NÃO ENTRE EM PÂNICO #19 – Há algo errado!

Tenho notado, e não é de hoje, que uma grande quantidade de pessoas ao meu redor, inclusive do meu convívio, vem sofrendo dos chamados “transtornos mentais”. Coloco este termo entre aspas, pois em parte tenho minhas discordâncias com a forma como são classificados os mais diversos fenômenos ligados ao adoecimento psíquico. Há uma ênfase muito grande em massificar esses fenômenos e classificá-los dentro de sistemas de saber muito rígidos. Até, por sinal, já abordei um pouco dessa questão do adoecimento psíquico em meu artigo sobre a depressão, que é, pelo menos ao meu redor, o mais comum deles. Abordo a mesma questão novamente, sendo um pouco mais amplo quando ao escopo, pois algo está me incomodando muito: Há algo de errado em nossa cultura.

Essa questão vem orbitando ao redor de vários trabalhos que eu tenho realizado durante minha jornada profissional e acadêmica. Antes de entrar no tema propriamente dito é preciso reconhecer algo, fazer uma ressalva: não podemos isentar o sujeito que sofre em nenhum momento disso que o faz sofrer, ele tem total participação em seu processo de adoecimento, pois cede a uma série de seduções culturais que contribuem para o seu adoecimento. A minha grande questão é que a lógica da nossa cultura tem alguns traços um tanto quanto sinistros nesses sentido. Outra ressalva importante é que em momento nenhum estou tentando esgotar a questão. Como de praxe aqui nesta coluna, a ideia é provocar.

 

A ideia de que tudo está disponível, basta querer:

Este é um dos traços mais marcantes de nossa cultura ocidental. Vende-se a ideia absurda de que tudo está de alguma forma disponível ao consumo, ao uso e ao desfrute. Existem produtos feitos e pensados para tudo, experiências prontas e empacotadas à venda no mercado, e soluções mágicas para as questões mais diversas. Isso gera uma sensação de impotência enorme quando, eventualmente por exemplo, nos deparamos com uma situação de frustração. Se você por acaso falha no processo de conquistar algo, ou se você não encontra algo que lhe agrade, ou ainda se você perde algo por mais irrelevante que seja, nossa cultura nos leva a crer que há algo errado conosco, pois tudo está disponível, basta querer. Se formos refletir sobre isso, há muito mais envolvido do que o querer em nossa realidade objetiva, muitas das situações acontecem por uma conjunção de fatores totalmente incontroláveis e imprevisíveis, que podemos aqui chamar de acaso, sem nenhuma conotação mística neste termo. O acaso está muito mais presente em nossa vida do que percebemos. É até por isso que essa ideia se fixou tão bem em nossa cultura. Acabamos por temer tanto o imprevisível e o incontrolável que criamos toda essa ilusão para dar alguma sensação de ordem nesse caos todo. O que me preocupa é que essa ilusão chega ao excesso e acaba por criar uma legião de pessoas frustradas com o acaso.

 

A ideia de que tudo se sabe:

