Um demônio contra os justiceiros?

devilman-2213959Engraçado como a mensagem apropriada para o momento aparecem em lugares estranhos. Se eu dissesse que uma das mais fortes mensagens contra essa cultura de ódio que impele os “justiceiros” vêm de um mangá de horror marcado pela ultra-violência, eu pareceria louco – e é justamente isso que eu estou aqui para dizer.  Pessoas, conheçam Devilman.

Coração de Homem, Corpo de Demônio – 

Quando o eternamente transgressor Go Nagai (que criou coisas como Kekko Kamen – uma super heroína que veste mascara, luvas, botas, um cachecol… e mais nada, e o lendário e seminal super robô Mazinger Z) começou a trabalhar em Devilman, em 1972, o título não tinha pretensão alguma: era uma maneira de “matar tempo” do trabalho com uma animação de mesmo título, e uma tentativa de compensar a fracassada tentativa de levar Maou Dante à TV (ironicamente, Devilman TV parecia mais com Maou Dante do que com Devilman). Mas ao longo dos dois anos trabalhando com o personagem, Nagai fez daquele projeto “para salvar uma ideia” um manifesto contra a intolerância. *Maou Dante em si já discursava contra a guerra, mas de uma maneira muito mais… esotérica.

Bicho fofo
Bicho fofo

Nosso protagonista, Akira Fudou, é a antítese do herói de Nagai: no lugar do sangue quente e a irreverência, Fudou é um rapaz tímido, gentil e inseguro – ao menos de início: a trama de super-heróis misturada com horror sobrenatural se dá início quando seu melhor amigo, Ryou Asuka, o alerta a ameaça iminente dos Demônios, exterminados em eras longínquas e agora retornam alimentados pela decadência humana. A única salvação é a pureza do coração de Akira, que sacrifica sua humanidade para tomar o corpo do demônio Amon, assim virando Devilman.

Depois de alguns capítulos desperdiçados, envolvendo Devilman lutando contra “demônios da semana”, ou salvado Miki Makimura – a namorada de Akira – da demônio Sirene, a verdadeira cara do mangá de Nagai se expõe nos interlúdios entre os arcos de história. Mostrando a lenta infiltração dos demônios na sociedade e o clima de medo e paranoia resultante, essas breves histórias de três ou quatro páginas são mais importantes que a maioria das tramas centrais até o ponto que “vai tudo pro inferno”.

Daquele projeto começado para a TV como “Mal versus Mal” – um demônio que matava demônios, e que originalmente não tinha o elemento “coração de um homem” – Nagai viu algo maior: marcado por pesadelos envolvendo guerra nuclear e genocídio movido por preconceito, Nagai decidiu fazer daquela obra de horror a sua mensagem. O homem que não perdia a chance de por uma piada pervertida, ou alguns litros de sangue a mais, agora queria dar uma mensagem do que não fazermos – e o fez com maestria.

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“E se eles não resistirem, provoquem” Nem comento quem parece

devilman-2214671Primeiro tem-se o estado de paranoia constante, a desconfiança que o “outro” seja um demônio disfarçado; Formadores de opinião (a lá Sheherazade, Datena, Limbaugh e etc) usando desse estado para estimular a população a caçar “os demônios” – e a violência resultante; políticos e grupos de ódio alegando que é “óbvio”, que os demônios são os pobres, os gays, os negros, os judeus, os imigrantes, os drogados… nunca cessando, sempre alegando que a violência “preventiva” precisa ser cada vez maior.

E esse é o mundo gerado pelo ódio, segundo Nagai: um mundo onde pessoas morrem em cima de boatos, onde o medo é uma constante, onde ter “jeito” de demônio é o bastante para garantir uma condenação sumária. Onde se é culpado até que se prove o contrário, e onde a prisão ou linchamento de um inocente é “justa”, pois ele podia ser um deles. Onde se tem na tortura um meio para se “provar” que o réu é culpado, e se ele morrer antes de ter prova… azar. É o preço a se pagar. Um mundo de demônios no corpo de homens. Qualquer similaridade com o estado defendido pela brigada do “bandido bom é bandido morto” não é mera coincidência: era contra estes defensores de um estado de medo-para-salvar-nos-do-medo que Nagai dirigia seu manifesto.

