Zoids: Animais robôs com armas. O que não amar?

Resumindo a receita da linha: pegue um animal de verdade. Faça dele um robô. ARMAS.

No longínquo e desértico planeta Zi, três nações estão em guerra. O Império de Zenebas enfrenta uma derrota após a outra contra a nascente República de Helic, e os sacríficios em nome da guerra colocam o mundo em risco. Ante a derrota, o imperador Zenebas faz um metafórico pacto com o diabo: uma aliança com o militarista império de Guylos – e assim ameaça consumir o mundo em chamas. A guerra mudou: onde antes estavam tanques e aviões, as nações de Zi contam com o poderio militar das espécies nativas do planeta, organismos mecânicos chamados Zoids.

 

Eis o cenário de uma das mais perseverantes linhas de model kits de robôs gigantes no Japão, Zoids. Criada pela TOMY em 1982, a macro-série pode ser vista como a resposta da Tomy para o sucesso de Gundam pela Bandai. Com padrões de design diferentes, mas enfoques similares em sua narrativa, ambas lidam com a futilidade da guerra, os jogos de poder da política e os avanços tecnológicos feitos em nome da vitória.

 

 

Os primórdios de Zoids: MECHABONICA.

 

Em 1982 a primeira coleção de Zoids, uma breve linha chamada Mechabonica, foi lançada com pouco sucesso no Japão. Oficialmente a coleção composta por apenas três modelos, cujos nomes vieram mais tarde, (Mechatoros/Glidoler, Mechaphantos/Elepantus e Mechagiras/Garius) não é considerada parte de Zoids – embora seus designs sejam e tenham sido relançados como Zoids.  

 

Os três modelos (um elefante, um tiranossauro e um pato) já traziam algumas características da linha futura: eram em escala 1/72, com pequenos pilotos de plástico. Assim como muitos modelos futuros, tinham um motorzinho à corda que os fazia andar, e suas partes eram presas pelas mesmas pecinhas de borracha que seriam usadas mais tarde.

Proto Zoids
Máquinas de combate Pré-histéricas (sim, histéricas)

 

Com pouco sucesso no Japão, a linha foi lançada pela TOMY na Europa e nos EUA em 1983 sob o nome Zoids: Pre-hysterical Battle Machines. Além dos três modelos iniciais, outros três compuseram a linha ocidental: GiantZRK/Bigasaur,  Spiderzoid/Gurantula e Aquazoid/Aquadon. Ao contrário de Mechabonica, a linha teve sucesso considerável.

 

O sucesso de PBM levou a criação de mais uma coleção na segunda metade do ano, chamada Zoids: Mechanical Biological. Com um design mais sólido, nomes e números de série para cada modelo e facções específicas para seus robôs animais, era aqui que Zoids realmente começava – e para explicar a rica mitologia, os modelos vinham com fragmentos da narrativa central da linha:  

A história de batalha: crônicas da guerra de Zi

 

Para melhor fundamentar o universo da linha, começando em 1983, os modelos da linha vinham com fragmentos da Battle Story, uma longa narrativa sobre o conflito militar que assolava o planeta. Em eras passadas, a tribo do Vento, liderada por Helic Muroa, e a tribo da Terra, liderada por Guylos, estavam em guerra. Cansado da guerra, Muroa unificou as tribos na forma da república de Helic. Derrotada, a tribo da Terra foge para o continente sombrio de Nyx.

 

Por quase um século, o planeta esteve em paz, mas com a morte de Helic, a república se dividiu entre seus dois filhos: Helic II, disposto a preservar a nação fundada por seu pai, e Zenebas – sobrinho de Guylos – disposto a expandir a república para além de suas fronteiras. A disputa entre os dois herdeiros divide a nação, consumindo o continente central nas chamas da guerra: de um lado, os resquícios da república de Helic, do outro o nascente império de Zenebas.

HMM Red Horn
Red Horn – o primeiro Zoid de combate imperial – High End Model da Kotobukiya

 

Visando à vitória, os cientistas de Helic transplantam o núcleo – o cérebro e o coração – de Zoids selvagens para corpos artificiais, criando os primeiros Zoids de combate: Glidoler, Elepantus e Garius. Ainda usando os organismos mecânicos como montaria, Zenebas sofre derrotas avassaladoras antes de introduzir seu próprio Zoid de combate, Red Horn, criado através da implantação de mecanismos de controle e armas diretamente no corpo de um Zoid selvagem. Era dado início à corrida armamentista de Zi.

