O “House Japonês”: Black Jack, de Osamu Tezuka.

E suas cicatrizes
O cirurgião com as mãos de Deus

 

Tezuka apareceu como personagem em várias de suas obras
Criador e criatura

Existe um homem capaz de fazer milagres na sala de cirurgia. Um homem que é capaz de salvar os desenganados e curar o impossível – contanto que seus pacientes aceitem suas taxas exorbitantes. Um médico errante operando fora da legalidade, sem licença e sem registros. O cirurgião com as Mãos de Deus, Black Jack.

 

Criado por Osamu Tezuka em 1973 e publicado originalmente na revista Weekly Shonen Champion, Black Jack é um dos mais famosos mangás médicos já publicados e uma das mais amadas obras do “deus do mangá”. Também uma de suas obras “seriadas” mais complexas. Assim como a mais popular Astro Boy, Black Jack mostra muito do melhor – e do pior – da humanidade. Sem mais delongas, vamos conhecer um pouco sobre Black Jack.

 

O protagonista

 

Kuro’o Hazama, mais conhecido pela alcunha de Black Jack, é um brilhante cirurgião, um mercenário médico coberto de cicatrizes e um rosto desfigurado por um transplante de pele na juventude. Um pária entre o meio médico por seu comportamento e suas práticas ilegais, incluindo, mas não limitado à, operar sem licença médica. O “cirurgião com as Mãos de Deus” é uma figura antipática e rude com seus pacientes – quase um protótipo para o doutor Gregory House, exigindo taxas abusivas para salvar suas vidas.

 

Vagando pelo mundo oferecendo seus serviços a valores absurdos, Hazama lida com uma miríade de casos que vão desde o normal, como tratar vitimas de acidentes, doenças crônicas e transplantes dificílimos, até o fantástico, como “operar” um super computador que se julga doente, salvar a vida de um alienígena, ou transformar uma garota em um pássaro.

 

Logo depois disso, ele lutou contra dingos
Além do impossível: Operando em si mesmo

Black Jack é um personagem complexo e multifacetado. Ao mesmo tempo em que o não-tão-bom Doutor é um salvador de vidas, ele é um homem rude, intrusivo e que a primeira vista parece ganancioso, cobrando milhões por cirurgias que pareceriam rotineiras – e ainda mais por procedimentos arriscados. Em sua encarnação original, foi justamente essa prática que lhe custou a licença médica e ele não esconde seu desdém pelos colegas de profissão. Pouco ele parece se importar com quem ele está salvando, contanto que seja pago. Em suma, a primeira vista, Black Jack é  um médico ganancioso e indiferente, que não respeita o sistema médico ou seus clientes.

 

Mas além de sua máscara superficial de canalhice, há um homem profundamente dedicado à prática da medicina e a salvar vidas. Suas taxas exorbitantes tem um propósito duplo: primeiro, testar até onde seus pacientes estão dispostos a ir e se estão dispostos a arcar com os custos de seu trabalho. Segundo, elas servem para custear o tratamento daqueles que não podem pagar. Ao fim das contas, Hazama só cobra de quem não merece seus serviços, usando o dinheiro para custear suas despesas com quem o comove, para promover o trabalho de outros médicos dentro do sistema e para proteger o ambiente.

 

De início, Black Jack é uma figura misteriosa, seu passado sendo explorado pouco a pouco. Aos oito anos de idade, Hazama foi vítima de uma mina terrestre, deixando-o desfigurado. A explosão também lhe custou a mãe. Salvo pelos esforços do doutor Jotaro Honma, o rapaz teve uma árdua luta pela frente. Para restaurar seu rosto, Takashi, um de seus colegas de classe se voluntariou como doador de pele. Takashi era filho de um imigrante negro, e a pele doada é perceptivelmente mais escura que a do doutor – uma imperfeição que Kuro’o poderia “consertar”, não fosse seu respeito pelo amigo, morto em um protesto na Algéria. Sua recuperação “milagrosa” nas mãos de Honma o inspiraram a seguir a carreira médica. As limitações no sistema médico o levaram a clandestinidade.

