Perdemos

Perdemos

Perdemos. Perdemos em todos os sentidos. Já faz algum tempo que eu quero publicar  um texto sobre isso, mas os compromissos da vida adulta dificultam a nossa escrita. Na verdade, mais do que escrever, hoje em dia nos falta preparo psicológico para lidar com os desdobramentos virtuais de qualquer palavra jornada na Internet. Lá nos anos 90 descobrimos a Internet. Foram-nos apresentados os e-mails e aprendemos o básico da programação, mas não nos avisaram que deveríamos nos preparar psicologicamente para nos inserirmos neste novo ambiente. Mesmo assim, vou tentar nesta coluna pessoal expor um pouco dos meus sentimentos em relação à falta de expectativa que me assola.

Fazem algumas semanas que tento publicar este texto, mas justamente pelo caos diário que nos é apresentado, eu estava evitando escrever, pois não queria que estas ideias fossem associadas à questões diretamente políticas, como as derrotas do Lula ou os movimentos “Fora Temer”, ou questões de saúde/sentimentais, como os recentes debates sobre depressão. Entretanto, também não há como desvencilhar  estes acontecimentos do que tenho refletido.

Enfim, o que quero dizer é que perdemos, não temos como alcançar um mundo melhor, em todos os sentidos.  Não sei como escrever isso de uma forma que não seja alarmista. Não quero que interpretem este texto como um mero manifesto niilista, mas eu realmente tenho procurado por números e pesquisas que apontem saídas para a nossa sociedade e eu não encontro. É sério, não foi uma nem duas vezes que procurei em livros e até no Google por dados e teorias que evidenciem um futuro positivo para nós. Estou falando não só a nível municipal, mas a nível global mesmo. Nossas aflições diárias parecerem estar intimamente ligadas às previsões de Hawking.

Vou tentar explicar um pouco do que eu penso.

Gostaria de começar dizendo que sou uma pessoa extremamente leiga em muitos assuntos, então a escolha de continuar lendo ou não este texto é sua. O fato é que usamos algumas experiências pessoas para tentar dar sentido ao mundo que está ao nosso redor.

Vou começar pela política, que é um assunto que durante muito tempo fez parte da minha realidade. Perdemos na política. Sim, aos que se consideram progressistas resta admitir a derrota. Perdemos, ponto. Perdemos não só no momento em que o conservadorismo tomou conta do pensamento das massas, isso faz parte de movimentos políticos que variam de acordo com uma séria de fatores. Perdemos inicialmente para nós mesmos. Acho que o sociólogo Flávio Pierucci acertou em cheio ao nos alertar lá nos anos 90 sobre as Ciladas da Diferença. A ala progressista da nossa sociedade iniciou sua derrota quando esqueceu das coisas que nos igualam para focar suas lutas apenas nos desejos individuais das importantes pautas ideológicas que rondam os movimentos de esquerda. É obvio que existem inúmeras pautas importantes que merecem seu devido espaço em uma sociedade desenvolvida. O problema é que não somos uma sociedade em tempo de abandonar bandeiras básicas para lutar de forma individual em prol de uma determinada “verdade”. E quando tentamos tampar o sol com a peneira, caímos na armadilha de dar voz às experiências individuais, repletas de sentimentos, repletas de ansiedades, de conflitos pessoais, de humanidade. Humanidade que nos faz tão corruptos com a verdade, quanto qualquer conservador que experimentar o tal do “poder”.

Não só critico como também falo por experiência própria. Ser proprietário do local de fala, do megafone, do dom da escrita ou do poder de decisão nos torna  pessoas passíveis de erros em potencial. Por mais correta e honesta que seja uma pessoa, o poder corrompe. Sim, hoje eu entendo isso. Corrompe não só pela pressão destes setores políticos que tradicionalmente podem te direcionar para o lado obscuro da força, mas também pela vontade de ”fazer o bem” que nos impulsiona a recortar a sociedade em setores que merecem ou não ser atendidos, em movimentos que merecem ou não mais visibilidade, em pessoas que merecem ou não o perdão.

