NÃO ENTRE EM PÂNICO #23 – Darren Aronofsky

Continuando a série de artigos sobre diretores de cinema, na qual eu falei anteriormente sobre Christopher Nolan, agora é a vez de Darren Aronofsky. Selecionei três filmes dele para tecer minhas considerações sobre seu modo de fazer cinema: π (1998), Réquiem para um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010).

Aronofsky faz filmes sobre a mente humana, para ser mais preciso, sobre a mente humana em situações extremas. Pessoas que estão se mantendo como podem na realidade, pois estão a beira de um colapso, são personagens recorrentes em suas tramas. O diretor retrata sempre o processo de enlouquecimento desses personagens de uma maneira muito interessante. Sequências de cortes rápidos e abruptos de imagens, acompanhados por uma trilha sonora sempre marcante são, no meu entendimento, sua forma de mostrar como vê o funcionamento desses personagens, fluxos contínuos de imagens aparentemente sem sentido, com uma aura megalomaníaca retratada pela música.

 

π (1998)

π, ou Pi, é um filme um tanto quanto difícil. Começando pelo nome. Sim, o título do filme é o número π (Pi, 3,14) e conta a saga de um matemático para encontrar uma ordem para nosso caótico mundo. É um filme de baixíssimo orçamento (cerca de 60 mil dólares, que pros padrões de Hollywood é quase nada) e por isso tem suas limitações técnicas. Nem por isso o filme deixa de ser excelente. A linguagem visual tão marcante de Aronofsky está bem definida já neste projeto. Pra quem não estuda a mente humana, fica um pouco difícil de compreender certas passagens, só é possível sentir a angústia imensa do personagem em meio a sua paranoia crescente. É um filme repleto de material metafórico, não é uma trama explícita. Você tem que quase decifrá-lo, é um filme para ser degustado e não consumido. O protagonista retrata uma busca desesperada por um ordenamento no mundo, faz parceria com a matemática mas não enxerga o quanto isso é impossível. Assim como Ícaro, voa muito perto do sol, a trama gira em torno dessa negação do impossível, semente para todo o conflito do protagonista. Recomendo muito para pessoas que tenham algum entusiasmos pelo cinema, pois não está dentro do padrão em que estamos acostumados a consumir cinema. Se você procura uma experiência dessas,  π é um excelente filme.

 

Réquiem para um Sonho (Requiem for a dream, 2000)

Réquiem é uma marcha fúnebre. Creio que o título deste filme não poderia ser mais assertivo. Trata de quatro personagens que aparentemente tomam caminhos diferentes para lidar com suas questões existenciais, mas que com o desenrolar da trama, se mostram vitimados pelo mesmo desamparo. Sonhos vazios, objetivos infantis, desejo sem limite. Conduzem os personagens a morte subjetiva, de maneira lenta e dolorosa. É disso que trata a trama. Destaco aqui a atuação de Ellen Burstyn, que está incrível. Ela interpreta o personagem principal dessa trama, no meu entendimento. Sara Goldfarb, uma dona de casa padrão, solitária, sem autoestima, que luta para arrumar uma razão para sua vida. Ela quer ser vista, reconhecida, amada. E caminha em direção a própria destruição na medida em que acredita cada vez mais no que oferecem a ela como formas de conseguir esse objetivo. Filme faz um fechamento épico ao som de uma trilha sonora absurdamente incrível, vale muito conferir.

 

Cisne Negro (Black Swan, 2010)

Acho que neste filme Aronofsky chegou ao equilíbrio perfeito entre um filme comercial e um filme artístico. Não que eu concorde com essa distinção totalmente, mas grosso modo, é isso. O cisne negro tem uma trama complexa com uma curva dramática muito acentuada, sem que seja algo por vezes algo desagradável ao público. Acho que essa sensação de algo desagradável e até mesmo uma certa aflição, acompanha o espectador ao assistir os filmes anteriores do diretor. Neste projeto, a coisa flui de maneira muito agradável até, mesmo com todo a tragédia de Nina (Natalie Portman). Pode-se dizer que é uma releitura de O lago dos Cisnes, feita com a linguagem de Darren. Não deixa de ser uma história sobre uma princesa presa num feitiço e buscando o amor verdadeiro para se libertar. Esses elementos estão presentes em Nina, sua relação as expectativas de sua mãe, e sua busca pelo amor. O que muda nisso tudo é a leitura do diretor, filmando o processo de enlouquecimento da protagonista neste percurso fantasioso. Destaco, como de costume, a conclusão do filme, que metaforiza todo o percurso de Nina na apresentação do lago dos cisnes.

 

Considerações

Junto com Nolan, Aronofsky faz parte de uma nova geração de diretores fazendo bons filmes em Hollywood. Acho interessante como ambos conseguem aliar filmes comercialmente bem sucedidos a produções com valor artístico. Minha crítica a Aronofsky se faz quanto ao desgaste de sua fórmula, acho que ele tem inovado, mas falta fazer coisas mais fora do lugar comum. Sabe-se muito bem o que esperar dele quando faz filmes sérios, talvez fosse a hora de surpreender mais o público, claro sem perder seu estilo.

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