O dilema da morte no mundo dos super heróis

Super-Homem: ninguém tem o direito de matar, especialmente não ele

Existem duas regras perenes quanto a narrativa de super-heróis: 1º, Heróis não matam – matar é coisa de vilão, e heróis sempre encontram outra maneira. 2º, As vezes não há outra maneira e heróis tem que matar para salvar vidas. A contradição entre essas duas regras narrativas, praticamente cimentadas em pedra, é um velho problema dos quadrinhos de super-heróis (e similares) e não raramente vira um clichê hipócrita e surreal.

 

Afinal, como lidar com a aparente imortalidade dos vilões de quadrinhos – e até que ponto a superioridade moral do homem que não mata é realmente superior a do homem que mata? As coisas sempre foram assim? E não seria melhor se o Super-Homem saísse por aí matando todos os caras maus?

 

Nem sempre tão pacifistas: os tempos em que heróis matavam

 

Há um fato importante que é muitas vezes ignorado ao se tratar da questão do matar ou não matar por parte de super-heróis: embora os “juramentos” de não matar sejam parte do imaginário popular quanto a estes personagens desde a “Era de Ouro” dos quadrinhos, a ideia de que um super herói jamais mata não estava presente na origem da maior parte dos heróis dos “velhos tempos”.

 

Em muitas de suas primeiras histórias, tanto o Batman quanto o Super-Homem mataram seus inimigos, ou ameaçaram abertamente fazê-lo; em sua primeira história, o Homem Morcego enforca um dos capangas do vilão e encerra a história jogando seu algoz em um jarro de ácido, “um fim apropriado para sua espécie”. Jay Garrick, o primeiro Flash, deixa seus primeiros vilões se eletrocutarem. Aquaman alegremente executou nazistas, enquanto o Robin concluiu sua estreia jogando um criminoso do alto de um prédio em construção e incriminando um mafioso por sua morte. Já Namor, o príncipe submarino… nunca parou realmente de matar: seus tempos “de paz” se deram mais ao Comics Code que qualquer outra coisa.

 

O primeiro ano do Cavaleiro das Trevas é emblemático nesse caso. Hoje conhecido por seu ódio a armas de fogo e seu rígido código contra a força letal, de sua primeira aparição na Detective Comics #27, em 1939, até sua revista indiviual em 1940, o Homem-Morcego não apenas tinha uma atitude relaxada quanto à violência, como era frequentemente visto usando armas. Essas primeiras histórias se devem à lenta composição do personagem, mas servem de exemplo de como os padrões mudaram.

Batman Shadow
Batman: em seus primórdios, uma cópia do Sombra

Em sua fase inicial, antes de ter sua origem, identidade e personalidade bem estabelecida, o Batman era primariamente uma cópia do herói pulp O Sombra, criado por Walter Brown Gibson em 1930. Dos tons sombrios à identidade secreta como um playboy milionário, havia muito do sombra no Batman – e isso incluia o uso de armas. Em 1940, em Batman #4, de Bob Kane e Bill Finger, o Homem-Morcego se torna o primeiro herói a abertamente estabelecer que segue uma regra de jamais matar, ao ressaltar para seu jovem protegido Robin que “nós nunca matamos com armas de qualquer tipo” – o que não impediu o herói de matar indiretamente em outras histórias, ou de usar capangas como escudos humanos. A nova regra visava cortar os laços com o Sombra “de vez”.

 

Os quadrinhos do Batman foram um grande motor por trás da proliferação de “heróis que não matam”, impulsionada também pela popularidade dos vilões – afinal, se o herói não mata, é mais fácil justificar o retorno de um vilão popular sem ter de inventar desculpas sobre como ele escapou da última vez. Ainda assim, abundavam heróis e anti-heróis sem pudor em dar um fim definitivo aos seus inimigos.

 

Com o código dos quadrinhos em 1954, a era dos heróis assassinos chegava ao fim. As novas regras sob as quais os quadrinhos americanos operavam proibiam o “uso excessivo de violência” – o que incluía força letal. Sob o controle da DC comics, o mercado de quadrinhos dos anos 50 se encheu de vilões e heróis que nocauteavam uns aos outros, de gases do sono e armadilhas mirabolantes que podiam talvez com sorte matar alguém. E pelos anos seguintes, as únicas situações em que um herói poderia matar um vilão (ou que um vilão poderia se matar) eram mortes ambíguas ou acidentais – minas de ouro para trazer heróis de volta.