Não foram raras as vezes que movimentos sociais utilizaram das ferramentas de julgamento social para fazer justiça com as próprias mãos. Reproduzimos a repressão em outras escalas, com outros argumentos, através de outros mecanismos, mas excluíamos da luta e da potência humana outros seres humanos, que assim como nós estão passíveis de acertos e erros.  Para deixar bem explícito o que estou tentando dizer, vou usar uma foto que viralizou estes dias como exemplo. Na imagem abaixo, uma família ao mar foi salva por um cordão humano feito de forma emergencial. A imagem correu as redes sociais e os elogios e sentimentos de união foram aflorados. Agora eu pergunto: se tirarmos deste cordão alguma pessoa que talvez tenha cometido, por exemplo algum ato racista, o desfecho da história seria o mesmo?

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Não sei. Não tenho o poder de prever o futuro, muito menos de estabelecer o que é verdade, correto ou afins. Mas o que eu sei é que a ala progressista da nossa sociedade esqueceu que é composta por humanos. E quem já teve a oportunidade de ler algo de Halbwachs,  Pollak (entre outros) sabe que este esquecimento não é acidental. Existe uma batalha pela memória em curso diariamente, que nos faz estabelecer quem merece ou não estar neste cordão humano que salva, ou não, vidas.

E isso não é algo novo, do latin podemos retirar o termo Damnation Memoriae, que “quer dizer “Condenação da Memória”, no sentido de remover a lembrança de algo ou alguém. Na Roma Antiga, era uma forma de desonra que podia ser passada pelo senado a traidores ou outros que trouxessem vergonha ao Estado romano”.

Notem que desde o latin, este apagamento já tinha um sentido político. Nossa vida é política e mesmo quem tenta ficar distante disso, não sabe o quão inserido está neste processo.

Enfim, retornando ao presente. Personagens como Cunha e Temer consegue rir de forma escrachada de movimentos que, pelo menos em Joinville, não conseguem juntar 100 pessoas para uma manifestação, seja lá por que pauta for.

Perdemos. Percebem? Perdemos no momento em que nos transformamos em “flanelinhas de minorias”, como disse estes tempos o Márcio Américo, humorista e “ex-integrante” da cracolândia. Preocupamo-nos com as questões individuais, até alheias, e esquecemos de outras desgraças que assolam nossas vidas e nos igualam.

Novamente, falo por experiência própria. Quantas vezes nos vemos escrevendo, atuando ou propondo algo que segrega, ao invés de refletir de forma conjunta? Quantas vezes pensamos na proteção das pessoas próximas, de comunidades específicas, de parentes ou amigos e esquecemos do outro ser humano que está no outro lado da trincheira? Por mais horizontal que seja tal movimento, partido ou comunidade, sempre haverá aquela pessoa mais velha, com mais experiência, usando de suas metodologias, argumentos e “verdades” para impor um direcionamento, mesmo que sutil, mesmo que inconsciente.

E a parte mais triste disso é que é inevitável que pensemos assim. Somos seres humanos, munidos pela vontade de sobreviver.  E por mais bela que seja a proposta de um partido ou movimento, perceberemos que tal proposta não tem potência verdadeira para mudar realmente o mundo.

“Ah, Marcus, então você está sugerindo que a gente desista da luta ou da vida?”. Não, estou apenas sugerindo que percebam que somos fantoches da direita ou da esquerda, quando não, também somos fantoches da perpendicular, que são nossos próprios sentimentos e experiências, que nos direcionam para um desejo um pouco honesto e também um pouco mais egoísta do que os outros.

Podemos viver muito bem, sim. Mas com a certeza de que o mundo está um caos, em acelerada decadência. Podemos viver sabendo que não importa o que façamos, os números nos mostram que o meio ambiente não tem mais capacidade de nos suportar. Podemos viver muito bem, agregando mais conhecimento e valores às nossas casas, proporcionando uma vida um pouco melhor aos nossos familiares e amigos próximos, mesmo sabendo que a cada pão que comemos a mais no café da manhã, talvez seja um pão a menos para um alguém que está morrendo de fome em outro lugar.

Há quem suporte saber disso tudo e continua lutando, mesmo que sua luta represente um amadurecimento próprio e individual. Há quem desista e simplesmente tente completar as obrigações da  vida que foram impostas por uma série de regras sociais que assinamos no momento em que saímos do útero de nossas mães.

Talvez isso seja depressão? Sim, com certeza acho que o mundo é um motivo para depressão. E mais uma vez, vejo a hipocrisia que nos ronda, pois existem pessoas e pessoas com depressão. Algumas merecem apoio, compreensão e auxílio, outras merecem o exílio e o ódio. A importância do assunto depende de quem o anuncia.

