Traíras, Traíras por toda parte

Personagens tão ardilosos quanto esse guaxinim abundam...

Tem certos tipos de personagem que são recorrentes a ponto de beirarem o clichê. Personas arquetípicas tão universais quanto o ato narrativo em si. Um desses arquétipos, do qual quero tratar aqui, é o subalterno traiçoeiro, uma figura recorrente em histórias de ficção científica, super heróis, desenhos de ação, fantasia medieval, dramas históricos…

 

Ou seja, em tudo.

 

O tipo é bem conhecido, em geral sendo o segundo em comando de sua organização. Sua característica primária é a ambição, a ânsia pela liderança. Por mais que seus superiores confiem (ou não) neles, são personagens que os leitores sabem que estão apenas a espera da oportunidade de derrubar o regente e assumir o trono, apunhalar o general e tomar o controle, depor o presidente e se empossar no lugar e por aí vai.

 

Esse arquétipo do subalterno ambicioso e pérfido é antigo – muito antigo, e como quase todo clichê, tem uma base no real. Por exemplo personagens assim servem como o estopim para grande parte dos eventos do romance histórico Sanguoyanyi (O Romance dos Três Reinos, de Luo Guanzhong), do século 14, baseado na guerra de unificação chinesa dos séculos II e III.

 

Como muitos outros arquétipos, podemos dividir nossos traíras em alguns subtipos. Eu separei os três “principais”, cada um marcado por como sua falta de lealdade se manifesta, e que meios usam para obter sua posição tão cobiçada.

 

 

O conselheiro traiçoeiro

 

O primeiro e um dos mais comuns é o “conselheiro traiçoeiro”, frequentemente o líder de fato de qualquer organização que faça parte. Também pode ser chamado de o grão vizir, dado a tendência de vizires em ficção serem canalhas ambiciosos. Como o braço direito do rei/sultão/presidente/primeiro ministro/general, o conselheiro traiçoeiro tem os ouvidos de seu “líder” à sua total disposição.

Armand Jean du Plessis, Cardeal de Richelieu: primeiro ministro e arquiteto do absolutismo na França.
Armand Jean du Plessis, Cardeal de Richelieu: primeiro ministro e arquiteto do absolutismo na França.

 

Há duas maneiras que esse tipo de traíra se manifesta. O primeiro, e mais “realista”, é como o caso do Cardeal Richelieu nos livros dos Três Mosqueteiros (e como figura histórica), ou como os Eunucos de Sanguozhi, e Cao Cao como o primeiro ministro no mesmo livro. Ele não é realmente um traídor, mas tem uma agenda própria a seguir, e seus conselhos para seu líder não visam os melhores interesses dele, mas sim seus próprios planos. Não tem a menor intenção de subir ao trono, mas tampouco quer abrir mão do poder – muitas vezes maior que o do rei.

 

Um bom exemplo animado é o líder dos Dai Li em Avatar: a lenda de Aang, Long Feng. Como o conselheiro de confiança do rei da terra e o chefe de sua polícia secreta, Long Feng não apenas tem o rei na palma de sua mão, sendo o real regente de Ba Sing Se, como oculta de vossa majestade qualquer ameaça possível ao seu poder. Muito como os eunucos na corte imperial chinesa.

 

O Vizir de Guerreiros das Sombras: suspeito, mas no fim das contas leal
O Vizir de Guerreiros das Sombras: suspeito, mas no fim das contas leal

Alguns desses assessores dissimulados até são personagens “heroicos” à sua maneira, obstruindo o caminho dos protagonistas não por ambição ou por intenções escusas, mas por teimosia ou aderência cega à tradição. À primeira vista parecem serem traiçoeiros, sem o serem; esse tipo de caracterização geralmente é deliberada e feita para gerar suspeita sobre as motivações do vizir/ministro/cardeal/etc. Um exemplo muito bom disso é o Grão Vizir do planeta do Fogo no obscuro desenho Guerreiros das Sombras. Embora seja manipulador. dissimulado e sempre esteja no caminho dos heróis (incluindo seu assessorado, o jovem príncipe Pyrus), o vizir deseja somente o que é melhor para seu regente e seu mundo – mas não consegue se desgarrar de uma cultura de desconfiança e subterfúgio.