 

 

Companheiros, rivais e antigos amores: os coadjuvantes de Black Jack

 

Como muitas obras de Tezuka, Black Jack usa e abusa do “Star System” (tratando designs de personagem como sendo “atores”, e cada história como sendo um “filme”), com várias faces familiares dando as caras ao longo de suas histórias, algumas surgindo em múltiplos papéis. O próprio Black Jack foi um “ator” em outras obras do mestre.  Mas alguns personagens se marcaram na vida do médico errante. Eis alguns dos mais importantes.

 

Presa em um corpo de plástico
De teratoma a coisa adorável

Pinoko: a assistente e auto declarada “esposa” do Dr, a pequena Pinoko é também uma de suas mais famosas pacientes. Durante a maior parte de sua vida, Pinoko foi um teratoma, um tumor com órgãos plenamente formados, presa no abdômen de sua irmã gêmea, Yurie. Dotada de poderes psíquicos, ela impediu todas as tentativas de retirá-la até que Hazama prometeu mantê-la viva após a cirurgia. Black Jack construiu um corpo plástico para preservá-la após a cirurgia – um corpo com a aparência de uma criança pequena, para o desprazer dela. Pinoko também é famosa por seu bordão “Acchonburike” – uma frase sem qualquer significado.

 

Lembrem-se desse nariz, ele é recorrente na obra de Tezuka
Honma e a sofrida recuperação de Hazama

Jotaro Honma: O brilhante cirurgião que salvou a vida de Hazama quando todos davam sua morte como certa. Honma era o ideal de médico, dedicado plenamente a salvar vidas e ajudar os doentes. Mas ao mesmo tempo, Honma se julgava incapaz de errar e esqueceu um bisturi dentro do jovem Hazama. Negando o erro por anos, Honma foi assombrado por sua distração quando, sete anos depois, encontrou o mesmo bisturi envolto em cálcio ao operar o rapaz novamente. Tomado pelo remorso, o gênio Honma se retirou da vida pública. Anos mais tarde, se vendo perto da morte, o médico decidiu contar seu grande erro a Black Jack, antes de perder a consciência. Apesar de seus esforços, Hazama não foi capaz de salvar seu mentor.

 

Dr. Kiriko: o “médico da morte”, a antítese de Black Jack, Kiriko é um médico do exército que após ver os horrores da guerra em primeira mão, se dedica a aliviar o sofrimento dos moribundos através da eutanásia.  Ora aliados,  ora inimigos, a filosofia dele o põe diretamente contra o doutor Black Jack, graças a suas mentalidades opostas quanto a qual é o dever de um médico. Porém, Kiriko raramente é apresentado como um vilão, sendo mais um antagonista recorrente que não reluta em chamar seu “rival” quando há chances de seus pacientes serem salvos – incluindo uma ocasião em que ele era o paciente.  

A face magra e ressecada de Kiriko contrasta bem com o rosto redondo e gentil de Black Jack
O médico da morte e o cirurgião com as mãos de deus.

 

Inclusão trans, ou deslize autoral? você decide
O “amor perdido” na sala de cirurgia

Megumi Kisaragi: O “amor perdido” de Hazama, Megumi era uma colega de residência extremamente próxima do médico, e preocupada com sua recusa em fazer o registro profissional. Acometida por câncer de ovário, Kisaragi teve sua vida salva pelas mãos hábeis de Hazama – mas em um dos aspectos mais mal pensados do mangá, ou em um sinal de que ela sofria de problemas psicológicos ou hormonais, a histectomia a levou a “não se sentir mais uma mulher”. Com o passar dos anos, assumiu uma identidade masculina, Kei, e passou a servir como médico de bordo em um navio.  Embora uma histectomia possa afetar a libido e os níveis hormonais,  os efeitos não são nem de longe tão dramáticos quanto em Black Jack – e sua súbita transexualidade vem do nada em seu capítulo introdutório.

