Sobre grades e Rock In Rio

Fui pela primeira vez ao Rock In Rio e poderia descrever aqui inúmeras percepções sobre a viagem ou sobre os próprios shows, mas vou me dedicar apenas a contar uma cena que presenciei e que ainda me fará refletir por muito tempo sobre este e outros eventos do mesmo porte.

Estávamos parados na frente de um comércio de telhas (este da foto de capa, apesar da imagem ser antiga e do Google Street View), antes de entrar no Rock In Rio. Já era noite e a loja estava fechando. Alguns funcionários trancaram o estabelecimento e foram embora. Dentro do terreno ficou apenas um pai e uma filha, que passaram a trazer alguns isopores para perto da grade que dividia o terreno da rua.

Aparentemente, o homem era funcionário da fábrica, deveria ter uns 60 anos, bem magro, pele morena, cabelos grisalhos, com uma aparência de quem trabalha muito debaixo do sol. Ele passou a aproveitar o movimento da rua para ganhar um dinheirinho extra, vendendo refrigerante, cerveja e água.  Pai e filha dialogaram de uma maneira bem humilde, assim como as roupas que vestiam.

Pouco tempo depois de esticarem um barbante com latinhas penduradas pelo lado de fora da grade, chegaram dois clientes: um homem e um menino, ambos brancos, bem trajados e prontos para aproveitar o festival. O homem deveria ter uns 40 anos e o menino uns 8, assim como garota que os atendeu através da grade. O homem queria uma cerveja. Ela entregou a bebida, mas parece ter se atrapalhado um pouquinho com o troco. Ele fez cara de descontente e explicou quanto ela deveria devolver. Depois de acertar as moedas, ela voltou a se sentar em uma cadeirinha de madeira, a espera dos próximos clientes e isolada do público que estava na rua, a caminho do festival.

Bom, a cena por si já dizia muita coisa para mim. Havia ali uma grade que dividia estas duas classes. Fotograficamente, pai e filha estavam presos ao trabalho extra, enquanto a polícia e a guarda municipal faziam a segurança do público que adentrava ao evento.   Então, neste momento, o homem e o filho passaram por nós. “Pai, preciso de um Iphone 5”, disse o menino.

Por alguns minutos me senti completamente inútil por estar ali, participando da cena, pois neste momento eu não era um jornalista, eu era o público. Assim como o menino que queria o Iphone, eu também estava desfrutando de inúmeros privilégios do lado de fora da grade, do lado de fora daquela realidade vivida pelo pai e filha que trabalhariam noite adentro para ganhar uma renda extra.

É este tipo de cena, dificilmente retratada em uma mídia que prioriza o entretenimento, que nos faz desconstruir percepções que temos sobre eventos deste porte e sobre nós mesmos. Claro, podemos debater números, podemos tratar dos empregos gerados, da mesma forma como podemos falar das denúncias do MTE sobre “trabalho análogo à escravidão” dentro do Rock In Rio.  Podemos falar de tantas coisas que não estão diretamente relacionadas à música…

Este é um assunto que renderia muitos textos, mas no momento eu ainda estou refletindo sobre minha posição no meio de tudo isso e tem muitas leituras que movimentos da cidade indicam ou compartilham que estão me ajudando nisso. Obviamente existem diversas classes que frequentam eventos como este e “consumir” arte tem seus desdobramentos positivos e negativos, mas eu estive ali, de alguma forma ao lado da classe opressora e privilegiada. E é a partir dai que eu acho que preciso me localizar.

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Sobre Marcus Carvalheiro 149 Artigos
Jornalista, músico e mestrando em patrimônio cultural e sociedade

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