O fim da primeira guerra: Deathsaurus contra Mad Thunder
O fim da primeira guerra: Deathsaurus contra Mad Thunder

 

Acuado após a estreia do gigantesco Ultrasaurus de Helic e a destruição de sua capital, Zenebas foge para Nyx e pede a ajuda para Guylos. Armado com um exército de novos Zoids do continente sombrio, Zenebas parece pronto a tomar o continente quando é traído por seu novo aliado. Pelas décadas seguintes, o continente central de Zi é palco de uma guerra infindável entre as três nações, com alianças instáveis e uma contagem crescente de corpos, até que sua terceira lua é subitamente destruída em um desastre, e uma força nova chega ao planeta…

 

Os modelos

 

Como muitas linhas de Pla-model, as figuras de Zoids vinham em cartelas de plástico, exigindo montagem direta por parte do consumidor. Marca maior da linha, as peças eram presas por pequenas “porcas” de borracha, gerando uma assinatura visual onipresente. Juntamente com cada Zoid, vinha um pequeno piloto de plástico, com pouco mais de 2cm de altura, estabelecendo a escala dos monstros mecânicos em 1/72.

Decalto Dragon parts
Some assembly required. Partes do Decalto Dragon de Zoids Genesis

 

O foco da linha era em dois aspectos centrais – o primeiro, presente desde os tempos de Mechabonica, eram action features. Os kits menores contavam com motores à corda que faziam as figuras caminhar, enquanto os maiores contavam com motores elétricos, que além de impulsionar o robô adiante, acendiam luzes e moviam mandíbulas para simular mordidas. Como resultado desse foco, a articulação era seriamente limitada – muitos contando com zero pontos “livres” de articulação.

Customize Parts: peças e armas extras vendidas separadamente.
Customize Parts: peças e armas extras vendidas separadamente.

 

O outro era customização: além dos modelos em si, a TOMY lançou ao longo dos anos kits de armas, armaduras, “Fuzors” (Zoids menores que formavam acessórios para os grandes), partes de customização e outras formas de colecionadores e crianças adicionarem um “toque a mais” em seus Zoids. Embora muitas armas fossem fixadas nos modelos, várias delas podiam ser removidas ou trocadas à vontade – ou até onde o motor da figura aguentasse o peso.

Zevle
Zevle: Zoids em escala maior

 

Poucos modelos violavam a escala de 1/72 da linha. A maior parte compunha a breve linha Zevle (Zoic Battle Vehicle), de 1992, e sua ancestral 24-Scale Zoids, de 1987. Em escala maior, a coleção de sete figuras (seis das quais foram relançados em Zevle) vinha com pilotos articulados, armas para os soldadinhos e partes transparentes. Embora fossem maiores que os modelos eletrônicos, a montagem dos Zoids em escala maior era mais simples somente um deles não contava com motores à corda. Outro caso de escala diferente era o gigantesco Whale King, em escala de 1/360.  Ao contrário do resto da linha, o Whale King era um playset, e vinha com seis mini-zoids.

Z-Knight (High-End Master Model, Kotobukiya)
Z-Knight (High-End Master Model, Kotobukiya)

 

Zoids teve uma breve linha “irmã”, Z-Knights, de 1991, focada nos eventos posteriores à invasão terrestre de Zi e na guerra entre Terra e Marte usando robôs gigantes feitos com Zi-Metal, o material do qual os Zoids eram feitos. Dotados de vontade própria, os gigantes mecânicos levavam seus pilotos à loucura. No ocidente, essa narrativa foi trocada por uma sobre ciberespaço e vírus de computador invadindo o mundo real. 

 

 

Linhagens recorrentes

 

Ao longo de seus mais de 30 anos, alguns padrões de Zoids se repetiram algumas vezes. Alguns são ícones da franquia. Outros, simplesmente modelos bem sucedidos que foram repaginados e relançados algumas vezes.