 

O outro tipo é o que o Cardeal se torna na maioria das adaptações da obra de Alexandre Dumas: o canalha que não quer nada além do poder pelo poder (ou para fins sinistros). Esse tipo está ou guiando seu regente para decisões tolas visando derrubá-lo, ou conspirando com seus inimigos para derrubá-lo. Um grande exemplo é o Vizir de Aladdin. Outro mais obscuro, vendo dos desenhos mercadológicos dos anos 90 é o comandante pirata Barca, de Exo-Squad, mantendo o rei-pirata Simbacca na ignorância quanto a traição sendo fomentada entre os jovens.

 

Gihren Zabi: manipulador, ambicioso, assassina o próprio pai quando não tem mais uso pra ele.
Gihren Zabi: manipulador, ambicioso, assassina o próprio pai quando não tem mais uso pra ele.

Mas um dos mais ardilosos exemplares dessa categoria é o segundo em comando do Principado de Zeon no clássico Mobile Suit Gundam, Gihren Zabi. Embora o regente “oficial” seja seu pai, Degwin, Gihren não apenas se aproveita da fraqueza do pai para guiar Zeon em uma guerra fútil, como tão logo seu pai demonstra qualquer relutância quanto a continuar o esforço de guerra, Gihren usa de sua posição para “sem querer querendo” matar o pai – assim se tornando o principal antagonista da série. A franquia é cheia desses e se alguém tem um assessor/confidente/conselheiro e está em uma posição de poder em uma série de Gundam… provavelmente será vítima de um desses. Turn A Gundam contou com um desses (Agrippa Maintainer) sendo esfaqueado por outro desses (Gym Gingaham).

 

 

O capanga com segundas intenções

 

James McCullen Destro: leal apenas a si mesmo
James McCullen Destro: leal apenas a si mesmo

Diferente do conselheiro traiçoeiro, o capanga com segundas intenções geralmente não está em uma posição de poder efetivo. Normalmente está em uma posição do alto escalão, mas não tem o comando das forças. À primeira vista, ele é leal. Não busca depor seu chefe, assumir a liderança ou qualquer outra coisa do tipo. Mas sua lealdade é pragmática, e só vai até onde seu uso para seus “aliados” durar. Enquanto sua organização visa uma coisa, o capanga com segundas intenções tem seus próprios planos.

 

Um ótimo exemplo desse tipo de personagem é James McCullen “Destro”, de G.I. Joe. O financista e engenheiro de armas dos Cobra raramente demonstra interesse aberto em depor o Comandante Cobra, mas quando seus interesses – dinheiro e a Baronesa – são ameaçados pelos planos dos Cobra, ele não tem problema em fazer um pouco de sabotagem – ou em assumir o comando. Outro caso (bem sucedido) foi o vilão M.O.D.O.K., que não apenas assumiu o controle da I.M.A tão logo ela deixou de lhe ser útil, como a distanciou quase que completamente de sua organização-mãe, a Hydra. Com menos sucesso, Fabian Cortez e seus Acólitos tentaram manipular Magneto e os recursos do Asteróide M para seus próprios fins. 

 

A agenda seguida por um personagem desses pode ser paralela ao grupo que serve, como é o caso do sacerdote goblin Redcloak no webcomic Order of the Stick, Bill Cipher na primeira temporada de Gravity Falls, ou as três bruxas em Gargoyles. Se seus “chefes” tenham ou não sucesso é irrelevante. O que importa é que eles possam ser úteis na busca por seus próprios objetivos. E se não forem, que possam ser tirados do caminho. Inhumanoids tem um caso curioso disso, com o vilão Blackthorne Shore – que de alguma maneira acha que poderia “se livrar” dos monstruosos Inumanóides depois que eles deixassem de ser úteis para lhe dar lucro, ignorando que os monstros querem destruír a humanidade.