Norman Osborn é morto por seu planador. Arte de Gil Kane
Norman Osborn é morto por seu planador. Arte de Gil Kane

O novo padrão narrativo gerou um padrão rigoroso onde heróis não matam, nunca. O afrouxamento da censura nos anos 70 fez pouco para mudar isso: vilões ocasionalmente morriam por acidente (como Heinrich Zemo, em Avengers #15, de 1965), em explosões (como o Gargula, em The Incredible Hulk #1, de 1962) ou como resultado de suas próprias ações (como o Duende Verde, em The Amazing Spider-Man #122, de 1973).

A morte de Gwen Stacy mudou a maneira com a qual quadrinhos lidavam com a morte. Arte de Gil Kane.
A morte de Gwen Stacy mudou a maneira com a qual quadrinhos lidavam com a morte. Arte de Gil Kane.

Com essa última história as coisas começavam a mudar. Com a “inocência” dos quadrinhos de super-heróis indo embora junto com a vida da namorada de Peter Parker, Gwen Stacy, a visão que o gênero tinha quanto à morte mudava também. Embora heróis ainda relutassem ou se recusassem a matar, surgiam anti-heróis assassinos como o Justiceiro, na Marvel e o Vigilante, na DC, assim como heróis que pareciam assassinos, como Rom, o Cavaleiro do Espaço.

Superman executa Zod e seus comparsas. Arte de John Byrne.
Super-Homem executa Zod e seus comparsas. Arte de John Byrne.

Ao fim da chamada “Era de Bronze” dos quadrinhos, algumas histórias do Super-Homem abordaram o tópico diretamente. Em The Price, de John Byrne, em 1988, o homem de aço tira a vida de um trio de criminosos kriptonianos em resposta ao genocídio em escala global cometido pelos três. Ao mesmo tempo em que põe o Super-Homem “para matar”, a trama reconhece o grau de atrocidade necessário para fazer com que o herói cruze esta linha – mas ainda levanta a pergunta de se ele tem esse direito.

 

What Ever Happened to the Man of Tomorrow?, de Alan Moore, de 1986, trata da questão de forma mais “definitiva”. Enquanto a história posterior de Byrne deixa em aberto (para que outros roteiristas lidem com a questão), a trama fechada de Moore dá uma resposta em claro quanto a isso. Após matar o vilão extra-dimensional Sr. Mxyptlk, Kal-El voluntariamente se priva de seus poderes pois “Ninguém tem o direito de tirar uma vida. Nem mesmo o Super-Homem. Especialmente o Super-Homem.”

 

Reagan, pax americana e a volta dos heróis que matam

 

Os anos 80 e 90 foram o palco de grandes mudanças nos quadrinhos de super-heróis. Revelando novas possibilidades para o gênero (e acompanhando o que era feito no exterior) Watchmen, de Alan Moore, e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller inadvertidamente ditaram o curso que a indústria seguiria. O moralismo e a simplicidade que vinham ruíndo há anos davam lugar a anti-heróis e ambiguidades morais.

 

Por sua vez, o fim da guerra fria, a nova guerra às drogas e o mundo monopolar criado com a queda do bloco soviético ditavam cursos na indústria cultural americana, levando o cinema a uma era de heróis bombados com armas grandes peitando os “inimigos da américa” com uma falta de pudor que não era vista desde os tempos da “ameaça vermelha”. E nos anos 90, essas duas tendências foram de encontro uma com a outra nos quadrinhos de super-heróis.

Cyber-Force: um dos muitos esquadrões de heróis violentos e armados dos anos 90. Arte de Marc Silvestri
Cyber-Force: um dos muitos esquadrões de heróis violentos e armados dos anos 90. Arte de Marc Silvestri

Com chamadas como “A próxima geração de heróis”, “Emergindo da lenda do homem-morcego” e “Ação intensa”, revistas como Youngbloods, Azrael: Agente do Morcego e Savage Dragon traziam anti-heróis violentos que não tinham pudor em usar de força letal contra seus inimigos. Super-poderes davam lugar a armas enormes e arsenais intermináveis.

 

Afetados pela onda gótica, alguns heróis foram mais longe. Onde antes haviam capas e símbolos, agora haviam correntes e espinhos. O visual macabro do Motoqueiro Fantasma passou de uma exceção para um padrão com o surgimento do Spawn de Todd Macfarlane, rapidamente copiado pela concorrência.

"A arma do inimigo". Arte de Frank Miller.
“A arma do inimigo”. Arte de Frank Miller.