 

 

Corrupção, limites, sofrimento e humildade: os temas de Black Jack.

 

Tezuka sempre deixou seus temas um tanto explícitos, quando não abria espaço para um discurso extra-diegético para explicá-los, como o fez em O Robô mais Forte do Mundo, em Tetsuwan Atom, e Black Jack não é exceção, chegando quase ao ponto de ser moralizante.

 

O estranho caso da doença encolhedora (já falei que as vezes esse mangá é maluco?)
Trabalho humanitário, dentro e fora do sistema

Há dois grandes temas em Black Jack, dos quais todos os outros tendem a derivar. O primeiro, mais explícito, é o da corrupção e da ética na medicina. Hazama atua fora do sistema médico, para poder fazer aquilo que legalmente não poderia fazer. Embora seus métodos pareçam anti-éticos, sua motivação central deriva do juramento hipocrático que deveria orientar a medicina.

 

É importante frisar que enquanto Hazama é o “médico ilegal” que chantageia seus pacientes e que faz serviços “sujos” para gente menos-que-elogiável. Muitos de seus companheiros “dentro do sistema” têm pouca preocupação com seus pacientes, demonstram arrogância e prepotência, e em mais de um caso agem de forma ainda mais ilegal que Hazama.  

 

Isso não quer dizer que Tezuka demonize a classe. Ele próprio um médico além de quadrinhista, sua crítica era direcionada aos abusos de poder, a burocracia e a indiferença que permeavam o sistema de saúde japonês. No mesmo tanto que vemos médicos interesseiros, indiferentes e arrogantes, temos profissionais tão dedicados a salvar vidas e ajudar os enfermos quanto o próprio Hazama, atuando dentro do sistema – as vezes arriscando suas próprias vidas para isso.

 

Não só de humanos vive o doutor
Black jack e a baleia: um dos pacientes que não puderam ser salvos

O segundo tema ressalta o ponto narrativo de que o sistema médico em si não é o problema: os limites do que uma única pessoa pode fazer, e a importância da humildade no trabalho de saúde. Várias histórias tratam da incapacidade de um médico sem a infraestrutura necessária (mesmo quando outras envolvem Hazama fazendo cirurgia intestinal em si mesmo enquanto luta com dingos), com a impossibilidade de salvar todos os pacientes, ou com a importância de aceitar a realidade da morte.

 

Há um tema secundário nos flashbacks de Hazama: sofrimento, e a superação do mesmo. Cada pequeno detalhe que sabemos da vida prévia do “cirurgião com as Mãos de Deus” é uma cicatriz emocional dolorosa acompanhando as cicatrizes físicas, superadas às custas de muito esforço. Black Jack pode vagar o mundo salvando vidas, mas para ele, viver é sofrer, um dia de cada vez, superando as dores para chegar ao amanhã. Por trás da aparência jovial se esconde um homem que perdeu tudo, e onde possível se reergueu na base de sangue, suor e lágrimas. Em suma, da mesma maneira que Tezuka argumenta que a medicina não deve se deixar abalar por causa do sistema, a dor não deve impedir a vida.

 

Black Jack na Animação e além

 

Não é a melhor adaptação
Sua primeira aparição no cinema lhe deu um visual intimidador, nas mãos de Jo Shishido

Como muitos clássicos dos quadrinhos, Black Jack não se restringiu às páginas da *, migrando para TV, vídeo e o cinema múltiplas vezes. Sua primeira migração para as telas foi o filme Hitomi no Naka no Houmonsha (O Visitante do Olho), de 1977, dirigido por Nobuhiko Ôbayashi. No filme, adaptado do capítulo A primeira tempestade da primavera, o doutor (interpretado por Jo Shishidô, de A marca do assassino) trata uma jovem tenista (Nagisa Katahira) que perdeu a visão em um olho após um acidente – no mangá, a protagonista da mesma trama sofria de Leucoma. Após a cirurgia, a moça passa a ter visões de um rapaz misterioso, pelo qual fica obcecada – e que esconde um segredo sinistro. Outras adaptações em live-action foram feitas em 1981 (o drama televisivo Kama Puzo no Blackjack, com 12 episódios), 1996, com três filmes direto para vídeo, com Daisie Ruy no papel principal, e 2001, com três filmes para a TV, com Motoki Masahiro no papel.

