Socando o Führer na cara com o Capitão América

782797Recentemente vi um descalabro sem igual ser proferido no facebook: a afirmação de que, por definição, toda e qualquer imagem de Adolph Hitler se configurava em uma “piada com o sofrimento do povo judeu, pois este foi o responsável pelo Holocausto. Bem, claro que havia aí uma falha gravíssima de lógica, onde a ideia de sátira ou de uso crítico da imagem inexiste.

E essa afirmação ilógica me lembrou de como o uso crítico da imagem do führer marcou a estreia de um dos maiores clássicos das HQs – personagem este marcado desde o início por um uso magistral de simbolismo e da iconografia clássica, americana. E – sim! – até mesmo da nazista para passar sua mensagem. Estou falando, é claro, do Capitão América e sua celebre capa número 1, onde o herói aparece desferindo um murro no queixo de Adolph Hitler.

 

O herói patriótico

Criado pelos judeus Jacob Kurtzberg (a.k.a Jack Kirby) e Himye Simon (Joe Simon) para a Timely Comics em 1940, ou seja, antes dos EUA entrarem de fato na Segunda Guerra Mundial, o “Sentinela da Liberdade” era parte da febre super heróica iniciada pelo Super Homem, em 1937. Simon chegou a temer que o personagem fosse um fracasso a princípio, antes de mudar o nome de “Super American” para Captain America.

Dizia Simon que o problema era o “super”: haviam super-qualquer coisa demais. Mas poucos capitães – o único outro de destaque até então era o Capitão Marvel.

Não, não funcionava. Haviam “supers” demais por aí. “Capitão América” tinha uma boa sonoridade. Não tinha muitos capitães nos quadrinhos. Foi fácil assim. O menino companheiro foi simplesmente chamado Bucky, em homenagem ao meu amigo Bucky Pierson, um astro do nosso time de basquete do ensino médio”.

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O primeiro super patriota: O Escudo.

captain-coverNão foi, contudo, o primeiro herói “patriótico” dos quadrinhos americanos. Esse título pertence ao Escudo, da Archie Comics (e a pedido do criador dele, Irv Novick, Simon e Kirby mudaram o escudo do Capitão para o hoje icônico escudo circular). O Capitão chegou as bancas de maneira estrondosa, um ano antes de Pearl Harbor e dos EUA entrarem na guerra contra o eixo, em dezembro de 1940. O herói, trajado nas cores da bandeira americana, chegava às bancas DESFERINDO UM MURRO NA CARA DO FÜHRER. A capa resultou em várias cartas de ameaças e em um grupo de nazistas indo até a sede da Timely para “dar uma surra” em Kirby e Simon, sendo que o grupo se dispersou pouco depois de saber que Kirby estava descendo.  

O Capitão América marcava uma nova era nos quadrinhos de super heróis. Enquanto seu antecessor aparecia nas capas esmurrando robôs, o Capitão estava lá enfrentando nazistas e fascistas. No seu rastro, brotavam numerosos heróis patrióticos (incluindo, ironicamente, o Super Americano, da Fiction House), muitos deles plágios descarados do Capitão. Em sua grande maioria, as histórias desses heróis – incluindo o próprio capitão – pouco diferenciavam do resto (e o Capitão teve um vilão que era um serial killer que tinha capangas… Porque vilões tem capangas).

Na sua origem editorial em si, o Capitão já era marcado por um grau peculiar de audácia, assim por dizer. Ao contrário do que possa parecer, em 1940 não havia grande suporte público pelo envolvimento dos EUA na Segunda Guerra Mundial, vista até então como um conflito europeu.  Até 1938, não apenas havia pouco suporte por uma oposição armada aos alemães (o Reino Unido mantinha a política de apaziguamento), como 85% dos americanos eram contra receberem os judeus exilados dos territórios ocupados. No mesmo ano que o Capitão golpeava o Fuhrer, o Comitê pela América em Primeiro Lugar (AFC), o maior grupo isolacionista, contava então com espantosos 800 mil membros.

Mais significativamente, com a entrada dos EUA na guerra oficialmente, no final de 1942,  também entravam nela os super heróis. De figuras de entretenimento, os heróis multicoloridos se convertiam em ícones de propaganda. Da venda de “títulos de guerra” a coleta de sucata, não havia um ramo do chamado “serviço patriótico” que não fosse avidamente propagandeado pelos “outros homens de uniforme” – e obviamente, o Capitão fazia parte desse esforço.

No entanto, o patriotismo não era o ponto mais relevante do Capitão, e sim como tudo nele fora cuidadosamente planejado para ser um imenso “dedo do meio” para os nazistas.

 

Steve Rogers – o ideal americano

Comecemos pelo seu alter ego, Steve Rogers – o representante perfeito do ideal americano. E, por ideal americano, não digo o vindo do ufanismo tolo e exarcebado dos patriotas. Rogers,  o rapaz franzino (mais tarde revelado como sendo de Lower East Side) filho de imigrantes. Marcado não pelo desejo de violência, mas pela “ira justa” de quem impede um valentão  personificava aquilo que Kirby e Simon viam como louvável nos EUA – e não havia “valentão” maior  que Hitler.