Apesar deste movimento de pretensa maturação dos quadrinhos ter sido catapultado pelo sucesso de Watchmen e O Cavaleiro das Trevas, as duas obras que o motivaram não tinham a marca maior desta era: a violência desmedida. Watchmen tratava o uso de força letal como um sinal de insanidade, quer por parte de Rorschach ou do Comediante, ou como um sinal da total apatia do Dr Manhattan. Já o Cavaleiro das Trevas ressaltava a regra do Batman contra “as armas do inimigo”.

Bloodstrike: violento até no nome. Arte de Rob Liefeld.
Bloodstrike: violento até no nome. Arte de Rob Liefeld.

O nível de violência de tais títulos oscilava: grupos como Gen 13 e Os novos Guardiões eram dados a matar seus inimigos sem querer, enquanto os Youngbloods, Bloodstrike, Doom’s IV e Os Outros matavam sem pudor e sem vergonha. Cada novo grupo vinha com a promessa de ser mais brutal e mais radical que o anterior – sem muito além de cenas de ação e violência. A censura relaxada e a moralidade vaga se via em outras formas de entretenimento e assim como no horror e nos videogames, muitos quadrinhistas americanos se regojizavam aumentando a violência.

 

Apesar da repaginação “hardcore”, muitos dos heróis clássicos mantinham sua moralidade intacta – o caso mais notável sendo o Super-Homem, após uma breve fase que sucedeu sua morte centrando em quatro novos e “radicais” heróis “violentos” (dos quais só um era realmente violento, e se revelou um vilão) o original voltou usando armas e botas a jato apenas para recuperar seus poderes com o sacrifício heróico do homem com o nome mais violento de todos: O Erradicador.

Super-homem e seus quatro sucessores. Arte de Dan Jurgens.
Super-homem e seus quatro sucessores. Arte de Dan Jurgens.

Com um pouco mais de maturidade, algumas histórias abordavam o assunto do direito de matar “sutilmente”, como a conclusão de Operação Tempestade Galática, em 1992. Sem querer falar abertamente se destruir Supremor era matar ou não, a conclusão da trama dividiu os Vingadores em dois grupos – um liderado pelo Capitão América, que via o super-computador Kree como uma vida inteligente, assassinada a mando de Tony Stark, e a Force Works, liderada por Stark, que via Supremor como mais uma ameaça detida antes que fosse um problema.*

 

Embora os heróis “hardcore” dos anos 90 tenham deixado de ser o padrão antes da segunda metade da década, vários personagens dentro destes moldes continuaram populares, e outros surgiram nas décadas seguintes, como os super grupos Authority e Planetary, de Warren Ellis (que descreve o primeiro grupo como sendo um grupo de vilões que enfrenta vilões), o super-herói Invincible de Robert Kirkman (notório pelas cenas gráficas de violência) e a desconstrução The Boys, de Garth Ennis – todos envolvendo heróis que ou matam abertamente, ou mataram  – ou caras com superpoderes que se aproveitam da imagem de super-heróis.

 

A moralidade do não-matar e de matar

 

Em 1996, a escalação da violência nos quadrinhos foi questionada abertamente na minissérie Reino do Amanhã, de Alex Ross e Mark Waid, situada em um futuro distópico onde a popularidade de “heróis que matam” deixava o mundo à beira do apocalipse.

 

Uma das questões levantadas pela série da DC era a escolha entre o homem que mataria e o que não mataria, personificada pelos heróis Super Homem e Magog e a decisão de Magog de executar o Coringa. Outra era o perigo representado pela população super-heróica – e o dilema moral entre matar todos os meta-humanos para salvar a humanidade ou não matar os meta-humanos e arriscar destruir o mundo.

Magog lamenta a escolha pelo homem que mataria. Arte de Alex Ross.
Magog lamenta a escolha pelo homem que mataria. Arte de Alex Ross.

Avançando para os anos 2000, outras três histórias levantavam questionamentos sobre se um herói deve ou não matar. Escrita por Joe Kelly, What’s so Funny About Truth, Justice and The American Way? botava o Super-Homem – em sua fase mais “escoteiro” – contra um pastiche da Autoridade de Ellis chamado “A Elite”. Lidando com “heróis” que não tinham remorso em matar, dar golpes de estado ou ameaçar a população, o último fillho de Krypton trata de dar a eles um gosto do seu próprio remédio – sem usar realmente de força letal – para explicar porque aquilo nada tem de heróico.