 

Black Jack voltou às telas em um episódio de Astro Boy (1980), no episódio “A máquina do tempo”. Nele, o Doutor, Astro Boy/Atom e Uran voltam no tempo para o século XV, onde o doutor tem que fazer uma operação vital na Princesa Safira (de A princesa e o Cavaleiro/Ribbon no Kishi). O personagem também figurou em Phoenix 2772 (no papel de um guarda prisional) e no filme para TV One Million Year Trip: Bandar Book, de 1978, como um pirata espacial.

 

Isso é, até a continuação
Na TV, um doutor mais “light”

Em 2003, o doutor ganhou uma minissérie de TV própria, com apenas quatro episódios: Black Jack Special: The Four Miracles of Life. O especial foi seguido por uma série completa,, com 61 episódios, dirigida por Makoto Tezuka (fiho do “deus do mangá”) e Satoshi Kuwabara. A série chegou a ser exibida no Brasil pelo Animax. Com histórias leves e um estilo de animação simples e bem fiel ao traço de Tezuka, o anime teve uma sequência radicalmente diferente em Black Jack 21, em 2006. Com apenas 17 episódios, a trama lidava com alguns dos capítulos mais sombrios do mangá, a relação tempestuosa de Hazama com o pai, sua meio-irmã, os incidentes que levaram a morte da sua mãe, e o motivo real de sua aparente ganância: um longo plano de vingança contra as pessoas responsáveis por sua dor. Um salto abrupto de Hazama ajudando “o paciente da semana” para tentativas de assassinato, conspirações e bombas.

Em 1992, o doutor ganhou uma série em vídeo, Black Jack: Medical Chart, com 10 episódios. Dirigida pelo finado Osamu Dezaki (Ashita no Joe, Space Adventure Cobra, Bionic Six), a minissérie era mais pesada e violenta que as adaptações posteriores, e contou com duas continuações: Black Jack FINAL, de 2011, e o filme Capital Transfer to Heian, de 1996. No mesmo ano, foi lançado também Black Jack: The Movie. E para acompanhar a série televisiva, foi feito outro filme: Black Jack: The Two Doctors of Darkness.

 

Vários dos artistas de ALIVE foram pessoalmente aprendizes de Tezuka
Mantendo a lenda viva em uma homenagem ao mestre

O “bom doutor” sobreviveu a morte de seu criador, mantido vivo pelas mãos de seus discípulos em obras como a coletânea Black Jack: ALIVE e a prequel Young Black Jack,  de Yoshiaki Tabata e Yugo Okuma. A primeira, publicada em 2005, é uma coleção em dois volumes de histórias do doutor pelas mãos de outros quadrinhistas, como Go Nagai, Ken’ichi Kitami, Ayumi Tachihara e o filho de Tezuka, Makoto Tezuka. Já Young Black Jack é uma longa história centrada na formação do doutor, antes dele se tornar conhecido como Black Jack. Situado nos anos 60, entre os protestos contra a guerra do Vietnã e o clima de tensão da Guerra Fria. o quadrinho foi adaptado duas vezes para a TV: em um drama estrelado por Masaki Okada, em 2011, e em um anime do ano passado, com roteiro de Ryosuke Takahashi (das magistrais Sokou Kihei Votoms e Aoki Ryuusei Layzner) e direção de Mitsuko Kase.

 

Tamanha é a semelhança conceitual entre Black Jack e Gregory House, que o doutor teve um outro papel na televisão japonesa: promover a série de Hugh Laurie, em uma séire de comerciais colocando o doutor como “o novo assistente de House”, para promover os DVDs da série americana.

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