Zoids Blade Liger
Blade Liger: talvez, a cara da franquia

 

Ligers: Possivelmente a linhagem mais popular da franquia, os Ligers (combinação de leões e tigres) deram as caras em 1985, com o lançamento do Shield Liger Republicano. Desde então, modelos novos de Liger tem sido recorrentes, geralmente como máquinas da república, e as quatro animações de Zoids contaram com um Liger como o parceiro de seus protagonistas. O Shield Liger em si recebeu um upgrade na forma do Blade Liger em 1999, que perdeu seu lugar como mascote da linha para o Liger Zero em 2001, seguido pelo Trinity Liger. Em 2006, outro Liger foi o centro da ressurreição da franquia em Zoids Genesis, o Murasame Liger.

Zoids Iron Kong PK.
Iron Kong PK: gorilas com lasers

 

Iron Kongs: outro Zoid que data do início da franquia, o tipo Gorila dos Iron Kongs e suas variantes parecem nunca sair de série. Munidos de armamento pesado, os Kongs “clássicos” eram a artilharia pesada de Zenebas. Sua versão modernizada em Genesis, o Deadly Kong, abandona a artilharia para focar em combate de perto. A engenharia dos Kongs foi reaproveitada para outros modelos (particularmente notável no Gorem de 24-Scale).

Zoids Gojulas
Gojulas: e se um T-Rex tive armas?

 

Gojulas: O peso pesado da república, inspirado em ninguém menos que Godzilla, a série Gojulas é outra que sempre parece ter mais o que dar. Surgindo em 1983 como o Zoid pesado da República, o “Tiranossauro” várias atualizações: em 1987, o Gojulas MK II adicionou canhões de artilharia e serviu de base para outros updates. Posteriormente, seu lugar na armada republicana foi tomado pelos imensos King Gojulas e Gojulas Giga – mais claramente inspirados no Rei dos Monstros. em 2013, celebrando os 30 anos de Zoids, Gojulas foi um dos primeiros Zoids a receber um modelo novo e hiper detalhado pelo estúdio japonês Kotobukiya.

Zoids Command Wolf
Command Wolf: o GM para o Gundam dos Ligers

 

Command Wolf: Enquanto os Ligers são os mascotes da república, despenhando o mesmo papel icônico que o Gundam tem para a linha homônima, os Command Wolves e suas variantes são os seus GMS: marcantes, produzidos em massa e onipresentes. A resposta imperial para eles são os Killer Kats e o Lightning Saix – embora esses sejam menos utilizados por material publicitário.

Geno Saurer: e se tiranossauros cuspissem lasers?
Geno Saurer: e se tiranossauros cuspissem lasers?

 

Geno Saurer: Derivado do monstruoso Death Saurer, o Geno Saurer é outro Zoid tipo tiranossauro, desta vez seguindo a estrutura horizontal aceita pela paleontologia moderna. Suas variantes e seus derivados estão para as facções imperiais como os Ligers estão para a república: se a cara da república são seus ligres, a de Guylos são seus Geno Saurers, Berserk Fuhrers e similares.

 

Chaotic Century

 

Como muitas linhas do gênero, Zoids contou com algumas adaptações para animação, começando por Chaotic Century, produzida pela Shogakukan Productions em 1999, marcando a ressurreição da franquia. A série centrava-se no jovem Van Flyheight, seu Organoid (um Zoid diminuto, capaz de potencializar o núcleo de outros) Zeeke e a antiga Zoidiana Fiona em busca da “Eva Zoidal”, a fonte da vida em Zi, em meio ao conflito da segunda metade da Battle Story clássica. Após a destruição do Death Saurer pilotado pelo filho bastardo de Zenebas, o regente em exercício de Guylos Gunther Prozen, a série dá um salto de três anos para Guardian Force, dando continuidade ao conflito armado entre Guylos e Helic – mantido graças à corrupção na corte de Guylos. Focada na guerra, Chaotic Century é a série mais claramente inspirada por Gundam (e pode ter sido responsável pela existência dos BuCuE e LaGowe em Gundam SEED, possíveis respostas à Zoids). Juntas, as duas partes de Chaotic Century contam com 67 episódios.