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De rapaz doente e franzino…

O “sonho americano” era, por definição, um sonho de imigrantes. A ideia de um “americano puro” era demasiadamente similar ao ideário nazista. Quando a família do Capitão era mencionada, duas coisas foram mantidas constantes ao longo de seus 74 anos de publicação: Seus pais eram imigrantes irlandeses e eles faleceram vítima de algo que não pode ser resolvido socando alguém na cara (sua mãe faleceu de pneumonia, e seu pai em um acidente de trabalho). Um estudante de artes visuais, ele larga os estudos por dois motivos: não pode pagar, e “a guerra não é tempo para artes” (ironicamente, justamente por ser artista, Kirby foi convocado para o serviço militar como batedor).

Da mesma maneira, como guardião e símbolo do “sonho americano”, ou do que esse sonho deveria ser na visão de seus autores, o Capitão América não poderia ser um personagem agressivo. A personalidade do Capitão, desde seu ponto zero, é muito bem resumida em uma única linha de sua adaptação cinematográfica: “Eu não quero matar ninguém, eu só não gosto de valentões, não importa o lado”. Isso é feito manifesto na escolha da “arma” do herói: um escudo. Uma condenação imediata do imperialismo germânico e que depois se converteu em crítica ao imperialismo americano.

Rogers é um artista, um new deal democrat, um humanista e um ícone de tolerância. A de que o Capitão América seja um nacionalista conservador ao estilo republicano não apenas é errada: é também insana (como é demonstrado atualmente com o fascismo de Sam Wilson após a inversão, em Axis). No entanto, o ponto maior do simbolismo por trás de Rogers vêm em sua transformação em um super soldado…

 

Do rapaz franzino ao übermensch nazista

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… à übermensch ariano.

O rapaz franzino (que os leitores de 1940 viram por apenas 2 páginas) que Rogers era, marcado por asma e raquitismo, é precisamente o tipo de pessoa que os nazistas condenariam a morte, como “degenerados”. Mesmo nos “iluminados” EUA, estavam fadados a sofrerem com pouco acesso ao mercado de trabalho, e jamais seriam aceitos no serviço militar. Rogers era, portanto, o exemplo perfeito do que os nazistas chamariam de untermensch (sub humano).

E quando ele passa pelo tratamento com o soro do super soldado do professor Abraham Erskine, Rogers muda desse untermensch para a perfeita definição do übermensch nazista: mais forte, mais saudável e mais inteligente que os homens normais jamais sonharam em ser. Um adonis de olhos azuis e cabelos loiros. O perfeito super homem ariano – e que despreza completamente toda a ideologia nazista, assim como qualquer forma de discriminação. (Como já demonstrei em um artigo anterior, sobre seu amigo homossexual, Arnie Roth).

Eis aí a genialidade por trás do Capitão América: Kirby e Simon pegaram todo simbolismo, e o ideário nazista, e usaram essa mentalidade nojenta e repulsiva para criar um dos personagens mais virtuosos da história dos quadrinhos. O Capitão América representa tudo aquilo que o nazismo não é: a inversão de todo aquele horror, e toda aquela insanidade. Não poderia ter maneira melhor de estrear que socando Hitler. E para quem crê que o Capitão seja um caso de “America, right or wrong”, deixo os com um discurso:

Ouçam a mim – todos vocês! Lhes foi dito por esse homem – o seu herói -que a America é o melhor país do mundo! Ele lhes disse que os americano seram o melhor dos povos – que a America podia ser refinada como prata,podia ter suas impurezas marteladas para fora, e brilhar mais forte! Ele discursou sobre como a America era preciosa – como vocês tinham que garantir que ela continuasse grande! E ele lhes disse que qualquer coisa era justificada para preservar aquele grande tesouro, aquela pérola valiosa que é a America! Bem, eu lhes digo que a America é nada!! Sem seus ideais – seu comprometimento com a liberdade de todos os homens, a America é um pedaço de lixo! Uma nação não é nada! A bandeira não passa de um pedaço de pano! Eu lutei contra Adolf Hitler não porque a America era grande, mas porque era frágil! Eu sabia que a liberdade aqui poderia ser apagada tão facilmente quanto na Alemanha nazista! Como pessoas, não éramos diferente deles! Aí eu retornei, e vi que vocês quase tornaram a América em um nada! E a única razão que vocês não são menos do que nada – é porque ainda é possível para vocês devolveram a liberdade para a América! (What If?, #44, 1984)

Horrível demais até para o Coringa, eis o Caveira Vermelha.
Horrível demais até para o Coringa, eis o Caveira Vermelha.

Enquanto isso, o ideário nazista em sua totalidade foi usado para criar um dos mais formidáveis e repulsivos vilões das HQs, Johann Schmidt, o Caveira Vermelha (o segundo Caveira, na verdade – o primeiro, George Maxon, era um agente de Schmidt). Sobre ele, outro texto, outro dia. Mas já adianto um ponto simbólico de genialidade: Johann Schmidt é a forma germânica de “John Smith” (equivalente aqui a João da Silva, um nome comum e ordinário). Ou uma forma de dizer que o caveira é “um cara qualquer”. E, ironicamente, antes de virar o Massacre Vermelho, o Caveira passou um bom tempo personificando o que há de podre nos EUA.

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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