O poder dos ícones: Optimus Prime.

*AVISO: Contém spoilers para Dark Cybertron, All Hail Megatron, Autocracy, Robots in Disguise, quase todas as -ation e Beast Wars.

_54287973_opyimusprimeNo meu último artigo, tratei do senhor da guerra Decepticon Megatron, e sua trágica jornada de um intelectual idealista rumo ao terrorismo e o genocídio.  Como essa jornada se atava ao ciclo de violência – algo tão frequente na vivência da política internacional. E que em busca de resultados rápidos, continua a ser usado em uma vã tentativa de se conter a violência do outro. Agora venho mais uma vez falar de Transformers, para mostrar o outro lado: Optimus Prime, figuras messiânicas e a hipocrisia da Dinastia dos Primes. Sim, é novamente sobre os quadrinhos da IDW – mas com alguns respingos de outras continuidades aqui e ali.

 

Assim como o ideologo-tornado-revolucionário-tornado-ditador Megatron, Optimus surgiu inicialmente naquele combo de ficção do Jim Shooter e do Bob Budiansky.  Assim como muitos heróis dos anos 80, ele era “o cara bom que era bom porque era bom”. No entanto, ao contrário do seu arqui-inimigo, Prime – ou melhor, Orion Pax – já ganhou um pouco de profundidade no desenho da Sunbow, no episódio “War  Dawn”. Aqui, revela-se que antes de ser o líder eterno dos Autobots, Prime era um estivador (essa profissão muda a cada nova continuidade) mortalmente ferido nos primeiros dias da guerra. Reconstruído pelo ancestral Alpha Trion para ser a nova esperança dos Autobots.

 

optimus-diesNessa história de origem, tem-se um dos traços que marcou todas as encarnações de “Optimus Prime” ao longo dos 30 anos de Transformers – e que ele divide com duas grandes figuras dos quadrinhos, Super Homem e o Capitão América: são personagens messiâncos e simbólicos. Em si, eles representam uma noção de “salvação” para o mundo, um depositório de esperanças e de virtude. Esse caráter messiânico no caso do supracitado Capitão América é óbvio na capa de sua primeira revista, socando a cara de Adolf Hitler: para quem já via o nazismo como a ameaça que é, o Capitão incorporava naquele soco o ato que todos queriam fazer. No caso do Optimus, esse caráter é reforçado pelo filme animado de 1986, onde ele sozinho muda o rumo de uma batalha até então perdida – ao custo de sua própria vida.

 

Esse ato de sacrifício (tornado repetível pela mágica da ficção de trazer gente de volta a vida) é uma constante na ficção de Transformers. Durante os quadrinhos da Marvel, ele deu sua vida pelos Autobots, pela Terra, pela Humanidade e pelo próprio universo. Seu equivalente em Beast Wars, Optimus Primal, sacrificou-se para salvar a terra, e mais tarde para devolver vida a Cybertron. Nos filmes, quase deu a vida para destruir o Cubo, e morre em combate contra Megatron. O fenômeno da morte de Optimus Prime, quase sempre em um sacrifício que ou muda o rumo da história, ou expia os crimes do passado, é tão ubiquo que a wiki de Transformers conta com uma página entitulada “As muitas mortes de Optimus Prime”.

 

Shadowplay2_no_frikkin_wayNos quadrinhos da IDW não poderia ser diferente. Embora suas mortes sejam menos numerosas, ainda assim tem-se um Prime que deu sua vida pelos outros – em mais maneiras do que uma. Como já havia notado no texto anterior, o governo dos Primes nos quadrinhos da IDW está longe de ser um exemplo de virtude. Corrupção endêmica e autoritarismo marcavam a “era de ouro” de Cybertron – e nesse ambiente é que o jovem Orion Pax se destaca. De uma vida como arquivista, Pax passa a policial, onde ganha uma merecida reputação como um “super policial”. Nesse ponto de sua vida, simpatiza com a nascente causa Decepticon. Assim como Megatron, Pax se revolta com a corrupção do senado, a desigualdade e a violência sistemática contra as classes baixas. Diferente deste, busca mudar as coisas por dentro – e leva um discurso preparado pelo futuro déspota para o Senado, conquistando o povo – e o ódio do senado.

 

É com seu único aliado no Senado que Pax passa a maior parte de sua formação política. Discutindo mudanças para Cybertron em um maldito banco com uma perna bamba, Shockwave fazia o que podia para “mudar o mundo”. Isso incluia abrigar e treinar “anormais” (vale notar: o Shockwave pré guerra da IDW é o Professor Xavier) e preparar pessoas dignas para receber a Matriz de Liderança de Cybertron. Assim com o Optimus do desenho fora reconstruído por Alpha Trion, esse é reconstruído pelo então senador Shockwave, junto ao qual buscava uma Cybertron melhor e mais igualitária.

 

tumblr_mg6eglWCst1qkdny7o1_1280E é através de Shockwave que Pax inadvertidamente se torna Prime. É a morte de Nominus Prime que realmente engatilha o caminho para a grandeza. Descobrindo que o Prime fora assassinado pelo Senado – que planeja usar o seu corpo como uma bomba – Pax vê o pior da corrupção vigente. Não bastando profanar o corpo de um dos seus líderes, o futuro líder vê seu amigo, mentor e confidente ser levado embora pelo “crime” de ter impedido o atentado. Meses depois, Pax reve o senador – agora completamente indiferente, vítima de um procedimento terrível que o extirpou de suas emoções*.

