Relembrando ROM, O cavaleiro do espaço

Rom # 1
O modus operandi de Rom: atire primeiro, e o que sobrar não é um espectro

Rom, Senhor da ordem da estrela Sol.

Rom, o exterminador de Espectros.

Rom, o Cavaleiro do Espaço.

 

Parece-me que um certo personagem relativamente obscuro dos quadrinhos dos anos 80 está em alta… Com um título novo resetando sua narrativa e a possibilidade de uma aparição no cinema, Rom, o Cavaleiro do Espaço é uma das jóias perdidas da era de bronze da Marvel. Sua influência no universo da Casa das Ideias é sentida até hoje – mas o herói metálico desapareceu por completo das páginas dos quadrinhos.

 

Mas afinal, quem é Rom? Quem é este ciborgue misterioso em sua cruzada eterna contra os espectros da nebulosa sombria? Quem é o maior dos cavaleiros do espaço? E afinal, por que ele desapareceu dos quadrinhos por quase 30 anos, apenas para voltar em outra editora?

 

O boneco

 

Rom action figure
Não, não era um boneco muito bom.

Como muitos quadrinhos dos anos 80, Rom era fruto de licenciamento de uma empresa de brinquedos. Criado por Scott Dankman, Richard C. Levy, e Bryan L. McCoy na Parker Brothers em 1979, Rom era um dos muitos brinquedos de seu tempo que tentava lucrar em cima da febre espacial criada por Star Wars. Era uma figura simples: apenas 4 pontos de articulação, luzes e sons eletrônicos e um pequeno conjunto de acessórios: um analisador, um “neutralizador”, um tradutor universal e uma mochila respiradora.

 

O boneco foi universalmente criticado, merecendo um artigo nada lisonjeiro na revista Time. Para a famosa revista, o boneco era um “homúnculo” que “deveria ser capaz de usar seus braços e pernas como um robô de verdade”, mas não podia, e cujos efeitos sonoros eram decepcionantes.

 

Seus inimigos se resumiam a uma linha no texto da caixa, mencionando que o analisador podia revelar os temíveis espectros infiltrados em outros mundos. Era uma linha de uma figura só, lançada por uma empresa sem experiência em action figures, e que rapidamente fracassou: ao todo, entre 200 e 300 mil cópias do boneco foram vendidas.

 

Por pouco o herói cibernético não se chamou Cobol. Onde o boneco fracassou, no entanto, nascia uma lenda nos quadrinhos. Para promover o boneco desengonçado, a Parker Brothers recorreu a Marvel – que sabia ter um grande desafio a frente. O material oferecido era parco: um parágrafo de texto na caixa e um comercial vago. Não muito com que se trabalhar… Salvar essa pilha de sucata coube  Bill Mantlo e o desenhista Sal Buscema – que conseguiu traduzir o visual desengonçado do boneco em algo que parecia legal mas parecia com o boneco tosco ao mesmo tempo.  

 

Entra Bill Mantlo

 

Rom #1 cover
Surge uma lenda

Em 2014, o roteirista da image Eric Stephenson afirmou que quadrinhos licenciados “jamais teriam a qualidade de quadrinhos ‘de verdade’”. Embora muito do material licenciado de filmes, brinquedos e jogos sofra com autores desinteressados, descaso editorial e – é claro – a possibilidade da licença ser perdida, Rom prova que o comentário foi no mínimo mal informado (e como meus artigos sobre o trabalho da iDW com Transformers demonstram, é ainda menos válido hoje).

 

Mantlo não era parte da lista A da Marvel. Muito pelo contrário, à época do licenciamento com a Parker Brothers, o criador de Rocket Racoon era o “rei da reserva” da editora, responsável por criar as tramas que iriam para as páginas caso os roteiristas titulares não terminassem à tempo, de maneira similar a outro autor de quadrinhos de brinquedos, Simon Furman.

 

Suas experiências com quadrinhos de super-heróis não eram muito bem sucedidas. A série Champions era um mish-mash de personagens sem uma boa argumentação de porque aqueles personagens (Hercules, Viúva Negra, Motoqueiro Fantasma, Anjo, Homem de Gelo e Estrela Negra) faziam sentido juntos. Suas histórias para outros personagens eram previsíveis, como de costume para roteiros reserva. Mas com Rom, Mantlo teve a chance de se destacar.

