The Fixer: um olhar obre a Bósnia e o jornalismo

Faz algum tempo que eu não passo sugestões de leitura, e algum tempo que eu não falo de um dos autores mais interessantes da modernidade, Joe Sacco. Sacco foi um dos (se não O) pioneiros em mesclar o trabalho jornalístico com a arte sequencial. De sua obra mais famosa, Palestina, já falei no Coletivo Metranca (link) . Mas Palestin e sua sucessora espiritual Notas Sobre Gaza não são as únicas obras de Sacco como jornalista de guerra.

“Neven: vivendo de informação em um país em conflito.”

Publicada em 2003 (e nomeada pela Time como um dos melhores quadrinhos daquele ano), The Fixer (“O Mediador, em uma tradução livre) trata da guerra da Bósnia por um ângulo pouco usual. Biografia, reportagem de guerra e pesquisa histórica em partes iguais, a Graphic Novel de Joe Sacco trata de seu retorno à Bósnia em 2001, seis anos após o conflito (1992-1995) e sua reaproximação com Neven – o beberrão e fanfarrão veterano que lhe servira como mediador no último ano da guerra.

Ao mesmo tempo, trata da estranha relação entre o jornalista Malto-americano e o veterano informante durante os anos da guerra. Enquanto outros correspondentes tratam da guerra através de seus próprios olhos, Sacco nos remete à máxima de Hiram Warren Johnson: Na guerra, a primeira vítima é a verdade – mesmo sem interesses políticos velados em sua cobertura. Pois as fontes nem sempre tem a verdade em mente – e nem sempre se lembram das coisas como elas foram.

Nevem tinha mais a oferecer do que seus contatos e sua capacidade de providenciar acesso à linha de frente pelo preço certo: o homem era uma fonte infindável de anedotas, narrativas e e memórias da guerra, contrapostas com relatos divergentes sobre o mesmo evento. Se Sacco, ao fim de sua relação profissional sabia dizer o quanto Neven lhe disse era factual, não importa: para o leitor, o que interessa é a dúvida perene se as histórias contadas pelo mediador são reais, e até se sua própria – e prodigiosa – carreira militar não seria mais um engodo destinado a extorquir dinheiro de jornalistas incautos. Neven é um personagem intrigante, sobre o qual se sabe pouco ao começar a leitura, e ainda menos ao terminá-la.

Sacco novamente demonstra seu talento artístico em The Fixer, seguindo o mesmo estilo visto em Palestina – e que seria o padrão para sua obra. Longe de ser puramente realista, o traço do jornalista-quadrinhista realça as características marcantes de seus personagens sem fazer deles caricaturas óbvias. Mas ao mesmo tempo, Sacco, afastando se de sua própria história, faz de si mesmo uma caricatura ambulante: sem olhos, com lábios exagerados e um nariz descomunal, Sacco é um desenho animado em uma terra de representações levemente simplificadas: ele não pertence realmente à estória que quer contar, e sua arte o distingue dela.

Não sem motivo, a arte nos revela fatos que o texto não conta. À exceção de Neven, poucos personagens no “presente” narrativo, em 2001, tem seus olhos mostrados. A Sarajevo do pós guerra é uma Sarajevo que fecha seus olhos para o passado, que finge não ver os horrores do passado – em contraste, Neven, o homem que viveu das histórias da guerra e agora sofre na miséria com o fim de seu comércio de informações, recusa-se a fechar seus olhos para o passado.

Complementando o que nos é dito em cada anedota contada por Neven – de seus feitos heroicos, das batalhas durante a guerra, da política entre as diferentes milícias de Sarajevo – temos o extenso trabalho de pesquisa de Sacco sobre algumas das figuras notáveis do caótico conflito que consumiu o país por quatro anos.

Alguns quadrinhos são recomendados por seu caráter como literatura. Outros por sua arte. The Fixer, como todo o trabalho de Sacco, é recomendável por outro motivo: Joe Sacco nos dá uma verdadeira aula sobre uma das guerras de mais difícil compreensão do final do século passado, ao mesmo tempo nos oferecendo uma visão singular sobre o trabalho jornalístico e a relação tão importante – mas tão perigosa, em múltiplos sentidos – com suas fontes.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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