O fracasso da violência – todos saúdem Megatron!

DECEPTICONS! TRANSFORMEM-SE E ERGAM-SE

 

350px-MegatronguidoQuem acompanha as notícias deve estar sabendo da ofensiva americana contra as cidades tomadas pelo ISIS. E quem está familiarizado com a história da região deve saber como essas ofensivas aéreas tendem apenas a perder o apoio popular e fortalecer a formação de grupos terroristas. Sim, algo deve ser feito, e não é mais tempo para o dialogo – mas há se pensar no que fazer e como fazer. Mas o que isso tem a ver com quadrinhos, você pergunta? E se eu te falar que um quadrinho que surgiu de uma linha de brinquedos já discutiu a respeito disso, e sobre como a violência corrompe e distorce qualquer causa?

Bem, para responder essa pergunta, temos que voltar para o passado, para o distante ano de 1984, quando a Hasbro comprou um bocado de bonecos japoneses de coisas que viravam robôs. Sabendo que parte do segredo para uma linha de brinquedos é carisma, a empresa tratou logo de criar um corpo de ficção para aqueles bonecos estranhos que viravam carros, aviões e caminhões. E essa tarefa crucial caiu na mão de duas empresas: Marvel e Sunbow Productions.

À Marvel coube criar os personagens e o universo de The Transformers, primeiro pelas mãos do então editor chefe Jim Shooter (que também foi o primeiro editor chefe na casa das ideias a conceder direito autoral para os artistas – e o que mais comprou briga com os mesmos, e salvou a Marvel da falência nos anos 80), que produziu um argumento básico de seis páginas – estabelecendo uma guerra entre duas facções de robôs alienígenas que caíram na Terra a milhões de anos – enquanto a caracterização caiu nas mãos de Bob Budiansky depois que Shooter… meio que desistiu do projeto.

Desse trabalho surgiu a premissa básica que todos conhecem – e a partir do qual a Sunbow tratou de fazer um desenho de enorme sucesso, enquanto os bonecos vendiam como água, levando a Takara – a fabricante das linhas originais – a firmar uma longa parceria com a Hasbro, que levou a muitas e muitas séries e linhas de Transformers. No distante planeta Cybertron, uma guerra milenar ameaçava a existência de seus habitantes, os transformers. Liderados pelo tirânico Megatron (com a forma alternativa de uma Walter P38 – enquanto todos os outros tinham formas capazes de algo além de combate, o déspota era uma arma), os Decepticons visavam domínio sobre tudo e todos. Em seu caminho apenas os Autobots liderados pelo incorruptível Optimus Prime. Partindo de Cybertron para dar tempo para o planeta se recuperar, os Autobots e Decepticons veem parar na Terra – levando sua guerra ancestral até nós.

AHM12_prime_vs_megsE você deve estar se perguntando… o que diabos isso tem a ver com o uso de força para ganhar uma guerra e como isso pode fazer você perder uma guerra? Bem, para isso temos que vir para o presente, com a IDW Publishing – que tratou de dar à grande guerra cybertroniana a profundidade que ela nunca teve. Se nas mãos da Marvel e especialmente da Sunbow o conflito era preto e branco com pequenas exceções de cada lado (Salvo Generation 2, onde todo mundo era um maníaco homicída, e Earthforce, onde acontece o mesmo – e quanto menos se falar em Dreamwave, melhor), o universo de transformers da IDW, assim como o das séries animadas Beast Wars (1996!), Animated (2007) e Prime (2011) é cheio de ambiguidades – e retrata uma guerra civil onde aqueles que um dia foram “combatentes da liberdade” se converteram em fanáticos violentos, e os velhos tiranos agora são os combatentes da liberdade.

Não, em sua gênese os Decepticons não servem como paralelo para o ISIS – mas seu estado no fim da guerra serve – sua origem está mais para a Revolução Russa (irônico, vendo que Megatron foi concebido como um pastiche do nazismo). Antes retratado como um tirano que é um tirano porque é um tirano (através de muitas origens contraditórias), o Megatron da IDW (na verdade, a uma parte boa do que a Dreamwave estava produzindo) começa a sua ascensão não através da arma que lhe serve de forma alternativa, mas das palavras.

tumblr_mbw5omE1kB1qfrbaeNos idos tempos de Nominus Prime, um jovem minerador com anseios políticos estava insatisfeito com o rigoroso sistema de castas vigente em Cybertron, que mantinha pessoas como ele – que queria ser médico – e tantos outros presos a trabalhos que detestavam em razão de suas formas alternativas. Um intelectual e um poeta, Megatron ganha notoriedade por seus escritos – muito apreciados por um jovem policial chamado Orion Pax – futuramente Optimus Prime. Neles, defendia o direito de cada cybertroniano escolher seu próprio caminho – não mais forçados por suas formas alternativas, a igualdade social e o fim das regalias do senado cybertroniano, através de fins pacíficos e do diálogo.

E é no primeiro contato entre esses dois rivais eternos que Megatron começa sua jornada rumo a tirania. Preso após uma briga de bar da qual não fez parte, os dois tiveram uma conversa amigável e uma troca de ideias – até que o jovem revolucionário foi levado para sua cela. Longe dos olhos justos de Pax, outro policial – Whirl, um caso para outro texto – tenta matá-lo sob ordens do Senado. Torturado e espancado, salvo no último minuto, Megatron se vê preenchido pela raiva e o ódio – em suas palavras, Whirl o ensinou a odiar. E ao fazê-lo, o fez abandonar o pacifismo.

 

Aqui já temos o caso: a violência gera mais violência.