 

Enquanto outros quadrinhos eram primariamente histórias episódicas intercaladas com arcos de história de múltiplas edições, Rom era diferente. Ciente de que a licença não duraria para sempre, Mantlo criou um único e longo arco de história para Rom. Suas 75 edições cobriam do início da guerra contra os espectros até a retomada desta mesma humanidade após o fim da guerra.

 

Sem um elenco de apoio ou sequer um passado detalhado para seu protagonista, Mantlo essencialmente teve que criar as coisas do zero. Mais do que um comercial glorificado, seu Rom: Spaceknight era um épico de ficção científica, cobrindo 200 anos de história e uma missão de “vingança” sem fim para recuperar sua humanidade perdida, ao mesmo tempo em que Rom lutava contra tentação de matar os espectros.   

Rom #36
Brandy encontra o fantasma de Starshine e recebe seus poderes. (Rom #36)

 

O distante e pacífico planeta Galador está em guerra contra os Espectros da Nebulosa Sombria. Sem naves de guerra para lutar contra seus terríveis algozes, o Primeiro Diretor de Galador clama por voluntários para serem convertidos em “Cavaleiros do Espaço” para proteger o seu mundo. Rom é o primeiro a se voluntariar, seu sacrifício inspirando outros 1000 galadoranos a passarem pelo mesmo. As partes retiradas para que pudessem virar cavaleiros do espaço – suas “humanidades” – são preservadas para que ao fim da guerra possam retomar seus corpos. Como o primeiro e maior dos cavaleiros, Rom é agraciado com a maior de todas as armas de galador: o Neutralizador, capaz de enviar os espectros para a dimensão vazia do Limbo.

 

Ao fim da guerra, com Galador novamente segura e a armada dos Espectros em ruínas, Rom segue as naves em fuga até seu mundo natal – Wraithworld, em órbita de um sol negro – para desferir um golpe final contra os invasores. Enganado pelas feitiçarias dos Espectros, Rom deixa eles fugirem, e se sentido culpado por dispersar o mal dos Espectros pelo universo, jura não retomar sua humanidade até que todos os espectros tenham sido banidos para sempre.

 

Rom #12
O comercial esqueceu de “Rom, interruptor de casamentos”.

Rom é um dos raros casos de heróis do universo Marvel que merecem o temor da população. Sua introdução em Rom #1, aterrissando na cidadezinha de Clairton, deixa claro seu M.O. : entrar em cena, analisar todos os presentes, e banir quaisquer espectros na área. Sem explicar nada. Para as testemunhas, parece apenas que um robô do espaço desintegrou pessoas inocentes. À moda de outros quadrinhos, Rom tinha uma pessoa que confiava nele – a jovem Brandy Clark – que lentamente se apaixona pelo misterioso ciborgue..

 

Rom contava com um extenso elenco de apoio, quase todos criados por Mantlo, dado que a “linha” era composta por um único boneco. Além de Brandy, havia o namorado dela, Steve Jackson; o super-herói Torpedo (Brock Jones, que migrara de Demolidor); Os cavaleiros do espaço, dos quais se destacavam  Terminator e Starshine – que como Brandy, amava Rom. Após a morte de Starshine, sua armadura foi fundida à Brandy pelo Espectro  Doctor Dredd.

 

Seus vilões também eram criações do Mantlo. Além dos Espectros “genéricos” havia o monstruoso Híbrido, fruto do cruzamento de um espectro e uma humana; a fusão humano-caveleiro do espaço Firefall; o ditatorial Mentus, uma armadura galadorana controlada “pelo lado sombrio da mente do primeiro diretor”; Dominor, o “líder” da segunda geração de cavaleiros do espaço e o corrupto cavaleiro do espaço Raak.

 

A narrativa de Rom se centrava em três grandes temas: a ameaça invísivel dos Espectros e a paranoia resultante; a perda de humanidade dos cavaleiros do espaço e a ânsia de Rom por recuperar o que perdera – particularmente no arco de história envolvendo o computador Quasimodo (criação antiga de um vilão da Marvel, o Pensador Louco), o clone de Rom e a degeneração do “novo” corpo do herói; e por último, o impacto da guerra secreta de Rom nas vidas ao seu redor. Entre os eventos no presente, edições nos mostravam o passado de Rom e suas interações com outros cavaleiros ao longo dos séculos.