O sucessor de Nominus, Sentinel, foi assassinado pelos Decepticons. Em seu lugar, Zeta Prime, outro aluno do senador Shockwave assumiu como Prime, temporariamente garantindo a lealdade de Pax, que via no “Novo” Senado as mudanças que os Decepticons outrora buscavam. Embora prometesse mudanças, Zeta aumentou o policiamento repressivo em Cybertron e instalou medidas cada vez mais autoritárias. Por baixo dos panos, o seu “Novo” Senado não diferia do original. E em combate contra Megatron, a semente da dúvida foi instalada. Acusações de que Zeta planejava usar a energia dos civis para alimentar armas contra os ‘Cons foram lançadas -e a recusa do Prime em dar provas de que esse não era o caso pesaram na mente de Pax. E isso se manifestava em acessos de raiva, como o que quase o levou a matar o comerciante de armas Swindle.

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Um ciclo sem fim…

Autocracy9_pax_becomes_primeA morte de Zeta também marcou a primeira “morte” de Optimus. Quando a megalomania de Zeta atingiu o seu limite, Autobots e Decepticons se uniram contra o tirano. Mas esta fora uma aliança passageira, e após a vitória, Pax fora deixado para morrer, junto ao falecido tirano. E fora aí que a Matriz o escolheu. Dotado da sabedoria de incontáveis gerações, Orion Pax morria, dando sua vida em nome do povo. Em seu lugar, nascia Optimus Prime. E nesse renascer, começava de fato a grande guerra. Megatron e Prime juntaram suas forças, batalha após batalha, morte após morte, por 4 milhões de anos. Sob a liderança de Optimus, os autobots adotaram o lema “Liberdade é o direito de todos os seres sencientes”- mas por grande parte da guerra, o lema era mais retórico do que factual.

 

A mudança viria ao fim da guerra, quando a Terra passou a fazer parte do conflito. Para Optimus, aqueles seres primitivos eram justamente o que ele havia jurado defender. Já para muitos de seus ancestrais Primes, os Cybertronianos eram uma espécie “superior” que merecia domínio sobre “os primitivos”. Enquanto muitos autobots viam a terra só como um campo de batalha, Optimus deu sua vida pelos humanos em Brasnya, e novamente fechando uma ponte espacial que dava aos Decepticons acesso a Terra (essa história é contada em All Hail Megatron, e a morte temporária de Optimus é que entrega a Terra os ‘Cons. Irônico, não?).

 

primesOptimus Prime faria mais um sacrifício imenso, após mais uma aliança temporária com os Decepticons: depois de finalmente devolver vida à Cybertron, Optimus Prime podia morrer. Deixando a Matriz em duas partes – uma com Bumblebee, e outra com Rodimus (autodeclarado) Prime, chegara a hora do grande líder partir. Optimus Prime estava morto; agora ele era mais uma vez Orion Pax, em exílio, já que sua presença como um dos figurões da guerra era um obstáculo para a paz. No entanto, essa “morte” simbólica tem muito a ver com tudo o que foi dito antes: Optimus Prime precisa morrer em nome de uma nova cybertron – porque a dinastia dos Primes era podre demais para ter um lugar nesse novo mundo. Ou assim pensava Optimus.

 

Orion Pax morre novamente, no entanto. Mais uma vez, uma morte simbólica, como resultado do evento Dark Cybertron. Confrontado mais uma vez pelo passado, na forma do falecido-mas-ainda-vivo Nova Prime, ele encara todo o horror do passado, e que ele teme ser parte dele – e é reassegurado pelo seu petulante, preguiçoso e patologicamente despreparado para liderança (como definido pelo Megatron) sucessor, Rodimus. Para o jovem Autobot, a dinastia dos Primes nada significava, porque Optimus tinha feito do nome Prime um sinônimo dele próprio – e de moralidade, decência e integridade (lembra o que eu tinha dito dele ser um simbolo?).

 

“Quando você se tornou Optimus Prime – quando você assumiu o título – o mundo não conhecia a verdade sobre Nova e Nominus e o resto. Lá atrás, ser um Prime significava demonstrar – não, na verdade – Encorporar certos Padrões de comportamento… Significava decência e integridade e – e moralidade – e todo o tipo de coisa que aspirantes como eu fingem que são impopulares porque bem no fundo, elas nos assustam… e elas nos assustam porque tentamos levar nossas vidas por elas, mas nós não conseguimos. Bem, quer saber? Você consegue. Você consegue e você faz – todo dia. Graças a você, a palavra Prime ainda significa decência, integridade e moralidade. Escute, o mundo sempre vai precisar de um Prime… mas só se aquele prime for você”.

 

Essa conversa é talvez a chave do Optimus, e é o porque desse texto. Tony Stark teve praticamente a mesma conversa com Steve Rogers durante o evento “Guerra Civil” da Marvel. Billy Batson deu um discurso similar em um dos melhores episódios de Justice League Unlimited, “Clash”. Duas das melhores histórias do Super Homem, “O que aconteceu com o Homem do Amanhã” e a macro história “Reino do Amanhã” são sobre a importância dessa integridade – e como há um dever simbólico em sua perserverança. O recente Injustice é justamente sobre as consequências de ignorar esse dever simbólico, e o que há por vir de se abandonar esse dever.

 

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Desnecessário dizer: Pax agora é Optimus Novamente. E deve morrer por umas 3-4 edições denovo antes do fim de 2015.

 

*Essa tentativa do Senado de punir Shockwave ironicamente foi o que permitiu o sucesso dos Decepticons: não mais atado por suas emoções, Shockwave cruzou todas as linhas possíveis em nome da “lógica”.

E pra fechar, mais um comentário da minha corujinha, Aline:

O Azulão, líder amado, é o cara. Mas ainda assim o Bee é o melhor.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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