Barão Ashura: usando o seu "mestre"
Barão Ashura: usando o seu “mestre”

 

Mas na maioria dos casos, o objetivo deste tipo de personagem ou depende de seus chefes falharem, ou vai diretamente contra eles. Para que possam alcançar o que querem, seus patrões precisam falhar. E portanto, com certa frequência eles precisam sabotar seus planos enquanto mantém uma ilusão de lealdade. Caso este de Slade Wilson na quarta temporada de Teen Titans (cuja lealdade a Trigon é puramente pragmática), visando apenas sua própria sobrevivência. Um caso mais extremo é o do Arquiduke Gorgon em Mazinger Z, ou do Barão Ashura no remake Mazinger Z: The Impact!. Nenhum é abertamente desleal ao seu mestre, Doutor Hell, mas seu objetivo final – a ressurreição do império micênico – depende do fracasso deste.

 

Scorpius: seguindo sua própria agenda.
Scorpius: seguindo sua própria agenda.

Novamente, Gundam é cheio desses, mas dois casos em particular se destacam. Na série original, temos o “Cometa Vermelho” Char Aznable, um ás do principado de Zeon cuja lealdade dura até surgirem as oportunidades certas para seu real objetivo: a morte da família Zabi. A série seguinte, por sua vez, trás o “Homem de Júpiter”, Paptimus Scirocco, cuja aliança com os Titãs e com o Eixo são partes de um grande estratagema que nem o criador da série, Yoshiyuki Tomino, sabe bem explicar.

 

Scorpius, da excelente série Farscape, é outro bom exemplo. Líder de uma divisão de pesquisa dos Pacificadores, o desfigurado comandante tem seus próprios objetivos em mente – que podem ou não exigir o “sacrifício” de seus patrocinadores. A série tem um exemplo mais “fracassado” disso na forma de Bialar Krais, outro comandante dos pacificadores que só tem um objetivo em mente: vingança.

 

Sendo eu, não poderia não mencionar Transformers aqui, com o caso curioso de Shockwave. Enquanto os desenhos pintam o cientista Decepticon como um dos mais leais seguidores de Megatron, os quadrinhos pintam algo muito diferente: Shockwave tem um mestre apenas, a Lógica. Na série da Marvel, quando seus cálculos apontaram que Megatron era uma liabilidade, Shockwave optou por tomar o comando a força, “pelo bem da causa”. Já em Dark Cybertron, da IDW, o ex-senador bolou um longo plano para “salvar” Cybertron à custa de todo o universo, plano pelo qual serviu os decepticons por milhões de anos.

Sideways: manipulando os dois lados, a serviço de uma terceira parte
Sideways: manipulando os dois lados, a serviço de uma terceira parte

 

Outro caso da mesma franquia, que combina isso com um conselheiro traiçoeiro (pros dois lados!) é Sideways, em Transformers Armada. Seus conselhos para os todos envolvidos no conflito resultaram em grande parte do drama de Armada – e tudo visava o sucesso de seu verdadeiro senhor, Unicron.

 

 

O Starscream

 

Starscream: nem ao menos FINGE lealdade.
Starscream: nem ao menos FINGE lealdade.

E assim chegamos ao último tipo, que só pode ser definido com seu maior personagem: O Starscream, o auto-proclamado “líder por direito” dos Decepticons na série original de Transformers. Enquanto o capanga com segundas intenções se dá o trabalho de fingir lealdade até que chegue a hora certa, Starscream nem sequer finge ser leal. Traiçoeiro, desonesto e sempre pronto para assumir a liderança, um Starscream perfeito fala abertamente que dada a chance, esfaquearia Megatron nas costas. E no primeiro sinal de vulnerabilidade, tenta assumir a liderança. Toda vez.

 

Por motivos óbvios, esse tipo de personagem tende a fazer com que seu chefe pareca um idiota – e justamente por isso, a maioria deles não é tão abertamente desleal. Um Starscream tem um objetivo apenas: ser o líder. Pra que? Para ser o líder, oras. Não sem motivos, esse é um tropo predominantemente de desenhos de ação e histórias infantis, dado o seu maniqueismo e superficialidade,  mas ocasionalmente dá as caras em outras mídias.

 

Alguns Starscreams, ao invés de demonstrarem desdém por seus líderes, são puxa-sacos recorrentes que os desprezam pelas costas. Um raro exemplo heroico desse tipo de personagem vem de SWAT Kats: O tenente Steel, dos Enforcers, ansioso para provar a incompetência de seu comandante Feral – mas que bajula o mesmo quando este está presente. Outros, como Johann Schmidt, o Caveira Vermelha, não fazem o menor esforço para esconder o quanto desprezam seus líderes – que mantém seus serviços mais por medo do que por confiança. 

