Uma homenagem ao rei – Kirby Genesis

Acreditamos em Super Heróis, porque no fundo, acreditamos em nós mesmos.

Kirby00CoverRossTEMP4SOliciEm 1994, o mundo dos quadrinhos perdia um dos seus melhores: no dia 6 de fevereiro, uma falência cardíaca tirava a vida de Jacob Kurtzberg, ou como melhor era conhecido, Jack “King” Kirby. Poucos na arte sequencial tiveram uma influência tão grande – e tamanha demora para terem seu merecido crédito. Entre homenagens, prêmios (tanto recebidos quanto batizados em sua homenagem, como o Hall da Fama Jack Kirby e os prêmios Jack Kirby), citações e referências estilísticas, seu traço único, criatividade inigualada e – acima de tudo – forte idealismo e crença no conceito do super-herói como “a nova mitologia” e a representação dos anseios e aspirações da humanidade tem um lugar fixo no mundo dos quadrinhos.

Não que Kirby sempre tivesse sido bem tratado: apesar de ter sido responsável direto por boa parte do elenco da era de prata da Marvel (assim como os da Timely e da Atlas, na era de ouro), ter experimentado com os limites da arte sequencial, sozinho criado (e matado) o gênero de romance adolescente nos quadrinhos, e criado clássicos como Kamandi, Os novos Deuses OMAC para a DC, Kirby encontrou dificuldades em todas as editoras pela qual passou. De violações do seu direito autoral (como feito pelo publisher da Marvel, Martin Goodman), controle editorial e ideias que estavam muito a frente de seu tempo (títulos como EternosNovos Deuses teriam imenso sucesso se publicados hoje – à sua época, no entanto, as pretensões filosóficas dessas histórias eram um choque com o status quo dos quadrinhos).

250px-Silver_Star_Comics250px-Captain_Victory_01_coverFora nos anos 80 apenas (depois de cinquenta anos trabalhando com quadrinhos) que Kirby começou a ter seu devido respeito – embora sua família ainda trave uma longa luta legal pelos direitos do autor – A DC devolveu royalties por vários dos personagens do “quarto mundo” (e fez com que Kirby fizesse os designs dos bonecos da linha Super Powers, para que ele recebesse os royalties), a Marvel devolveu os direitos à várias das mais de 10 mil páginas que ele desenhou para a editora (no entanto, o que foi devolvido não chega a 20% da obra que ele fez para a marvel) e em 1983 a minúscula Pacific Comics quebrou o sistema vigente (onde a propriedade dos personagens era das editoras) ao publicar duas minisséries – Captain Victory and the Galaxy RangersSilver Star – nas quais a propriedade intelectual ficou totalmente nas mãos dele. A jogada da Pacific abriu caminho para os quadrinhos autorais e iniciou uma mudança considerável nos direitos dos artistas de quadrinhos.

4994023460_94f7de5814No começo dos anos 90 – naquela era obscura onde o Wolverine não tinha nariz, o Coisa carregava armas enormes e o Batman tinha sido substituído por um cara com uma espada flamejante – a Topps decidiu dar ao lendário quadrinista seu devido respeito, com uma linha de 22 edições chamada “Kirbyverse”, contando histórias de personagens que o rei nunca conseguira publicar antes – fruto de rascunhos, esboços, anotações e ilustrações que nunca foram aprovadas por editores. Essas 22 edições, assim como as minisséries da Topps, pertencem por completo ao espólio de Kirby – e encarnam bem as marcas dele: mesclam ficção científica e fantasia com maestria, pintam um mundo fantástico onde a humanidade pode e deve ser melhor, onde não há limites para o que pode ser feito, e no qual os mitos clássicos e a “nova mitologia” do super herói são uma coisa só. Onde a origem e o destino da humanidade estão nas estrelas, na imensidão cósmica pela qual vagam pretensos deuses estelares, e no qual a história humana se inicia em eras longínquas e civilizações perdidas, milhares ou milhões de anos no passado. Em suma, o material do qual são feitos os mitos.

coloreado alternativo (1)E é esse universo que a Dynamite trouxe de volta com Kirby Genesis, publicada em capa dura no Brasil pela Mythos. Tomando como base a ilustração que Kirby produziu para o Los Angeles Times representando a imagem que ele colocaria na placa da sonda Voyager 10, Genesis leva o universo dos heróis de Kirby – incluindo vários nunca publicados – à uma terra insuspeita, trazendo consigo revelações bombásticas sobre os progenitores, a humanidade e seu lugar no cosmos. E em uma homenagem extra (desnecessária em vista do título já ser Kirby Genesis, mas que ainda assim é tocante), grande parte desse universo é visto pelos olhos de um jovem nerd também chamado Kirby.  À ele juntam-se ilustres desconhecidos como Tigre 20, O Errante, Cisne da Meia Noite Pé de Trovão. 

1297430489Com roteiro de Kurt Busiek (Thunderbolts, Marvels, Astro City), arte do extremamente talentoso brasileiro Jack Herbert (Black Terror, Red Sonja) e do lendário Alex Ross (Reino do Amanhã, Marvels, Justice), Genesis faz tudo aquilo que uma homenagem e um resgate do autor deve fazer: não tem vergonha do material de origem, mantendo uma fidelidade aos esboços e projetos originais de Kirby sem igual; preserva o tom otimista e esperançoso que marcou a obra do autor – como visto em personagens como Senhor Milagre Orion, da DC Comics; trata a imagem do super herói como mito e não só como um produto, e usa desse meio como uma maneira de indagar sobre a imaginação e os anseios humanos.

Todos os tropos adorados por Kirby estão aqui: temos uma civilização ancestral perdida pelo tempo (Gazra e seus cavaleiros gloriosos); um continente perdido no maior estilo pulp (O Continente Fantasma – ideia que ele nunca colocou em publicação); Terras míticas onde mitos e lendas são realidade (como ele fez na aurora da Marvel com O poderoso Thor); Misteriosos precursores de intenções dúbias (os Progenitores) e seus descendentes ainda mais questionáveis (os genitores); entidades cósmicas personificando conceitos e de motivações inescrutáveis; uma visão cósmica e cosmológica que pode muito bem ser descrita como “psicodélica” e um misto de humanismo e idealismo que transborda através das camadas de super heróis, aliens, monstros e super seres.

5f44cd505438a9536b692bbf89e2fc7fMais que uma história de super heróis, Genesis é uma viagem na mente de um homem que moldou as histórias em quadrinhos como ninguém, e uma jornada cósmica sobre o próprio conceito de ficção e mito. Serviu para reviver personagens antigos e conceitos esquecidos que mereciam sua chance – mesmo que a primeira vista possam parecer datados e antiquados; afinal, o bom mito é atemporal, e a obra de Kirby definitivamente transcende a barreira do tempo – e o mesmo vale para essa brilhante ode ao falecido rei dos quadrinhos.

Em suma, uma leitura obrigatória para todos que amam super heróis. E mais ainda para quem admira o estilo único de Kirby – tanto em termos de design quanto de narrativa: Busiek, Ross e Herbert definitivamente conseguem emulá-lo, sem ceder a tentação de “modernizar” o que não precisa ser mudado.

Ficou interessado em adquirir a obra? Ela está disponível na Livraria Cultura: clique aqui

Jack-Kirby_art-of-jack-kirby_wyman-skaar

 

Gostou do conteúdo?


Curta a nossa fanpage no Facebook:  
e siga-nos no Twitter:  

O Metranca agora está aceitando conteúdo enviado pelos leitores!
Confira em: https://coletivometranca.com.br/contribua-com-o-metranca/

Veja Também

Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*