Democratização da Mídia – NÃO ENTRE EM PÂNICO #27

Capa - Democratização da Mídia
Capa Não entre em Pânico 27 - Democratização da Mídia

Algumas reflexões sobre a Democratização da Mídia

Pensando sobre nosso país, acho um tanto quanto curioso o fato de que, depois de 30 anos do final da ditadura, ainda não tenhamos a noção de que o acesso aos meios de comunicação é um direito e não um produto. Se pensarmos bem, os militares, na época da ditadura tinham essa noção muito bem esclarecida, uma vez que estabeleceram a censura como uma das principais formas de regulação social. Nenhuma novidade até ai, já que esse modus operandi é bastante comum a qualquer regime ditatorial. Contudo, o que me inquieta é como essa noção foi perdida ao longo das décadas que se sucederam, ao ponto que hoje, a discussão sobre a Democratização da Mídia tenha ganhado uma aura nefasta que remete a ideia de o estado quer manipular aquilo que se veicula no país.

Primeiramente é interessante lembrar que o estado já regula uma série de outros direitos sociais, como por exemplo a educação. Há diversas regulamentações que definem o que, como e quando os conteúdos serão lecionados, quais profissionais farão essa mediação, quanto tempo isso levará, qual o formato em que isso se dará, quais os critérios de progressão dentro do sistema e uma série de outras coisas. Resumindo, grosso modo, pode-se dizer que o estado brasileiro tem total controle sobre a educação. Se ele tem poder de definir formato, conteúdo e vias de mediação, logo ele tem um controle muito grande sobre esse direito. Mas por que não dizemos que o estado manipula a educação? Tenho minhas críticas ao sistema de educação brasileiro, e as fiz neste artigo, mas não acredito que a saída seja tratá-la como um produto. Há efeitos a serem pensados sobre quando algo deixa de ser regulado pelo estado e passa a ser regulado pelo mercado, pois tudo que é regulado pelo mercado busca formas de ser vendido, busca a satisfação.

Se a educação não fosse um direito, ou seja, se ela não fosse regulada pelo estado democrático, poderíamos ter uma educação facultativa, onde só quem pudesse pagar por ela teria acesso. Esse é um cenário possível, no qual eu não acredito muito. No que eu mais acredito é que todos teriam acesso, só que a sistemas de educação muito distintos. Os mais pobres teriam acesso a uma educação voltada ao trabalho, para não dizer a servidão. Os mais ricos, uma educação de qualidade, ampla e diversificada. Não digo que nosso estado atual é totalmente diferente disto, mas certamente a regulação do estado contribui muito para que as condições sejam menos desiguais. Voltando ao ponto inicial da argumentação, por que não dizemos que o estado manipula a educação? Bom, pelo simples fato que a regulamentação da educação foi feito por meio de um sistema democrático, que contou com uma ampla discussão e a participação de diversos setores da sociedade. Resumindo, a educação está submetida a lei, construída de forma a atender as demandas coletivas da sociedade, não ao desejo do governo. Essa é a diferença básica.

Talvez o ponto principal do debate seja essa ideia de manipulação, vendida pela mídia atual, que obviamente tem interesse em preservar o status quo. Vou tentar demonstrar como o sistema atual é que manipula a informação, muitas vezes de maneira sutil ao ponto de parecer imperceptível.

 

A Mídia e os Negros

A questão étnica no Brasil certamente é mais complexa do que esta relação. Não posso dizer que a mídia em si gera a discriminação social contra os negros. Mas certamente contribui fortemente para que isso se mantenha. Em um país como o nosso, de maioria negra, o que é retratado na TV principalmente é uma minoria branca. O preconceito étnico em nosso país se faz também por outras vias. A mídia escolhe mostrar os negros criminosos ou marginalizados, em programas policiais, que constantemente associam a imagem do negro a condição à margem. Justificam isso dizendo que mostram a realidade nua a crua do país. O que eles deixam de mostrar é como a realidade chegou a ser configurada desta maneira, de como o processo de abolição da escravatura continuou deixando os negros segregados e de como a mídia reproduziu essa discriminação desde aquela época. Hoje se um parte dos negros está na favela, à margem, não é obviamente por conta de suas características étnicas,  mas pela discriminação que sofrem desde sempre. Hoje se um negro tem dificuldades de se colocar no mercado de trabalho, de conseguir uma posição de confiança ou de ser tratado com respeito, certamente a maneira como a mídia tem trabalhado tem parte nisso. Se hoje, você que é branco, tem receio quando um homem negro se aproxima de você, saiba de uma coisa, a mídia te manipulou e te fez acreditar que a índole de uma pessoa tem relação com a cor de sua pele.

