Vozes de uma estrela distante

Vozes de uma Estrela Distante
Vozes de uma estrela distante: uma obra de um artista só

A separação entre amantes causada pela guerra é um tema já velho. Os dilemas da distância, da incerteza e da perda já foram abordados centenas de vezes por autores, diretores, músicos e dramaturgos – e não poucos ao longo da história enfrentaram o sofrimento dos dias de espera por alguma notícia da pessoa amada. A ficção científica e a animação não são estranhas a esse tema. Mas e quando o front não fica a dias de distância, mas anos? Quando a linha de batalha não fica em outro país ou outro continente, mas em órbita de outra estrela? Pode um relacionamento sobreviver quando mensagens levam meses, depois anos para chegar?

Makoto Shinkai se propôs a abordar esse dilema em seu primeiro filme comercial, Hoshi no Koe (Vozes de uma estrela distante) de 2003 (seus filmes anteriores, Ela e seu gato, de 1999 e Outros Mundos, de 1997, não foram distribuídos). Com apenas 24 minutos de duração, o drama escrito, dirigido, ilustrado e animado por Shinkai (as únicas coisas que ele não fez foram algumas das vozes de fundo e a trilha sonora) narra a tragédia dos estudantes Noburo Terao (Chihiro Suzuki. Shinkai no lançamento original do curta) e Mikako Nagamine (Sumi Mutoh. No corte original, Mika Shinohara, a esposa de Shinkai) no ano 2047Amigos desde infância, o casal pretende cursar o ensino médio juntos – mas a realidade tem outros planos. Mikako foi convocada para as forças armadas, para compor a força tarefa especial que partirá rumo às estrelas em busca dos misteriosos Tarsianos que atacaram a humanidade durante a colonização de Marte. E quando mais longe a frota vai, mais tempo leva para que suas mensagens cheguem ao amado. Quanto tempo é aceitável que ele espere? Seis meses? Um ano? Oito anos? Teria ela o direito de exigir isso dele? Estaria ele errado em desistir de esperar?

Com um texto minimalista, quase todos os diálogos do filme se travam entre Mikako e Noburo, na forma dos e-mails dela. Por vezes melodramático, Shinkai aborda com delicadeza o sofrimento causado pela distância. A separação entre as pessoas se revelaria depois o grande tópico da obra de Shinkai, trabalhada em filmes como O lugar prometido em nossa juventude (2004), Cinco Centímetros por segundo (2007) e O jardim das palavras (2013). Assim como a relação entre violência psicológica e a forma física são recorrentes na obra de David Cronenberg, as causas da separação entre as pessoas e as maneiras de superar as barreiras que nos separam são recorrentes na obra de Shinkai – coisa que já era explorada neste curta.

Como fruto de um autor só, a animação ocasionalmente limitada de “Vozes de uma estrela distante” é perdoável, e definitivamente compensada pela rica atenção aos detalhes demonstrada por Shinkai. Onde seus protagonistas por vezes saem do modelo, seus cenários são de uma beleza ímpar – e quando a animação não peca, ela é belíssima, como pode ser visto no trailer acima. Porém a deficiência técnica é particularmente notável nas cenas de batalha, que bebem não pouco do clássico Top wo Nerae! (Gunbuster, 1989), de Hideaki Anno – obra com a qual divide o tema do distanciamento entre as pessoas como resultado da era espacial. Onde em Vozes essa separação se dá graças à ausência de comunicação mais rápida que a luz, em Gunbuster ela ocorria como consequência da mecânica relativística e da dilatação do tempo. Essa alienação em particular foi abordada também em Guerra sem fim, de Joe Haldeman. 

Melancólico, lento e deixando perguntas em aberto (intencionalmente, não por incompetência), “Vozes de uma estrela distante” faz um questionamento que nos é necessário caso em algum ponto alcemos rumo às estrelas: como manter o contato com quem fica para trás e que direito temos de pedir que aqueles que foram deixados na Terra nos esperem? Quanto tempo podemos exigir que esperem por notícias de nós, sabendo que a próxima mensagem que mandemos não apenas lhes informe que vai demorar mais, mas os deixará na preocupação até que possamos mandar algo outra vez? Perguntas insignificantes para hoje – mas que um dia podem ser relevantes, e que derivam de questões reais enfrentadas por aqueles que cruzavam os mares antes da comunicação instantânea da modernidade.

“Vozes de uma estrela distante”, infelizmente, foi retirado do acervo do Netflix neste fim de semana. Ainda deve estar disponível em sites de streaming especializados em animação japonesa.

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