #121 alarmava: NÃO É UM TRUQUE! NÃO É UMA HISTÓRIA IMAGINÁRIA – MAS O MAIS ESTRONDOSO E INESPERADO PONTO DE VIRADA EM TODA A VIDA DO CABEÇA DE TEIA! Ao mesmo tempo, o herói, exasperado exclamava: “Alguém próximo a mim irá morrer! Alguém que eu não posso salvar! Mas QUEM? QUEM?!”. À época, capaz assim alarmistas abundavam, e essa parecia mais uma chamada polêmica para vender uma revista que nada mudaria – afinal, essa era a época em que os heróis não falhavam, os vilões sempre perdiam, e nada tinha consequências.

A revista, com roteiro de Gerry Conway e arte de Gil Kane, enigmaticamente clamava na primeira página que “não poderia contar o título deste conto”! Norman Osborn, o Duende Verde, que anteriormente não tinha lembranças de seus atos como o vilão, tem um colapso nervoso. Culpando o Aranha – que ele agora sabe ser Peter Parker – pelo vício em drogas do filho, o Duende parte para destruir a vida de Parker como ele destruiu a dele. Ele sequestra Gwen Stacy, a namorada de Parker, e a leva para a ponte do Brooklyn. Até aí, salvo pelo tópico das drogas (abordado pela primeira vez entre Amazing Spider-Man #96 e #98, na primeira história do gênero a lidar com drogas, em 1971), era uma trama banal – afinal, o Super Homem salvava Lois Lane praticamente toda edição!

O climax parecia óbvio: o aranha derrotaria o vilão, salvaria Gwen, e tudo terminaria bem, a capa só um engodo para vender mais… Isso é, até a hora em que o Duende arremessa Gwen Stacy do alto da ponte, o aranha lança sua teia para salva-lá e…

snap

… ele quebra o seu pescoço. Com quatro letras – um singelo “Snap!” – Conway mudava o mundo dos super heróis para sempre. Não mais os semideuses invencíveis da Era de Prata, pela primeira vez um super herói havia falhado; pela primeira vez, o vilão havia vencido, e pela primeira vez, o dia não estava salvo. Gwen Stacy, o grande amor de Peter Parker, estava morta. Naquele instante, a Marvel passava uma mensagem escandalosa: nem mesmo super heróis podem salvar todo mundo. Como nota Arnold Blumberg em “The Night Gwen Stacy Died: The End of Innocence and the Birth of the Bronze Age“, era o momento dos heróis crescerem. O mundo não era mais tão preto-e-branco quanto antigamente. O furor da contra-cultura, os movimentos civis e as condenações à Guerra do Vietnã revelavam um mundo onde a confiança dos americanos em seu país se quebrava – e junto com ela, a confiança em seus heróis. Sem alarde – apenas uma pequena onomatopeia – essa crise de confiança no mito se manifestava quando o maior herói da Marvel inadvertidamente matava a pessoa que mais amava.

Page4A edição terminava de maneira tão chamativa quanto abria: Segurando o corpo desfalecido da amada, o aranha bradava a um vitorioso Duende Verde em fuga… “Você matou a mulher que eu amo e por isso você irá MORRER!”. Na última caixa de texto da edição, a narração anunciava: “Finalmente podemos contar-lhe o título do nosso conto. Embora seja um título que esperávamos nunca ver. Nós o chamamos — A NOITE EM QUE GWEN STACY MORREU — e você pode ter certeza que a história não termina aqui!” A trama seria resolvida na edição seguinte, “A última batalha do Duende”, que culminou com mais uma morte, desta vez a do vilão – embora por suas próprias mãos, perfurado por seu planador em uma última tentativa de matar o Aranha. Depois disso, Parker, tomado pela mágoa e a raiva, alienou quase todo o seu círculo social – Salvo por Mary Jane Watson,  e isso nós sabemos como termina.

A queda dos super heróis já havia começado em 1962, quando aranha entrou em cena. Enquanto a DC, então a única potência no mundo dos quadrinhos, trazia heróis infalíveis e incorruptíveis, sem defeitos de caráter e cujas vidas mortais eram uma mera nota de rodapé, a Marvel inovava com heróis falhos. Ao invés de um excitante homem de ação, ou um escoteiro incorruptível, o Aranha era um nerd desajeitado, que era levado ao heroísmo por ter negligenciado a oportunidade de impedir um ladrão que posteriormente mataria seu tio.  A queda se agravou  em 1971, quando a DC e a Marvel lidaram a sua maneira com o tópico das drogas; enquanto a Marvel trazia a revelação de que o melhor amigo de Peter Parker era um viciado, na DC o Arqueiro Verde descobria que seu protegido, Roy Harper, era viciado em heroína.

