NÃO ENTRE EM PÂNICO #26 – Sonhos

Dilemas, enigmas, paradoxos… São parte de minha rotina atualmente. Escolhas nada óbvias, onde não se escolhe entre perder ou ganhar, só entre perder isso ou aquilo, e nem se tem muita certeza de que realmente só isso ou só aquilo será perdido. Não há outras hipóteses possíveis: Ou estou acertando muito e indo por um bom caminho, ou estou indo direto para o buraco. Não existe um caminho do meio. Como posso saber disso? Na verdade não sei, só sinto que é isso.

Um vez sonhei que estava em uma prisão muito grande, que ficava enterrada sob a terra. De dentro dela eu podia ver a luz do dia brilhando por um pequeno buraco no teto da construção. Eu tinha que conseguir fugir de lá, e por algum motivo irracional, decidi fazer isso indo cada vez mais para o fundo da construção. Mesmo a luz estando ali o tempo tudo, eu queria ir cada vez mais para fundo, mais para o buraco. Me deparei com algumas barreiras, que para minha surpresa, foram fáceis de serem transpostas. Até que cheguei em um grande teatro macabro. Monstros encenavam algo no palco e eu tive que derrotá-los. Um a um, eu fui subjugando-os e levando as bestas à derrota. Até que o último deles se apresentou. Era a morte em pessoa. Simultaneamente, um imenso cronometro no fundo da sala começou uma contagem regressiva. Havia tempo suficiente para derrotá-la sem problemas, mas todas as minhas tentativas falharam miseravelmente. Quando o cronometro chegou a zero, acordei. O tempo é inexorável, pensei, bem como a morte. Não há vitória sobre eles. É preciso fazer o tempo ser suficiente para poder se ver livre desta prisão.

Outro sonho que tive, era sobre gladiadores. Estava em uma arena confrontando um imenso golem de carne podre e retorcida. Quem observava a cena tinha plena certeza de minha morte e do massacre que a antecederia. Todos aguardavam com paciência pelo banquete do golem, regado ao molho vermelho de meu sangue. Infelizmente tive que decepcionar a plateia, derrotando o monstro sem nenhum problema. Apesar de forte, seus movimentos eram lentos e previsíveis. Só esperei o momento certo e estoquei seu coração sem nenhuma dificuldade. Vitória minha. E novamente acordei. O mesmo sonho, pensei. Outros símbolos, mas o mesmo sonho. Continuo lutando contra grandes desafios, vencendo-os, mas continuo prisioneiro. Digo isso pois os gladiadores não são heróis, são prisioneiros lutando pela própria vida. É preciso lutar pela liberdade, não somente pela própria existência para deixar de ser um prisioneiro e se tornar um herói.

Algumas noites depois, sonhei que era um lobisomem. Não qualquer lobisomem, mas um que vivia em uma sociedade de lobisomens. Por isso, não tinha que esconder o fato de ser um lobo, já que todos nós éramos também. Havia porém um enigma a ser desvendado. Sabia-se que alguém naquela cidade podia se transformar em humano. E eu fui contratado para desvendar quem seria a tal aberração. Procurei evidências por todos os lados, interroguei dezenas de cidadãos e nada. Pensei: como eu poderia identificar tal criatura? Voltei a minha casa com esta dúvida, e resolvi parar para descansar naquela noite, olhei a lua cheia pela janela de casa e começou a transformação, me tornei humano. Acordei imediatamente ao me olhar no espelho. Eu estava procurando por mim mesmo o tempo todo? – Me indaguei. Mesmo assim, refleti: Continua sendo o mesmo sonho! Continuo prisioneiro, desta vez de uma imagem. Consigo entender que não sou ela, pois no sonho tenho a habilidade de me transformar em humano, mas não posso ser humano naquelas circunstâncias, não me permito. É preciso perder a imagem que se tem de si mesmo para poder ser quem você é. Caso contrário, ainda se é um prisioneiro.

Três sonhos que se tornaram verdadeiros pesadelos para alguém como eu. Me esforcei para tentar imaginar o que me diziam estas mensagens. Depois de muito pensar entendi que a grande questão era: Como se pode ser livre? Não acham?

Bom, também pensei que fosse esta a questão dos sonhos, mas então me atentei melhor aos detalhes e me questionei: Como alguém que desafia a morte, ou alguém que derrota monstros colossais, ou até então alguém que com habilidades únicas e especias pode ser um prisioneiro? Que prisão é está, cifrada por meus sonhos? Me lembrei das minhas hipóteses iniciais, que por alguma razão se associaram ao conteúdo destes sonhos, em especial do primeiro: uma prisão dentro de um buraco… Que buraco é este para o qual estou caminhando? Do que se tratam estes sonhos?

Não existe maior prisão do que ser infalível, imbatível ou especial. Em qualquer uma das possibilidades só há um escolha: Continuar sendo. É preciso enxergar isso para só ai escolher outros caminhos. Não existe liberdade maior do que a de poder escolher. Escolher ser menos do que suas expectativas, menos que seus critérios arbitrários de julgamento, menos do que você já se imaginou ser, menos do que esperam de você. Diminuir seu ser, perder a consistência da imagem e se contentar com a simples existência. Isso é algo real. É a transição de sonhos que nos acordam para continuarmos a sonhar, para simplesmente sonhos que nos acordam. E é hora de acordar.

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