 

New Century Zero

 

Após Guardian Force, outra série de TV de Zoids foi produzida, com a mesma equipe de produção em 2001. Zoids: New Century Zero descarta o clima político e a trama de guerra das séries anteriores para focar na carreira de Guerreiros Zoids que vivem de lutar em arenas. É nesse cenário que o sucateiro Bit Cloud tenta trilhar seu caminho rumo à fortuna como parte do time Blitz. Por um acaso do destino, Cloud é o único capaz de controlar o poderoso Liger Zero – um Zoid misterioso e desobediente. Embora Chaotic Century não escondesse sua raiz publicitária, New Century ia além, se resumindo à um longo arco de torneio com brinqued… err, monstros da semana. Teve 26 episódios ao todo.

 

 

Fuzors

 

Em 2003, um terceiro anime de Zoids foi produzido, com animação pelo estúdio gráfico Tokyo Kids, no lugar da Xebec  que havia trabalhado nas duas séries prévias. Com 26 episódios (dos quais apenas 13 foram exibidos na televisão) e CGI perceptivelmente inferior, Fuzors conta a história de RD, um jovem “Lutador Zi” na Cidade Azul. Novamente focada em lutas de arena, a série põe seu foco em “fuzors”, Zoids criados combinando dois ou mais zoids menores. O fracasso de Fuzors marcou o fim de Zoids no ocidente.

 

Genesis

 

Em 2006, a TOMY lançou outro anime de Zoids, novamente com CGI pela Xebec. Com 50 episódios, Zoids: Genesis contava a história de Ruuji, um jovem sucateiro na aldeia de Mirodo. Após um ataque do Império Digald, Ruuji se vê forçado a lutar a bordo de um Zoid selvagem, o Murasame Liger, e lentamente se torna o líder de uma rebelião contra o império e seus sinistros Bio-zoids. Novamente sem mencionar as séries anteriores, Genesis é a primeira a conectar todas as quatro séries através de seus fragmentos da Battle Story e de pistas sutis ao longo da série, sugerindo que a guerra entre Zenebas, Guylos e Helic terminou em destruição mútua e no abandono do continente central.

 

 

Zoids na Marvel

 

Mas não foi só da Battle Story que o lore de Zoids viveu nos anos 80. A “Casa das Ideias” gerou sua própria ficção para a linha, a pedido da divisão inglesa da TOMY. Publicada no Reino Unido entre 1986 e 1987, Spider-man and Zoids trazia uma história do Homem-Aranha e uma história dos Zoids, contando uma origem totalmente diferente…

Homem-Aranha e Zoids #49. Sim. Homem-Aranha e Zoids. Não, eles não interagiam.
Homem-Aranha e Zoids #49. Sim. Homem-Aranha e Zoids. Não, eles não interagiam.

 

Com 51 edições, a revista focava no conflito entre os Mutantes Vermelhos, liderados por Red Horn, e os Guardiões Azuis comandados por Zoidzilla (Gojulas) no planeta Zoidstar, lar do extinto império Zoidariano. O equilíbrio de forças é perturbado com a chegada de uma nave prisional humana, que faz contato com o último Zoidariano vivo, Namer. Secretamente, a nave e seus prisioneiros foram mandados pelo corrupto governo da Terra e pela corporação Cybersol para servir de cobaia e capturar um dos organismos cibernéticos do planeta.

 

O quadrinho foi cancelado no começo da “saga dos Zoids negros”, escrita por um jovem Grant Morrisson. No arco, uma nova armada liderada pelo terrível Krark, o Príncipe das Trevas (o modelo Salamander) se organizava em Zoidstar, visando a total dominação da galáxia. O quadrinho, como muitos títulos britânicos, tinha um tom bastante sombrio, comparável com o da narrativa textual da Battle Story – embora seguisse tropos narrativos totalmente diferentes. 

Basta por nomes legais nas coisas, tipo, evitar chamar eles de merda.
Basta por nomes legais nas coisas, tipo, evitar chamar eles de merda.

 

Eis Zoids. Uma linha de animais mecânicos cuja narrativa nos modelos parece ter sido ignorada totalmente por suas outras encarnações – o que é uma pena. Afinal, não pode ser tão difícil assim vender uma linha sobre leões mecânicos com mais armas que um fanfic ruim, pode?

Eu disse EVITAR nomes ruins.
Eu disse EVITAR nomes ruins.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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