Sobre os diálogos necessários no Plano Municipal de Educação e na vida

Sou muito emotiva e estou longe.

Longe para expressar o quanto é difícil ler algumas notícias sobre a cidade que nasci.

É triste falar com pessoas que passei anos da minha vida e saber que provavelmente elas não mais me aceitarão por minha posição política, por minha visão de mundo, por minhas escolhas, por tudo que acredito e defendo.

Cresci em um bairro considerado podre nessa cidade, podre com relação a bens materiais, pois tive uma educação riquíssima, pais, professores, uma escola municipal que por muito tempo foi referência na cidade.

Recordo das atividades extra classe, balé, patrulha do verde, teatro, judô.  As campanhas de vacinação, de educação.

Nunca me esquecerei da campanha para saber quantos analfabetos existiam no bairro e realizar um projeto com esses potenciais alunos. Visitei casas tão simples, conheci uma realidade que me fez crescer tanto e valorizar cada livro que poderia ler.

Cresci acreditando nas pessoas pela educação que tive, meus pais sempre atentos e me esclarecendo sobre assuntos como drogas, identidade de gênero, feminismo, religião preconceito, política e tudo de uma maneira inacreditavelmente simples.

– Mãe acho que minha amiga gosta de meninas e gosta de mim mais do que de outras amigas, penso que ela quer algo como namorar comigo.

– Isso acontece filha algumas meninas vão gostar de meninas e meninos, outras de meninas apenas e outras apenas de meninos. E você gosta dela da mesma forma?

– Não.

– Então explica isso para ela e pronto, vai ficar tudo bem. Ela pode ficar triste, mas se você não sente o mesmo por ela não há o que fazer. Mas sempre trate ela bem. Existem pessoas que não vão entender sua amiga e ela pode ficar muitas vezes se sentindo muito triste.

Assim seguiam diálogos, sobre os amigos que usavam drogas, sobre o fato não seguir a tradição católica da minha família, sobre tantas coisas…

– Sua filha não está fazendo primeira comunhão?

– Não.

– Por quê?

– Porque ela não quer.

– Sua filha vai viajar sozinha?

– Sim.

– Com o namorado?

– Sim.

– Você deixa?

– Sim, ela já tem 17 anos.

– Sua filha vai morar no Rio de Janeiro?

– Sim.

– Você não prefere que ela fique perto de você?

– Ela já mora sozinha em outra cidade há 3 anos.

– Pai posso fazer uma tatuagem?

– Sim quero fazer uma também, vamos juntos.

– Mãe o que você pensa sobre eu me casar?

– Penso que antes você deve ser independente, depois pensar nisso, mas a decisão é sua. Se você tem dúvida é porque não deve tomar essa decisão agora.

Esses relatos de diálogos podem parecer normais para muitas pessoas, mas posso afirmar que a educação que tive foi totalmente diferente da maioria dos meus amigos, das pessoas da mesma idade que nasceram nessa cidade.

Devido essa educação tive alguns problemas para me adaptar, para fazer amigos, para viver nessa cidade.

Acredito nas pessoas, acredito que o Plano Municipal de Educação, não vai impedir que a real educação seja realizada, temos outras formar de educar, temos a arte, fazer teatro desde os 10 anos sempre foi maravilhoso, ter um pai desenhando e pintando quadros foi importante (confesso que meu sonho era ter uma casa sem tantos pinceis e tintas jogados) mas a minha casa era a mais legal do bairro. Hoje eu entendo o valor daquelas cores, dos livros, dos quadros pela casa.

Ter pais e professores que me ensinaram a tomar decisões, a refletir, a pensar, a criar.

No meu tempo de escola, tínhamos que rezar antes da aula, eu não sabia as orações, nunca acertava o sinal da cruz, resolvi não fazer mais, não tentava rezar, nem imitar os outros. Essa decisão foi inacreditavelmente libertadora.

Lembro com orgulho que minha primeira ação contra o sistema escolar, foi com 6 anos, levar meus carrinhos para o dia do brinquedo. Minhas bonecas eram feias, eu gostava mesmo da coleção de carrinhos. Fui feliz para a aula, voltei chorando, riram de mim, fizeram piadas, mas eu sobrevivi!

Se esses debates, naturais na minha família, fossem realizados também na escola eu e muitos amigos não teríamos sofrido preconceito. Seríamos vistos como crianças e adolescentes normais. E a sensação que eu tinha de não pertencer a cidade que amava, talvez nunca tivesse existido.

Acredito na educação, acredito no amor, acredito em Joinville.

PME

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