 

Discursando de forma mais radical, Megatron dá origem ao movimento Decepticon – retirado do mote “You are being deceived” (você está sendo enganado), que se torna cada vez mais radical. Sabendo que um assassinato só faria dele um mártir, o senado opta por exilá-lo em uma colônia de mineração, enquanto implementa medidas mais e mais violentas para esmagar os Decepticons. No exílio, depois de ver um colega ser morto pelo guarda costas de um senador por “expressar opiniões subversivas”, um horrorizado Megatron tira uma vida pela primeira vez.  Durante uma rebelião, o revolucionário foge para o subterrâneo.

2129893890100811158S600x600Q85E lá aprende de fato a lutar. E a matar. E os Decepticons não se limitam mais a protestos agressivos e mensagens de revolta: agora suas ações incluem atentados terroristas, assassinatos e sabotagens. Ao mesmo tempo, figuras com suspeita de serem “simpatizantes dos ‘cons” são antagonizadas e por vezes assassinadas por ordem do Senado. (Nota: é importante notar que isso são coisas que de fato ocorreram nos EUA com o partido comunista americano, nos anos 40 e 50, e até no Brasil, durante a ditadura). Quanto mais aumentava a repressão, mais violentos os Decepticons se tornavam.

Um líder carismático e movido por um desejo sincero por uma Cybertron mais igualitária, Megatron junta um séquito de seguidores, guerreiros e aliados sem par. Em grande parte, retirados dos excluídos, abatidos e desafortunados – tais quais o espião Soundwave, seu mais leal seguidor – assim como oportunistas como Starscream, que repetidas vezes tentou tomar o poder sobre os Decepticons. Com ajuda do senador Shockwave, Megatron faz o primeiro passo em sua declaração de guerra: o assassinato de todo o senado e a tomada da megalopole de Kaon como a fortaleza dos Decepticons. Não  mais um “insurgente” ou um “terrorista”, Megatron agora era um senhor da guerra.

E, ironicamente, foi nesse ponto que o movimento Decepticon perdeu qualquer chance de mudar Cybetron para melhor: a cada nova batalha, os métodos se tornavam mais radicais, a violência maior, e a civilização cybertroniana mais próxima da extinção. No auge da guerra, daquele jovem idealista e os indignados que queriam mudar o mundo, pouco restava. Megatron havia se desfigurado na personificação da guerra; seus seguidores agora incluíam psicopatas, genocidas e torturadores (não que não houvessem desses entre os Autobots). Seu plano mestre, no entanto, ainda visava o sonho de uma Cybertron melhor – por todos os meios errados: o horror da grande guerra não era movido por desespero ou por uma corrida armamentista, mas sim por um propósito singular: Tornar a guerra tão horrenda e abominável que ambos os lados não teriam escolha se não a paz. Apenas quando todo o  resto abdicasse da violência, é que ele abdicaria.

420px-RID11_megatron_in_wildernessPara encurtar a história… a grande guerra teve seu fim – com a aparente morte dele. No entanto, disputas por liderança, remanescentes dos Decepticons ainda leais ao insano plano do general, ou meramente sedentos de poder, viciados na violência, ou desesperados por recursos, um novo regime Autobot dominador e injusto – onde os ex-Decepticons tinham seus direitos cerceados – e os danos causados por 4 milhões de anos de guerra deixaram Cybertron uma ruína. Lidando com as consequências de seus planos malucos – e com as palavras do Autobot Bumblebee, Megatron tem um insight – o erro chave que cometeu todo esse tempo, e cuja solução era a base da sua filosofia, antes dele ser tomado pelo ódio: vencer significa convencer as pessoas a juntar-se ao seu lado, e não dominá-las.

Starscream. A vitória dele me lembrou de algo que eu jurei nunca esquecer: Vencer significa convencer as pessoas. O mais perto que eu cheguei de uma vitória total não foi Simanzi. Foi quatro milhões de anos atrás, antes dos meus Decepticons tomarem em armas – quando eu ainda tinha o povo ao meu lado. Eu perdi a guerra no momento em que eu dei a ordem de lutar.  – Transformers: More than Meets the Eye #27

DCFinale_megatron_the_autobotNo estado atual dos quadrinhos da IDW, Megatron está se dedicando a remediar o dano que causou – não em busca de perdão, pois isso ele se vê como estando longe demais para merecer, mas de reparação. O ponto que quero fazer com essa não tão breve história desse Karl-Marx-misturado-com-Stalin-com-Osama-bin-Laden robótico é justamente a da base da filosofia dele: Não se vence uma guerra através da violência. Se vence ela convencendo as pessoas a ficarem do seu lado, e abandonarem o lado inimigo. Agora, o Isis pode ser muito como os Decepticons no seu auge; não é possível convencer eles a parar, isso é claro – mas há de ser possível convencer a população local à repudiá-los, e não se faz isso através da violência.

E quem tiver interesse em mais Megatron, a recomendação são os títulos em publicação More Than Meets the EyeRobots in Disguise, assim como as já encerradas séries All Hail MegatronMonstrosity – para começar. Em animação, a recomendação é Animated Prime – assim como Beast Wars, para um Megatron igualmente marcante, mas que só divide com este o nome.  Só… fiquem longe dos filmes se querem um bom Megatron, ou uma boa história.

E agora com a palavra minha namorada:

Eu acho que o Megatron é um cara legal e que no fundo ele ama o Optimus e os dois só precisam de um tempo pra uma DR das boas ai eles voltam a ser amiguinhos turururu <3 <3 <3 <3 

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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