Super-Heróis e Birdman – NÃO ENTRE EM PÂNICO #24

Capa Birdman - Não entre em Pânico

Depois de assistir Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância, 2015), uma reflexão antiga me veio à tona novamente: Qual é a necessidade de termos tantos super-heróis na cultura contemporânea? Estamos em uma época em que o cinema virou o grande palco da atuação desses esteriótipos. Antes disso nas HQs a cultura dos super-heróis já era bem forte. Falarei aqui um pouco disto, considerando esse universo algo do âmbito do masculino.

Enxergo os super-heróis como uma mitologia contemporânea. Eles são o que todo homem queria ser, pois tem todos os atributos valorizados pela nossa cultura, são fortes, inteligentes, íntegros, singulares, se sacrificam em nome de uma causa. Tem habilidades especiais únicas que os diferenciam de todo o resto da população. Ao mesmo tempo, tem que disfarçar isso tudo, se camuflar na multidão, serem normais, pois ao mesmo tempo que nossa cultura valoriza todos essas insígnias de poder, ela também repreende a satisfação de nosso desejo. Portanto, podemos ser especiais, só não podemos mostrar que somos, esta é a metáfora da identidade secreta. Dentro dessas premissas básicas, os autores criam seus heróis, flexibilizando uma ou outra regra, subvertendo uma lógica aqui e ali, porém, via de regra, esses são os super-heróis grosso modo, ideais exagerados de o que deve ser um homem, tanto que muitos usam a cueca por cima da calça, como forma visual de destacarem sua masculinidade.

Inicialmente, os heróis faziam muito sucesso com um público bem específico, os nerds. Isso faz muito sentido, pois é justamente a maneira que um nerd se vê, alguém único e especial, mas que não pode mostrar muito do seu talento. Atualmente não são só os nerd que consomem este tipo de narrativa. Hollywood viu o potencial dos filmes de heróis, talvez tenha até percebido que algo mudou em nossa sociedade, e por isso tenha investido tanto nas produções de filmes de heróis. Acho que esse sentimento nerd se espalhou por toda a sociedade de maneira geral, de perceber-se especial em alguma coisa mas de não poder demonstrar isso. Se pensarmos bem, todos nós temos algo em que somos bons, mas se nos vangloriamos disso, logo vem a repreensão social. Logo, a arte vem como uma resposta a isso, entrega algo para nos dar essa satisfação pela via de uma fantasia.

Em Birdman, vi várias críticas aos filmes de heróis presentes no roteiro, mas ao contrário de muitos, não fiquei incomodado, mesmo sendo fã dos filmes de herói. Acho que ao mesmo tempo em que essa crítica é feita, também há um lado que mostra como a sociedade em geral quase que necessita disso. O protagonista da trama mostra bem isso,  ele é um ator famoso por seu papel como o super herói Birdman, que é atormentado em vários sentidos por isso, tanto pela expectativa do público que insiste em associar ele ao papel, quanto dele mesmo, que também deseja ser como o herói. As críticas que li falam que o filme trata do cotidiano de um ator. Discordo totalmente disso, haja visto que isso é só a superfície da trama. A metáfora presente é que somos todos atores, tanto que Mike Shiner (Edward Norton) diz claramente que no palco é o único lugar onde ele não precisa fingir. Pode até haver algumas identificações em cenas cotidianas, mas o filme trata de algo que vai muito além disso. Trata do risco que é viver aquilo que se deseja, risco até de perder um pouco da sua própria sanidade.

Vivemos em um mundo absolutamente massificado, onde mesmo sabendo que somos únicos é difícil se convencer disso, quanto mais de vez em quando assumir alguns traços dessa singularidade e satisfazer minimamente este desejo de ser alguém. Birdman se mostra uma obra de arte, não pelas técnicas cinematográficas utilizadas, mas pela força de sua narrativa, que está o tempo todo levantando a bola de que queremos ser reconhecidos e amados, queremos no fundo ser um super-herói que possa andar por aí sem a máscara. Esse é o desejo de toda uma sociedade e a arte, aqui representada pelo cinema, não pode ficar aquém disso como dispositivo em lidar com o desejo do coletivo.

Aos artistas que criam esses personagens e histórias, acho que cabe uma grande responsabilidade. Como seres que estão à frente de seu tempo, na vanguarda da descoberta, é preciso trazer questionamentos para essas tramas, material mais denso e subversivo. E isso tem acontecido timidamente aqui e ali. O grande problema, no meu entendimento quanto aos filmes de heróis, é se aliarmos a produção artística totalmente as inspirações do mercado. Isso sempre produz resultados catastróficos, é necessário permitir alguma satisfação através da arte, mas não se pode fazer isso sem bom senso. Filmes de herói são uma rica ferramente para percebemos o alinhamento da nossa cultura em relação a certos ideias. Exigimos muito hoje, tanto que precisamos ser super-heróis para dar conta disso.

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