O Comandante Cobra: de líder à Starscream - e com o mesmo dublador!
O Comandante Cobra: de líder à Starscream – e com o mesmo dublador!

 

Em G.I. Joe, o Comandante Cobra foi reduzido à um desses na segunda temporada de A Real American Hero, depois que o grupo terrorista foi tomado pelo super-soldado Serpentor.  Enquanto isso, nos quadrinhos o inverso aconteceu. No arco de história “´Fé em Monstros” de Thunderbolts, Moonstone se demonstra uma combinação particularmente eficaz de um Starscream com um conselheiro traiçoeiro – duas coisas que ela sempre foi, na verdade. E aí temos os estranhos casos em que algum chefão do crime ou supervilão decide confiar no Coringa

 

Baxter Stockman, antes de seu longo processo de mutilação e degeneração.
Baxter Stockman, antes de seu longo processo de mutilação e degeneração.

Uma versão particularmente trágica desse arquétipo é a versão de 2003 de Baxter Stockman, de Teenage Mutant Ninja Turtles. Suas tentativas de ascensão à força não apenas terminam em fracasso, mas a cada nova aparição do personagem, mais foi perdido em seu último fracasso. Sua tentativa de esfaquear o governo nas costas e criar um corpo “perfeito” para si mesmo em Insane in the membrane lhe reduziu à um corpo em decomposição e um caso sério de demência (e não foi seu fim).

 

Como outro exemplo vindo de um seriado, e outro exemplo heroico, temos Jayne Cobb, em Firefly. Embora nunca concretize sua ânsia por assumir o poder, Jayne nem tenta ocultar sua intenção de depor Malcolm Reynolds e assumir o comando da Serenity. Nem se acanha em esfaquear seus colegas nas costas para benefício próprio.

 

Em ZZ Gundam temos um caso curioso, de um personagem que progrediu por todos esses tipos – Glemmy Toto. Surgindo como um “vilão da semana”, Glemmy passou a um capanga com segundas intenções, ascendeu a uma posição de poder onde agiu como um conselheiro traiçoeiro, antes de virar um Starscream completo e tentar “reerguer Zeon” – com ele como líder, é claro.

O herói de Canton, o homem a quem chamam de Jayne: nem esconde sua intenção de assumir o comando da Serenity
O herói de Canton, o homem a quem chamam de Jayne: nem esconde sua intenção de assumir o comando da Serenity

 

Transformers sofre de uma quantidade imensa de Starscreams: além do original, temos Scourge (tanto em The Transformers quanto em Robots in Disguise), Terrorsaur e Tarantulas em Beast Wars, Leozack em Victory (que tem seu próprio Starscream na forma de Hellbat). Thrust em Armada, uma ótima combinação entre isso e um capanga com uma agenda em Sentinel Prime (no geralmente pífio Dark of the Moon)

 

Starscreams são personagens interessantes – e dão ótimo material para quadrinhos, desenhos e campanhas de RPG. Dos três tipos, certamente são os menos críveis (embora tenhamos alguns Starscreams de verdade por aí, nossa política que o diga) por raramente terem qualquer ambição além de “estar no topo”. Bem escritos, geram ótimas teias de intriga cujo resultado é imprevisível. Quando mal escritos, muitas vezes são acidentalmente hilários.

 

Vale lembrar aqui que nem todo Starscream (o personagem) é um Starscream (o arquétipo). Enquanto suas versões de G1, Beast Wars II, dos jogos War for Cybertron e Fall of Cybertron e de Animated são exemplos claros do molde (com apenas uma delas sendo competente nisso). A versão cinematográfica é muito mais um puxa-saco; a versão de Armada um “demônio nobre” que debanda por não ter o respeito que merece; em Prime, é mais um conselheiro traiçoeiro à espera da chance de assumir o poder do que um traidor claro. A versão da IDW, após milênios sendo um Starscream, chegou ao poder via política – e nisso conseguiu seu próprio Starscream, Rattrap.

 

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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