A vida, a sociedade, a política é assim, um bem cruel que continua sendo perpetuado por partidos ou pessoas honestas, por religiosos ou líderes incríveis, que fazem a manutenção necessária deste sistema em vigor para nos manterem vivos e controlados.

Perdemos.

Por mais que tentemos impor possibilidades para uma comunidade melhor, os dados e experiências nos apontam um caminho sem volta. Tenho falado de uma forma geral, mas entre as palavras que uso, existem inúmeros debates, dados e experiências que não consigo apresentar com aptidão. Entretanto, posso citar rapidamente algo que está próximo, como o debate em torno do setor cultural de Joinville, por exemplo. Estes tempos comentei que o setor cultural de Joinville não conseguiria agir contra o desmonte do setor na cidade, e os acontecimentos diários tem demonstrado que isso é cada vez mais evidente. Existe um Conselho Municipal de Política Cultural que “deveria” ser a voz do povo, que deveria contrapor e fiscalizar o poder público, orientando e denunciando quando necessário. Quem participa ou já participou sabe o quão aparelhado está este órgão. Por mais que existam ótimas pessoas ainda batalhando por um desejo comum, a continuidade dos problemas maquiados por uma manutenção “popular” do conselho asseguram a permanente ineficácia  do setor. Hoje, “olhando de fora”, percebo que “não funcionar” é justamente a função do Conselho. Talvez quando se pensou esta estrutura pública a nível municipal, estadual e nacional, existissem propostas que realmente visavam algo “comum”. Hoje, toda esta estrutura continua de pé por valores individuais, por desejos segregadores,  através de personagens que focam a sobrevivência do seu nicho, de sua cultura, de sua identidade.

Errado? Não, é uma forma de sobreviver. Não tenho a intenção de julgar ou não o que está acontecendo. Acho, inclusive, que a busca destes grupos pela afirmação de suas pautas, seja através de ambientes legitimados pelo Estado, seja nas ruas, é uma forma de sobrevivência bem eficaz. Volto a dizer, o mundo está um caos e as previsões são bem pessimistas. Quem seria o louco de abandonar a sua pauta, a sua verdade, a sua comunidade para passar para o lado de lá da trincheira?

No fundo, no fundo? Ninguém.  E isso significa o quê? Que perdemos. Podemos ganhar enquanto comunidades, enquanto movimentos, enquanto partidos ou um amontoado qualquer de pessoas. Mas de forma global nós perdemos, diariamente.

A cada recorte que fazemos para salvar alguém, decidimos quem deve morrer. O mundo foi construído de uma forma que não possibilita que salvemos a todos. Não é possível ouvir a todos, propor uma vida confortável a todos, amar a todos. E não sou eu que estou dizendo isso, são os números. Se todos no planeta consumissem o que uma pessoa como nós (classe média, urbana, repleta de acesso à tecnologia)  consome, estaríamos perdidos, como podemos ver em pesquisas como as de Mathis Wackernagel e William Rees.

Por fim, sabem por qual razão que não admitimos isso publicamente? Porque temos medo da derrota. Temos medo de afirmar que perdemos, temos um orgulho devastador que impede que admitamos que não somos mais capazes de lidar com os problemas que criamos. Temos inclusive uma espécie de crença no pós morte, que as vezes nos influencia a acreditar que ainda há possibilidades positivas na “vida terrena”.

Os números nos mostram que não. É biológico, estamos realmente em decadência como sociedade e por mais engraçado que seja, estamos presenciando uma nova era de extinção de espécies que se iniciou por volta de 500 anos atrás, quando o mundo foi “descoberto”. Só não admitidos isso publicamente por medo do caos que tomaria as ruas. “Está tudo bem”, é o discurso proferido por grandes líderes. “Podemos melhorar”, é o discurso proferido por líderes menores. Mas, o que se anuncia através de fatos e números é um “perdemos”.

Talvez amanhã eu acorde pensando diferente. Talvez eu esteja completamente errado. Todos erramos, não é mesmo? Desculpem o desabafo e o pessimismo, mas a única coisa que consigo pensar vendo tudo o que está acontecendo é que “deu ruim”.

 

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