 

 

Continuidade compartilhada e o clímax da história de ROM O cavaleiro do espaço

 

Rom Hybrid
Híbrido, o monstruoso cruzamento de uma humana com um espectro

Diferente de outros quadrinhos licenciados da época, Rom não era parte de sua micro-continuidade. Estava diretamente inserido no universo Marvel, e teve impactos duradouros nele. Ao longo de suas 75 edições, o herói contracenou com o Hulk, O Quarteto Fantástico, Os X-Men, Galactus (para o qual serviu como arauto), A irmandade dos mutantes, o Império Shi’ar e vários outros super seres da Marvel. Também quase fez parte do Desafio dos Campeões e encontrou Ego, o Planeta Vivo.

 

Parte destes encontros se aproveitavam da mentalidade “neutralize primeiro, fale depois” do herói para gerar tensão – como o primeiro combate do herói contra o mutante Híbrido, fruto do cruzamento de um Espectro com uma humana.

 

Elementos de ROM foram diretamente relacionados à elementos preexistentes do universo Marvel. Outros elementos afetaram diretamente outras revistas. Em uma reviravolta chocante, os Espectros foram revelados como sendo aparentados dos Skrulls (que anos mais tarde travariam a mesma guerra secreta contra a humanidade). Parte da mudança para o bem da Vampira, por sua vez, começou quando ela tentou sugar a energia de Rom, apenas para copiar sua empatia e sua virtude.

 

Rom #47
As fêmeas dos espectros tomam o lugar dos residentes de Clairton – Rom #47

A série contava com uma sensação de ameaça crescente que culmina em Rom #45. Após numerosas tentativas de derrotar Rom fracassarem, incluindo a derrota do monstruoso Residente do Limiar, as fêmeas dos Espectros exterminam todos os homens da espécie e assumem o controle dos esforços de guerra na Terra. No lugar da tecnologia, entra a feitiçaria…

 

E uma ofensiva muito mais intensa. O ataque das fêmeas começa com a substituição da maioria dos moradores de Clairton, os pais de Brandy/Starshine e o herói Torpedo. O funeral das vítimas do massacre de Clairton é o que serve para transformar a guerra solitária de Rom em uma guerra global, envolvendo a S.H.I.E.L.D e quase todos os heróis da Terra. Mantlo consegue mostrar bem a violência da guerra que tomou o mundo, usando tudo que os espectros usaram até este ponto – pragas, espiões, feitiçaria, monstros…. Simultaneamente, os maiores heróis da Terra estavam envolvidos na primeira Guerra Secreta – o que justifica a ausência dos pesos pesados no combate aos espectros.

 

O conflito com os Espectros chega ao seu fim em Rom #65, que faz o clímax de um quadrinho de evento melhor do que a maioria dos quadrinhos de evento. Em uma jogada desesperada para vencer a guerra, os Espectros tentam fundir seu planeta natal com a Terra, e a única esperança é um neutralizador gigante capaz de banir os espectros de uma vez por todas. Paralizado pelos Espectros na hora H, Rom é salvo graças a ajuda do “coadjuvante profissional” Rick Jones, que convocou todos os heróis da Terra.  

 

ROM #65
Arte de Steve Ditko.

Os heróis da Terra nunca entregariam seu mundo sem luta!

 

Após a derrocada dos Espectros temos ainda algumas histórias isoladas e mais um arco de história. Retornando ao seu mundo natal de Galador agora que a guerra finalmente acabou, Rom descobre seu mundo destruído pela segunda geração de Cavaleiros do Espaço, corrompidos por seu poder e a falta de um inimigo para enfrentar. Enquanto isso, Brandy é enviada para Galador pelos poderes do Beyonder.

Rom #75
Rom e Brandy se dão conta que a humanidade de Rom não está perdida

 

O clímax de Rom: Spaceknight vê Rom derrotando os corruptos cavaleiros de segunda geração com a ajuda dos cavaleiros originais. Descobrindo que suas partes humanas ainda sobreviviam dentro da antiga armadura de Terminator, a história termina com Rom recuperando sua humanidade e repopulando Galador junto com Brandy. Finalmente, Rom podia parar de lutar.

 

Perdem-se os direitos: Spaceknights sem Rom

 

Spaceknights
Spaceknights: tentando continuar Rom… sem rom

Em 1987, A Parker Brothers foi comprada por uma gigante do ramo dos brinquedos: a Hasbro, que não renovou a licença do personagem – fora de fabricação há sete anos. Com esse revés, a Marvel se viu diante de um dilema bizaro: tudo que Mantlo e Buscema criaram para o título pertencia a Marvel, exceto a forma cibernética de Rom e o nome Rom.