 

A Mídia e o Ódio à Política

Um dos maiores desserviços que a mídia faz pelo país é a associação frequente da política à corrupção. Do jeito que as coisas são expostas, parece que a corrupção é algo inerente a política, ou até que não existe politica sem corrupção. Por mais que tenhamos muitos casos de corrupção dentro da política, ideia da generalização dela é muito perigosa e contraprodutiva. É preciso separar o joio do trigo, entender que sim, existem muito políticos envolvidos com escândalos de corrupção, mas que também existem pessoas que fazem seu trabalho e lutam pelo povo brasileiro. A generalização da corrupção cria um sentimento de ojeriza no brasileiro pelo assunto, parece que os problemas políticos da sociedade são impossíveis de serem solucionados e que tudo está fadado ao fracasso, já que não há meios de se vencer a corrupção. Isso leva ao brasileiro a não ter o mínimo de entendimento do que se trata a política, e coisas básicas como a função do executivo, do legislativo e do judiciário,  as competências  dos estados, dos municípios e da federação, ou até mesmo o que é um voto válido e um voto inválido, são questões difíceis para a maioria dos brasileiros. Assim, sem o mínimo de conhecimento, fica muito fácil manipular a informação. Não há questionamento, e se há, é visto como algo parcial. Aliás, não vou me aprofundar nisto, mas só pra constar: Não existe imparcialidade, toda visão é parcial, inclusive a da mídia. É preciso buscar várias fontes para se ter alguma ideia do que de fato está acontecendo. Voltando ao foco, interessa a mídia que o povo seja despolitizado. Assim sendo, ela tem o poder de determinar sob qual ótica os acontecimentos serão apreciados. Não há uma distorção grosseira dos fatos, mas há sim, uma sutil manipulação, muito por omitir fatos. Muito se fala do PT na lava-jato, e pouco do envolvimento de outros partidos (PP, PMDB e PSDB por exemplo) e menos ainda do envolvimento de grupos de mídia. Isso leva a um conceito errado: De que a escolha não faz uma grande diferença, quando na realidade faz toda a diferença.

A Mídia Ninja

Nos protestos de junho de 2013, até certo ponto, os grandes veículos de mídia davam pouquíssimo espaço para as manifestações e noticiavam o movimento de uma forma bem negativa. A partir do momento em que os vídeos da manifestação na internet começaram a questionar a suposta realidade e imparcialidade dos fatos, e a polícia intensificou a violência contra os manifestantes, incluindo como alvo a própria impressa, os veículos se realinharam e começaram a mostrar um pouco mais do que realmente estava ocorrendo nas manifestações. Aliada aos interesses do estado, a mídia mostra aquilo que interessa a quem a financia, não aquilo que é notícia de verdade. Neste sentido, surgem iniciativas como a mídia ninja, que buscam fazer algo para trazer um conteúdo mais plural aos veículos de comunicação.  Acho que eles se definem muito bem quando associam as conceitos de “narrativas independentes e jornalismo e ação”.  Pois é justamente isso que se trata uma mídia democratizada. Não é exterminar as narrativas atuais, mas dar espaço para outras perspectivas e deixar que o espectador decida qual é a narrativa que ele quer acompanhar. Isso é um processo absolutamente inevitável, principalmente com a internet. Acontecerá independentemente, mas a passos lentos. A democratização da mídia é uma discussão que modernizaria muito a maneira como a comunicação de massas no país funciona. Não há interesse político para que ela ocorra neste momento, já que isso poderia acarretar numa grande mudança de paradigmas para a sociedade brasileira. É preciso obviamente fazer uma ampla discussão em torno dela, garantir que o processo seja feito de maneira democrática. Certamente é uma das pautas mais fundamentais para o avanço da social, diminuição dos preconceitos e aumento da discussão saudável.

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