"Ciência" a serviço do ódio
“Ciência” a serviço do ódio

A conclusão desse quadro é óbvia: quanto mais os humanos desciam, mais demônios se manifestavam, mas Devilman toma a chance de inverter os papéis – e perto do fim, os Demônios são um pano de fundo para o horror da crueldade humana. Traído por Ryou, Akira é exposto em rede nacional; por abrigarem “o demônio” (ironicamente, aquele que era a última esperança da humanidade), os pais de Miki são presos, torturados e mortos. Seus torturadores, confrontados por Devilman, dão duas defesas que demonstram a banalidade do mal: “Estávamos só obedecendo ordens” e “Nós nunca ferimos um dos seus, não tem por que nos odiar, só matamos humanos” (a clássica porque liga pra homofobia se não é gay????). A população tomada pelo ódio mata “a bruxa amante do demônio”, e a ultima esperança da humanidade renega os humanos vendo isso. Eis o resultado do ódio: o fim do mundo. 

devilman-2215125O quadrinho se estende um pouco além disso, mostrando os primórdios da terceira guerra mundial sendo cancelados por “uma força maior”, a revelação de mais pessoas como Akira, a formação de um “exército dos Devilmen”, o segredo terrível de Ryou, a queda da civilização humana, a batalha climática (e nunca retratada) entre o exército de Satã e o exército dos Devilmen, e o fim do mundo propriamente dito. Mas a parte mais importante  – de longe – é o retrato chocante da humanidade tão desfigurada em ódio a ponto de se tornar mais hedionda do que os demônios.  

Lançado entre 1972 e 73, Devilman é um mangá feio e sujo – como muito de Nagai na época, marcado traços fortes e rebuscados. A escrita por vezes peca no apreço pelo melodramático, mas isso também é uma marca do período. O que realmente não é uma questão do tempo é a bizarrice dos designs (BOCAS NOS PEITOS! UM TRONCO QUE É A CABEÇA! ORELHASAS!), pesadamente inspirados por arte e textos medievais – e é claro, a mensagem de tolerância exposta através de um retrato cruel e doloroso de um mundo no qual a empatia se foi.

Nagai escreveu vários spin-offs de Devilman – alguns são continuações, focando mais no horror que no social (ou vice-versa), outros realidades alternativas ou releituras do conceito. AMON, produzido em parceria com o desenhista Yuu Kinutani, retrata os vinte anos entre Akira renegar a humanidade e a batalha final contra Satã.  Marcada por uma quantidade absurda de material sexual, Devilman Lady traz uma versão feminina do anti-herói, e muda a ameaça para organismos geneticamente modificados. Amon: Apocalipse of Devilman traz uma releitura em que o demônio Amon se apoderou do corpo de Akira depois que Miki morreu. Neo-Devilman traz 17 histórias no universo de Devilman pelas mãos de vários artistas. E bem… a tensão de trabalhar com uma obra tão pesada levou Nagai a procurar algo mais leve e idealista (sendo um firme defensor da ideia de que humanos são melhores que isso há um admirável mundo novo esperando a nossa frente) para aliviar o stress – esse “algo mais leve” começou como Energer Z, e foi concretizado em Mazinger Z… A série que criou todo o gênero de super robôs. 

Só uma ínfima amostragem dos designs de Devilman
Só uma ínfima amostragem dos designs de Devilman

Críticas a ideia do “bandido bom é bandido morto”, do vigilantismo e do estado policial abundam em quadrinhos. Algumas o fazem de forma escancarada, como foi feito por Nagai. Outras fazem através de paródias e sátiras mordazes que, infelizmente, as vezes são mal entendidas – vide o caso do genial Judge Dredd, de 2000 A.D.,  do cenário de jogos Warhammer 40k, ou do anti-herói Justiceiro, da Marvel (um outro vigilante assassino da Marvel, o Flagelo do Submundo, nunca foi tomado por herói por quem não sacou a ideia – mas em uma demonstração de não entender que ele era uma crítica ao vigilantismo, a editora fez dele um capanga do Rei do Crime tão logo ele foi escrito por outro roteirista).

Vigilantes podem ser legais na ficção, e uma boa sátira sempre faz bem. Mas tem horas que temas como esse precisam ser abordados da maneira que Nagai fez: jogando a discussão sobre isso no meio de uma história de terror, tratando um mundo regido por essa lógica como um horror inigualável. Há de se lembrar que não há nada de louvável em quem faz justiça com as próprias mãos. É só trocar um bandido por outro – ainda mais porque, na vida real, ao contrário das HQs, os bandidos não usam fantasias ou marcas de gangue. Alguém como o Justiceiro que saísse “caçando bandidos” teria tanta chance de matar o bandido quanto de matar um fulano qualquer. E isso, meus caros… é horrível.

Devilman e seus spin-offs estão quase todos disponíveis (em inglês) no Manga Reader

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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