 

Em termos do personagem em si, isso era um inconveniente menor: a história de Rom tinha acabado, e fazer com que ele voltasse à ser um ciborgue seria um desrespeito à sua conclusão. O problema maior era com a republicação de histórias: não apenas as 75 edições (mais três anuais) de Rom não podiam ser reimpressas, mas as edições de outras revistas onde ele aparecia também estavam fora de cogitação. O resultado eram eventos sem causa, mudanças sem motivação e vilões sem origem – Rom virava um gigantesco buraco narrativo na Marvel.

 

Ikon Marvel
Ikon: uma Rom de pobre

Em sua forma humana, Rom (sem que seu nome fosse mencionado) deu as caras algumas vezes, mais notavelmente no casamento de Rick Jones (Incredible Hulk #418). Em 2000, Rom: Spaceknight ganhou uma tentativa de continuação na forma de Spaceknights, de Jim Starlin e Chris Batista. Com seis edições, a série focava nos filhos de Rom (agora Artour) e Brandy, Balin e Tristan. Os cavaleiros de terceira geração voltariam em Annihilation, junto com Ikon – uma clara tentativa de criar um “Rom feminino” para usar o personagem-sem-realmente-usar-o-personagem.

 

A editora tentou algumas vezes reaver os direitos, sem sucesso. Não apenas não interessava à Hasbro a publicação de um quadrinho de um boneco que não mais existe, como haviam outras pendengas a resolver entre ela e a Marvel, envolvendo outro personagem: o “agende de pacificação” Death’s Head. Em 2015, a Hasbro decidiu reviver Rom…

 

 

ROM O cavaleiro do espaço hoje

 

…Em outra editora. Em 2015, a Hasbro renovou a marca Rom e registrou outra marca: Dire Wraiths, os vilões de Rom. Os registros foram para brinquedos, quadrinhos e filmes/desenhos animados. Subitamente, Rom passou de ser “o problema incomodo” para ser parte do grande projeto da Paramount e da Hasbro para os cinemas – e com isso foi revivido nos quadrinhos.

MLP Rom cover
A volta de Rom na IDW rendeu várias capas promocionais… a mais inesperada delas em My Little Pony.

 

Para os cinemas, Rom é parte do “universo cinematográfico da Hasbro”, junto com Visionários, M.A.S.K., Micronautas, G.I. Joe e Transformers. Boatos alegam que Rom talvez dê as caras em Transformers: O último cavaleiro, mas não há nada confirmado ainda. Enquanto isso, James Gunn gostaria de poder usar Rom em Guardiões da Galáxia, mas infelizmente, não deu.

 

Rom #0
Retornando com tudo.

Mas e quanto a esse papo de “outra editora”? Em dezembro passado, a IDW anunciou uma nova série de Rom: Spaceknight, de Chris Ryall e Christos Gage, e arte de David Messina. Em maio deste ano, no Free Comic Book Day, foi lançado o #0 da revista, uma edição de 12 páginas que narra a chegada de Rom à Terra e um combate com os Espectros. Rom fará parte do mega-evento da editora (o primeiro!) Revolution, juntando a continuidade de Transformers com a de G.I. Joe e das outras linhas de ficção científica da Hasbro. 

 

Essa primeira edição serviu para mostrar os poderes do personagem, o novo design de tudo e estabelecer que a trama é basicamente a mesma: Rom chega a Terra atrás dos Espectros, e assim começa uma guerra secreta entre o cavaleiro (que atira primeiro e explica depois) e os Espectros. A arte de Messina não serve bem para o tom, no entanto, e o visual mais “agressivo” dos Espectros não convence. A narrativa é bem travada, e resta saber se isso é problema do #0 ou se vai ser assim pelo quadrinho todo.

Rom #0 Dire Wraith
O novo design dos espectros…

 

Uma coisa não há dúvida: o “novo” Rom deve muito mais a Bill Mantlo do que ao boneco desengonçado da Parker Brothers. Galador, Clairton, a Nebulosa Sombria – tudo isso pode ter desaparecido. Mas é clara a tentativa de homenagear o trabalho do desafortunado Mantlo, que sofreu lesões cerebrais graves após ser atropelado em 1992.

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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