De repente, os problemas dos super heróis não se resumiam à vilões fantasiados, e suas cabeças saiam das nuvens para andarem entre os problemas do mundo real. Ainda em 1973, a DC colocava “as trevas de volta no cavaleiro das trevas”, ao trazer de volta o Coringa, e repaginá-lo de um vilão cômico e inofensivo par ao psicopata que todos amamos odiar (e alguns parecem admirar). Os quadrinhos ficavam aos poucos cada dia menos idealistas, e em junho de 1973, tudo se rompia, e a Marvel, com seus trágicos e falhos heróis tão demasiadamente humanos assumia a liderança, enquanto os semideuses da DC implodiam – e em 1978, metade dos títulos da editora seriam cancelados, não sem motivo, justamente os menos ligados aos problemas “dos reles mortais”.

gwen_stacy_dies-03Nos anos seguintes, a Marvel foi o palco de sucessivos fracassos e tragédias políticas e pessoais dos seus heróis. Dentre estes, Em 1974, o Capitão América tem seu patriotismo destruído após falhar em perceber a corrupção dentro do governo americano, que se estendia até o presidente, e se torna o Nômade, em “O Império Secreto”; Os vingadores lidavam com a interferência dos EUA na forma de Henry Peter Gyrinch, e em 1979, em um longo arco de nove edições, o Homem de Ferro iniciava uma longa – e constante – luta contra o Alcoolismo, em “O demônio na Garrafa”.

A morte de Gwen Stacy é uma das raras coisas constantes nos quadrinhos; enquanto Norman Osborn voltou a vida em 1996 – 23 anos após a trama memorável – Gwen juntou-se ao rol dos pais do Bruce Wayne e ao Tio Ben como uma daquelas raras pessoas que ficaram mortas. Nada mais apropriado: desfazer o evento que para sempre mudou a narrativa de super heróis seria talvez o maior insulto possível a todo o gênero. O mais perto que ocorreu de trazerem Gwen Stacy de volta foi a primeira saga do clone (1975), que envolvia um clone dela, e Dinastia M, em que no mundo “ideal” moldado pela Feiticeira Escarlate, Parker era casado e feliz ao lado dela – e ainda assim, não apenas isso era uma realidade alternativaa breve ressurreição de Stacy foi usada para gerar mais drama, na minissérie Son of M- onde Parker expõe o horror que tem sido conviver com as lembranças de uma vida que nunca aconteceu, filhos que nunca existiram, e não poder contar isso para ninguém porque seria admitir que ele não ama Mary Jane Watson-Parker tanto quanto amava a Gwen.

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Captura de Tela (71)A importância simbólica da cena é tamanha, que Kurt Bussiek usou o evento em sua excelente minissérie Marvels – que relata o desenvolvimento da “era dos super-heróis” pelo ponto de vista de um repórter – como o “fim da era do super-herói”. Na série, a tragédia é o que leva o repórter Phil Sheldon a perder sua fé nos heróis e a se aposentar após trinta anos cobrindo as “maravilhas”. Não fora capaz de conciliar o mito com aquela cena de tão brutal fracasso e falibilidade tão demasiadamente humana.

Para mim, a morte de Gwen Stacy sempre será marcante, e emocionante. Passados 41 da publicação de A noite em que Gwen Stacy Morreu, a indústria continua moldada pelos incidentes daquela tão fatídica edição. Apenas uma revista consegue ser mais importante para o mundos dos super-heróis, e esta é Action Comics #1 – e tão somente porque sem ela, não haveriam super-heróis. Cada pequena recriação daquele tão simples “Snap!” ainda me gela a espinha. Ainda se discute se o Aranha pode ser responsabilizado pelo que aconteceu – assim como não é claro na edição seguinte se a morte do Duende Verde foi acidental, ou se Parker Sabia que se ele desviasse do planador, Norman seria atingido.

Descanse em paz Gwen Stacy. As HQs mudaram muito com sua partida. A dor do aranha em perde-la foi palpável, mesmo com o texto ainda “desajeitado” dos anos 70. Cada recriação da cena traz aquele tanto de dor e revolta que Conway colocou em 1973.

Sem notas por hoje.

Death-of-Gwen

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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