O retorno da ópera espacial?

Meet-The-Guardians-of-the-GalaxySim, mais uma vez eu vou falar de um filme de quadrinhos… me processem. Eu ia falar de Um Encontro com Deus e outras histórias de Cortiço, mas isso fica pra outro dia. Ia falar de Jojo na Inbyou na Bouken, mas eu ainda não terminei de ler. Ia falar de Zsa Zsa Zaturnnah, mas ainda não consegui fazer de maneira a não potencialmente ofender leitores e leitoras trans (é um quadrinho… controverso, no mínimo). Então vou falar de Guardiões da Galáxia, porque ainda estou no pique do filme. Ok?

De todos os filmes produzidos pela Marvel, Guardiões era o que tinha mais desculpas para fracassar: sem nomes populares dos quadrinhos (até o vilão, Ronan, o Acusador, é um bocado obscuro. E não, Thanos não é popular, não entre o público leigo), sem ligação explícita com os outros filmes, e saindo do ambiente familiar da Terra, a proposta já era arriscada em si; mas com personagens como uma arvore falante (Groot, interpretado por Vin Diesel, demonstrando a lição já passada por R2-D2 Chewbacca de que não é necessário falas para se ter um personagem) e um Guaxinim com armas (Rocket, dublado por um canastríssimo – no bom sentido – Bradley Cooper) arriscavam alienar demais a audiência. E quer saber? Não é que o roteiro de Nicole Perlman e James Gunn fez tudo isso dar certo?

 

fe7a7gyNão vou mentir e dizer que Guardiões é um filme profundo; mas ao mesmo tempo, está longe de ser um filme burro. É sim um filme inteligentíssimo, uma ode à velhas histórias de fantasia espacial (não, não é ficção científica, não cometam esse erro). Sim, é repleto de clichês; mas clichês não são algo necessariamente ruim, não quando bem utilizados. Em muitas maneiras é como Star Wars ou Farscape: um grupo de heróis “mal ajustados” contra um império do mal (ou nesse caso, um fanático religioso do mal), dependendo de um MacGuffin pra salvar o dia e a Galáxia. (Na verdade, só faltou a nave inteligente para o paralelo com Farscape ser perfeito).

 

Guardiões é admitidamente um filme pipoca  e que não se leva a sério (algo de se esperar de James Gunn, diretor de filmes B) – coisa estabelecida já no início do filme, com uma deliciosa montagem de Peter “Senhor das Estrelas” Quill (Chris Pratt, hilariante) dançando ao som de “Come and Get your Love” e usando um rato alienígena como microfone (por sinal, a trilha sonora, composta por clássicos dos anos 70 como “Hooked on a Feeling”, “O-O-H Child”, “Cherry Bomb” e “Moonage Daydream” é uma maravilha à parte). Não que isso signifique que o filme careça de cenas tocantes (e sem deixar nenhum dos protagonistas de fora, coisa que infelizmente não aconteceu com o anterior Vingadores); Gunn consegue combinar drama, comédia e ação em doses certas (as vezes tudo de uma vez) com uma habilidade cada vez mais rara.
imageO elenco ajuda nesse sentido: além dos já citados Vin Diesel, Bradley Cooper e Chris Pratt, temos Zoe Saldaña como a assassina Gamora, uma das “filhas” de Thanos (Josh Brolin, infelizmente presente em apenas duas cenas) e o lutador de MMA Dave Bautista como o maníaco e excessivamente literal Drax, o destruídor. Fora do elenco principal temos Lee Pace como Ronan (e é um mistério que haja algo para ser destruído depois de Pace devorar o cenário em todas as cenas), obcecado com “fazer justiça” dos Kree contra o planeta Xandar, com o qual o império recém assinou um tratado de paz; Karen Gillan como a tétrica Nebula,  outra “filha” de Thanos; uma inesperada Glenn Close surpreendendo como a lider da tropa Nova; Benicio del Toro como o “Liberace espacial” Taneleer Tivan, Colecionador; John C. Reilly como Rhomann Dey, possivelmente o mais aparvalhado de todos os Nova; Dijmon Houson como Korath, o perseguidor; e um excelente Michael Rooker como o saqueador Yondu Oodonta.