 

Em 2005, Judd Winnick trouxe o segundo Robin, Jason Todd, de volta à vida na história “Under the Red Hood”. Morto pelo coringa em 1988 na célebre “Morte na Família”, Todd sequestra o vilão e o espanca como o mesmo fez com ele. Quando seu antigo mentor intervem, Todd levanta uma questão importante: por que o Coringa ainda está vivo? Winnick aborda duas questões importantes com essa cena. A primeira é se o Batman é ou não responsável pelas ações daqueles que ele poupa. A segunda vem na resposta do Batman – afirmando que ele já pensou em matar o Coringa, mas fazer isso seria fácil, e parar depois disso é que seria difícil – é a facilidade de usar um precedente para o uso da pena capital.

Dentro deste mesmo espírito vem o terceiro caso desta lista, abrigando múltiplas edições do Homem-Aranha paralelas ao evento Guerra Civil, de 2006-2007. Após as desastrosas ações de Norman Osborn em um evento diplomático com os Atlantes, a então diretora da S.H.I.E.L.D. Maria Hill levanta uma das perguntas mais cínicas, mas ao mesmo tempo importantes do universo Marvel: quão responsável pelas mortes que Osborn causou o Homem-Aranha é? Hill argumenta com base no número de vezes que Parker poderia ter dado um fim no Duende Verde de uma vez por todas, e como Osborn sempre escapa à justiça. Mas a questão na verdade é mais profunda: até que ponto a vida de Osborn – e o fim dela – não seria uma obrigação moral do Aranha dado que a persona do Duende existe somente para matar o Aranha?

Parker sufoca Thoomes. Arte de Scott Eaton
Parker sufoca Thoomes. Arte de Scott Eaton

Durante o mesmo ciclo de edições, após a quase morte da Tia May, Parker fez seu próprio questionamento moral sobre tirar vidas com Adrian Toomes, o Abutre, atacando-o em seu quarto do hospital e o sufocando com um travesseiro para “lembrá-lo do valor da vida”. Toomes, em estado terminal após um derrame, então cogitava a eutanásia. Se o que o Aranha fez foi um favor ou uma tentativa de homicídio é dificil dizer – só que levou Toomes a, por um tempo, tentar por sua vida em ordem e compensar seus crimes.

 

Há uma pergunta importante que é ignorada em quase todos esses debates: quem é que define quem é o “cara bom” e o “cara mau”? Se perguntarmos para, digamos, Frank Castle, meio mundo é digno da pena capital. Se perguntarmos para o “cidadão de bem”, teremos respostas das mais variadas. Levantar esse debate com base em casos específicos é até fácil. É como discutir pena de morte com base em serial killers. Mas, como levantou o Batman-via-Winnick… onde isso para?

 

O vilão auto destrutivo: contornando o problema

 

Como todos devem bem saber e ter notado a essa altura, super-heróis “não matam”. Mas como também devem saber, os vilões de filmes de super-heróis não tem a maior taxa de sobrevivência do mundo. Em grande parte dos filmes, se tem heróis que não matam (para preservar a regra não dita dos quadrinhos) e vilões que morrem. Isso desde os anos 90, com a segunda metade da série cinematográfica do Batman. A continuidade da produção cinematográfica escancararou o problema, movido por questões de ordem prática. Com a exceção de Loki (Tom Riddleston) e Zemo (Daniel Brühl) nenhum dos vilões dos filmes da Marvel sobreviveu até o fim de seus filmes; O mesmo ocorreu com vários dos membros da Irmandade dos Mutantes nos filmes dos X-Men, com os vilões da primeira série de filmes do Homem-Aranha e com grande parte dos vilões tanto da série de filmes do Batman iniciada por Tim Burton (Salvo por Mr Freeze e Hera Venenosa) quanto da dirigida por Christopher Nolan.

 

O padrão é simples: em grande parte dos filmes de super-heróis, os vilões, ao invés de serem presos para retornarem mais tarde nos quadrinhos… são eliminados por suas próprias ações. As duas encarnações do Duas Caras morreram em queda, um empurrado, outro na ganância para recuperar sua moeda peculiar; O Duende-verde de Willem Dafoe, em uma cena tirada dos quadrinhos, morreu prensado por seu próprio planador. Chicote (Mickey Rourke) morreu em um ataque suicida. O Caveira Vermelha (Hugo Weaving), Ronan o Acusador (Lee Pace) e Malekith o Maldito (Christopher Eccleston) foram todos destruídos pelo poder daquilo que tanto cobiçavam, embora no caso de Ronan este poder tenha sido usado pelos heróis. Ossos Cruzados (Frank Grillo) morre em Guerra Civil fulminado por um colete explosivo; Arnim Zola (Toby Jones) é destruído por um míssil enviado por si próprio; em uma maneira cômica de poupar o herói da responsabilidade, Bane (Tom Hardy) é morto pela Mulher Gato (Anne Hathaway) com um míssil na cara em The Dark Knight Rises, enquanto sua versão anterior, interpretada pelo lutador de luta livre Robert Swenson (em Batman e Robin) morre (possivelmente) caindo de uma torre.