A ciência certamente é hoje muito superestimada. Os verdadeiros cientistas sabem exatamente do que estou falando. Vende-se uma ideia de que a ciência sabe ou explica tudo, e isso é uma grande mentira. O método científico funciona e nos ajuda muito. Porém ele não é capaz de explicar tudo, ele “pinça” algo bem específico e nos retorna informações também muito precisas sobre aquelas condições e situações. Com isso é possível ter certa segurança de que uma certa hipótese lógica é verdadeira até o momento ou não. Só isso. Não menosprezo em momento nenhum a ciência, muito pelo contrário, acho ela a melhor alternativa e talvez a única para que o pensamento e a percepção não sejam enganados por seus próprios processos de funcionamento. Por isso nem critico a ciência em si por ter se tornado um discurso com status de verdade na cultura ocidental, mas atualmente essa é a ideia que se vende, e as pessoas acreditam de maneira cega e irrestrita em tudo que lhes é vendido como verdade científica. Tudo se generaliza, e daí a baixa de serotonina gera a tristeza, o sistema que libera dopamina gera as dependências mais variadas, e o TDAH só se trata com Ritalina. Essa relação de causa e efeito que está presente no método científico de alguma forma, mas que é altamente simplificada e reduzida ao extremo quando chega as pessoas como a verdade da ciência, torna a vida uma droga. As pessoas tem a sensação de que nada lhes é singular, que tudo que elas sabem, aprenderam por suas próprias experiências ou vivenciaram não tem valor. Ou você compra um discurso pronto, que na maioria das vezes é o científico, ou você, na falta dele, compra o discurso de senso comum carregado de moralismo. Por vezes perco a vontade de discutir assuntos com as pessoas. Se você já conhece o discurso científico e o moral sobre determinado assunto, nada te surpreende. A coisa que mais me deixa feliz numa conversa as vezes é um simples “não sei”. E isso é coisa rara atualmente. Opiniões singulares, fruto de trabalho de pensamento ou um simples “não sei” são pecados capitais dentro de uma cultura onde tudo se sabe. A verdade do singular se perdeu, virou algo menor. E o que me preocupa nesse sentido é que numa cultura onde o singular não tem valor, não há espaço para “o que eu quero” só para “o que querem de mim”.

 

A ideia do eu sou…

Vou ser bem direto com esse tópico: Se você acha que é alguma coisa, você está redondamente enganado. Nossa sociedade exige de nós uma série de identificações, basta vocês se fazerem as seguintes perguntas: quem sou eu? o que eu faço? Como defino meu jeito? Como defino minha etnia? Qual meu alinhamento político? e por aí vai… Compramos a ideia de que somos realmente isso, que essas palavras que respondem essas perguntas de alguma forma nos definem. Damos um grande valor para elas. Lutamos por elas, nos esforçamos por elas, matamos por elas, amamos por elas… E na verdade não somos nada disso. Sempre há pontos em que essas definições vacilam e se contradizem. Nos prendemos a essas definições e sofremos quando elas não correspondem as nossas expectativas. Quanto mais nos prendemos a esses rótulos, mais sofremos por conta deles. Eles são necessários, mas novamente o problema é o excesso. Nossa sociedade reduz tudo aquilo que somos a pequenos rótulos, pelo mesmo motivo que já citei anteriormente: Somos totalmente imprevisíveis e incontroláveis é preciso algo para dar conta desse ser. Isso faz com que tenhamos a ilusão de que uns são melhores que outros, seja pelo lugar onde nasceram, pela cor da pele, pela opção sexual… De que existem minorias e maiorias, e uns tem mais poder que outros. Não estou negando os efeitos disso, o preconceito, a discriminação e as diversas fobias às pessoas ditas “diferentes” são reais, questiono o argumento base: Achar que a cor da pele, por exemplo, diz muito sobre o ser que ali está, beira ao absurdo ao meu ver, pois é uma informação que não determina nada sobre a quem é aquele ser, só determina a partir do momento em que muitas pessoas acreditam que isso é algo que o torna diferente. Uma cultura que acha que tem as respostas para a pergunta “quem sou eu” gera tantas discriminações, ódio e agressividade que as pessoas chegam ao extremo de se sentirem sozinhas em um mundo de mais de 6 bilhões de pessoas.

 

O que fazer em relação a isso?

Depois de entender um pouco sobre como a nossa cultura por vezes nos deixa em maus lençóis, é possível sim por vezes evitar cair nessas armadilhas. Relativizar as certezas culturais que aprendemos durante nossas vidas é sempre um exercício saudável, e por vezes muito necessário. Mas não posso ser hipócrita em dizer que isso é o suficiente. Acho que não tenho respostas para essa pergunta. Tenho encontrado alguns caminhos para lidar com isso, tateando aqui e ali. Mas, nada que seja possível de explicar. Dou esses primeiros passos neste sentido ainda, refletindo sobre nossa cultura e seus efeitos em nossas vidas.

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