A trama é simples, e vai direto ao ponto: Abduzido por alienígenas na infância, após a morte da mãe, Quill leva a vida como um saqueador (“roubando de tudo e de todos”); depois de roubar uma orbe misteriosa e ter uma recompensa posta sobre sua cabeça,  acaba preso no Kiln, junto com os caçadores de recompensa Groot e Rocket, e a assassina Gamora, que está atrás do orbe para mantê-lo longe das mãos de Ronan. Este, por sua vez, prometeu-o para Thanos em troca da destruição do planeta Xandar. Juntos com Drax, o destino da galáxia cai nas mãos desse grupo de perdedores. Simples; banal; mas funcional – e serve de desculpa para um bocado de exposição do universo Marvel, e para cenários incríveis (destaque para Luganenhum, e um cameo breve de um dos celestiais, Eson o Rastreador. E o inesperado cameo de… nahh, não vou contar). O melhor do filme, no entanto, são as interações entre os “Guardiões da Galáxia”; da tensão romântica (ou “feitiçaria pélvica”) entre Quill e Gamora, a raiva-para-esconder-a-perda de Drax e a relação Han-Solo-com-raiva e Chewbacca-inocente-e-bobo de Groot e Rocket, o grupo funciona maravilhosamente. Talvez até melhor que os Vingadores (até por não ter alguém que parece estar “sobrando”).

pXOKZQ91Agora vamos falar de fidelidade ao material de origem – se você é o tipo de pessoa que fica furiosa porque desviaram do original, você definitivamente não vai gostar de Guardiões da Galáxia. Perlman e Gunn tomaram muitas liberdades criativas aqui – Ronan, como no Universo Ultimate, é um vassalo de Thanos; Peter Quill passou de um policial espacial para um saqueador, ladrão e contrabandista (e nisso nos poupou de uma longa história de origem- nada contra o Senhor das Estrelas dos quadrinhos, mas… ele tem um monte de backstory – e só passou a ser realmente parte do universo Marvel em 2006.). Groot não é mais o monarca do planeta X (ou é e não sabemos; de qualquer maneira, este Groot é bem mais inocente e “burrinho” que o 616). Drax não é mais um humano abduzido por Mentor, mas um alienígena. Yondu perdeu o arco e o moicano (mas isso é detalhe); no geral, um monte de pequenos detalhes foram alterados, mas algumas coisas permaneceram intocadas (Rocket que o diga).

E em certos pequenos detalhes, Guardiões da Galáxia consegue trazer a tona alguns pequenos tópicos profundos; O Kiln é uma bela lição de como a “lei e a ordem” muitas vezes nada tem de justo, e como prisões muitas vezes não passam de depósitos humanos; Drax repassa a velha lição do Seu Madruga (e tá aí algo que eu nunca achei que fosse citar): A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena. E o mais importante, ao mesmo tempo que Ronan é um vilão um tanto monocórdio e beirando o caricato, ele é um ótimo retrato da mente de um fanático: enquanto planeja um genocídio, ele se vê como sendo o representante legítimo da justiça. É uma lição que é difícil de se firmar: ninguém se considera mal; na verdade, os atos mais monstruosos são feitos por pessoas que se vêem como plenamente justificadas e corretas (algo que também servirá de base para Ultron).  Enquanto de um lado temos monstros completos como o Caveira Vermelha, do outro temos monstros que se afirmam justos – e esses são por vezes ainda piores. Ronan lembra a imensa maioria dos terroristas e dos genocidas: fanáticos obcecados com a ideia de que estão fazendo “a coisa certa”, e que seus opositores ou são corruptos ou “fracos demais para fazer o necessário”.

E o filme ainda conseguiu poupar a imagem do império Kree um pouco, ao desligar Ronan do império: eles ainda são babacas, mas não monstruosamente babacas. Um pouco mais de chance para Mar-Vell no futuro, talvez? Ou uma adaptação de Operação Tempestade Galática? 

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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