Ossos Cruzados: um homem-bomba.
Ossos Cruzados: um homem-bomba.

Isso quando o herói não pode se eximir da culpa por causar a morte do vilão indiretamente: Em Homem-Formiga, o vilão Darren Cross (Corey Stoll) morre esmagado por seu gerador Pym sabotado, fulminado por sua criação como resultado indireto das ações do herói. Em Homem de Ferro, o maquiavélico Obadiah Stane (Jeff Bridges) é eletrocutado com a sobrecarga do reator arc, manobra que visava destruir as duas armaduras – mas sua morte em si é acidental, causada por sua queda dentro do reator explosivo. Em O Espetacular Homem-Aranha 2, Electro (Jamie Foxx) é destruído em uma sobrecarga elétrica que pode ou não ter matado-o.

 

Uma realidade da produção cinematográfica é que atores são caros. Manter os personagens para cameos e pontas custa caro, e devido a possibilidade de um filme fracassar, surge a importância de se dar um final “conclusivo” ao vilão, sem deixar “pontas soltas”. Ao mesmo tempo, fazer com que o herói mate-o, dependendo do personagem, pode dar a impressão de que o herói não é “tão heróico assim”. Portanto usa-se e abusa-se de “trapaças” deste tipo, como forma de “preservar” a moralidade pela qual o herói é conhecido.

Curiosamente, essa mentalidade parece não se aplicar a vilões “menores” e capangas, mortos em grandes números por heróis que não demonstram remorso algum. Isso é particularmente notável nos anti-heróis de Guardiões da Galáxia, nos filmes dos X-Men (que contaram até com personagens com nome sendo mortos com direito a piadinhas – Groxo que o diga) e de forma mais gritante, no Batman de Ben Affleck em Batman V Superman, que não se acanha em causar mortes por danos colaterais (curiosamente, o Batman de Michael Keaton se acanhava ainda menos em causar mortes – antes de ser repensada pelo infame Joel Schumacher, a série de filmes do Homem-Morcego dos anos 90 trazia um Batman que matava a sangue frio, com um tom muito parecido com o das primeiras edições do personagem, quando ainda copiava o Sombra.)

 

Claro, alguns filmes arranjam trapaças para lidar com essa questão: em Os Vingadores, o problema dos capangas trucidados foi resolvido fazendo o exército de Loki ser composto por ciborgues sem mentes individuais, enquanto em sua sequência, A Era de Ultron, o problema foi contornado fazendo os vingadores enfrentarem duplicatas robóticas do vilão Ultron. Já em Homem de Aço a solução para o exército de Zod foi a mesma usada em muitas histórias do Super Homem: trancar tudo na Zona Fantasma e fingir que isso não é uma execução.

 

Quem escapa das oscilações deste padrão é o Wolverine: seus vilões, consistentemente, são mortos diretamente por ele, seguindo a notória falta de preocupações morais do personagem.

 

Morte em collant colorido

 

A morte – e o direito de tirar uma vida – são temas complexos. Assim como a maneira com a qual a humanidade e diferentes sociedades lidam com a questão mudaram com o tempo, os super-heróis mudaram sua abordagem quanto à morte ao longo dos anos. Como em várias questões, os Super-Heróis são um espelho para a sociedade e os debates que a cercam – embora quanto à morte, as questões mercadológicas tenham uma força peculiar.

 

Enquanto a disposição para matar dos heróis caiu ao longo dos anos, uma outra questão que merece discussão é a disposição editorial para matar heróis – isto é, aqueles heróis da lista C para baixo – e para fazer com que vilões matem vilões menores. Mas isso é uma discussão mercadológica e narrativa, não ética.

 

Em essência, o que se questionou ao longo dos anos nas histórias de super-heróis é se uma pessoa tem o direito – e quando ela tem esse direito – de tirar a vida de outra pelo bem maior. É um debate relevante, do qual a ficção não deveria se acanhar… mas que talvez devesse ficar sob os cuidados de gente mais respeitável do que um bando de adultos correndo por aí fantasiados.

 

*Qualquer discussão suscitada por essa conclusão foi jogada no lixo quando a tal Force Works foi feita só de anti-heróis anos 90, e Stark foi revelado como um vilão no ano seguinte.

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