Cyberwar – NÃO ENTRE EM PÂNICO #18

Para quem está sintonizado com os acontecimentos recentes, essa notícia já é velha, mas creio que boa parte das pessoas não tenha tido acesso a ela, pois, estranhamente, a mídia tradicional não dá muito importância para os acontecimentos que envolvem a internet. Nesta noite de terça-feira (09/12/2014), o site Pirate bay, o mais notável dos indexadores de torrent do mundo, sofreu uma batida policial e foi fechado em Estocolmo, na Suécia.  Isso me entristeceu profundamente, uma vez que, legalmente, o site estaria protegido desse tipo de ataques, já que a tecnologia torrent não guarda os arquivos protegidos por direitos autorais, só conecta as pessoas que possuem aquele arquivo em uma rede de compartilhamento de pessoa a pessoa para a troca dele. Mesmo sob esse argumento, mais uma vez o interesse comercial passou por cima da lei, forçando uma nova interpretação e o site saiu do ar e assim permanece até o momento em que escrevo esse texto.

Muito me espanta que esse acontecimento não tenha sido amplamente noticiado, pois é da maior importância para o momento em que estamos vivendo. É preciso entender qual é esse momento e porque essa discussão é tão fundamental para preservar o modo de vida contemporâneo e dar espaço para que a invocação apareça. Vou usa um termo aqui para definir esse conflito: Cyberwar.  Basicamente, esse conflito compreende uma resistência à uma tendência de colocar os interesses do estado e da iniciativa privada à frente dos direitos da sociedade civil. Esta guerra que está sendo travada no ambiente da internet, justamente para garantir que os conceitos chaves que fazem dela hoje uma aparato tão democrático e tão fundamental para a liberdade se mantenham. A cyberwar é complexa e é preciso ter em mente alguns acontecimentos e conceitos para poder melhor compreende-lá. Vamos tentar explorar um pouco disto.

 

O Napster

Talvez esse seja um dos marcos iniciais para a discussão e conflito que compreende hoje a cyberwar. Em 1999, foi criado um serviço revolucionário de compartilhamento de músicas em formato .mp3 chamado Napster, um projeto de autoria de Shawn Fanning e Sean Parker. O Napster foi algo tão revolucionário que mudou a maneira como se consome música até hoje. Se tratava de um serviço que compartilhava arquivos com outras pessoas de maneira muito fácil e eficiente através de uma tecnologia chamada p2p (peer-to-peer, ou par a par). O serviço quebrou o esquema das gravadoras e irritou muita gente na indústria do entretenimento, tanto que durou só até 2001, quando não resistiu a pressão que sofria e aos processos . O Napster foi o que alavancou de todos os serviços de compartilhamento p2p, como o Kazaa, Emule e o Morpheus e inspirou certamente a criação do iTunes, serviço extremamente bem sucedido de vendas de músicas da Apple, pois introduziu esse conceito de entregar as faixas de música separadamente. Nesta época o conceito sobre o Napster era claro, ele estava sim cometendo um crime, já que estava lucrando com a música dos outros. Porém, hoje sabe-se que o Napster foi fundamental para questionar as gravadoras sobre o modo pelo qual elas estavam explorando o mercado consumidor. Nesta época só era possível consumir música comprando o CD do artista, que custava uma fortuna, pagando por uma série de músicas que não lhe interessavam. O sucesso do Napster talvez se deva ao fato dele entregar uma experiência de consumo muito superior e de graça ainda por cima. Talvez se Fanning e Parker tivessem deixado a ideia de lado por causa dos problemas legais que certamente sofreriam, estivéssemos ainda nas mãos do que as gravadoras quisessem nos entregar. O exemplo do Napster é fundamental para entender como a pirataria tem seus efeitos benéficos e pode impulsionar verdadeiras revoluções. Esse caso é particularmente um dos meus favoritos, já que também marca o início de um pesamento cada vez mais presente na internet: Por que o compartilhar conteúdo é crime?

 

A informação quer ser livre

Desde muito antes do Napster as pessoas pirateiam coisas. Mix tapes, na época da fita k7 eram o grande exemplo disso. Emprestar ou xerocar livros é outro grande exemplo disso. Não é errado compartilhar conteúdo, está no cerne do ser humano querer compartilhar coisas que lhe marcaram e não seria diferente com as experiências ligadas ao entretenimento. O que aconteceu com a internet é que isso se potencializou muito. Principalmente porque as empresas não conseguem entregar um serviço de qualidade e com preço justo ao consumidor. Stewart Brand, cunhou a frase: A informação quer ser livre, justamente para ilustrar essa caraterística do ser humano de compartilhar suas experiências. E a indústria do entretenimento luta para manter a informação presa desde sempre. Muita coisa que é pirateada está completamente inacessível ao consumidor em determinado contexto. Seja pelo limitador financeiro da coisa, já que é cobrado um preço absurdo sobre qualquer peça de entretenimento, ou seja pelo acesso mesmo. Se eu vou hoje há uma loja de CD’s, posso apostar que não vou achar 90% das músicas que eu quero ouvir para comprar. Já se eu vou na internet, posso até descobrir músicas que eu nem sabia que eu queria ouvir. É uma experiência realmente muito superior ao que o mercado oferece. Isso só mostra a deficiência dos grandes coronéis da industria cultural em enxergar o que as pessoas querem consumir. Logicamente a pirataria é algo que prejudica a coisa como um todo, já que não paga o artista, por exemplo, mas é uma alternativa, ainda que imperfeita para as pessoas ávidas por cultura que não tem acesso a ela. Esse pensamento foi ganhando muita força com a internet, aliás, a internet é uma revolução não por criar coisas, mas por potencializar muitas das ideias revolucionárias. Além do acesso a cultura em si, a internet propiciou o acesso a outras informações que nos ajudam muito a entender a gravidade da questão.

 

O Wikileaks

No final do ano de 2006, foi fundado o wikileaks, por Julian Assange. O site tem como escopo permitir o vazamento de documentos altamente confidenciais sobre governos e organizações ligadas a esquemas de corrupção. O serviço foi essencial para que entendêssemos de uma vez por todas como funciona o pensamento dos governos e como diversos fatos são ocultados ou distorcidos para manipular a opinião pública. Assim como o Napster, o wikileaks irritou muita gente poderosa, pois permitiu, através de tecnologias como a rede TOR, que os documentos fossem vazados de maneira altamente anonimizada. Isso quer dizer que nem o próprio wikileaks seria capaz de rastrear de onde vieram as informações. Entre os vazamentos mais notáveis publicados no site, estão documentos secretos sobre a invasão do Afeganistão e a ocupação do Iraque, mostrando para a opinião pública qual era a verdadeira cara desses conflitos. A iniciativa de fazer vir a tona a verdade marcou muito a questão toda da cyberwar. Crimes de guerra, como a entrega de prisioneiros à torturadores e o assassinato de civis, inclusive de jornalistas da Reuters estavam entre as informações que vazaram. Isso não deixou o governo dos Estados Unidos nem um pouco feliz. Assenge esta até hoje exilado no consulado do Equador em Londres, e caso ponha o pé para fora, certamente sofrerá algum tipo de retaliação dos Estados Unidos. Ele é acusado informalmente de abuso sexual pela policia sueca, mas no fundo ele sabe que isso tudo é uma armação para que o governo americano possa colocar as mãos nele. O nome de Assange está envolvido também em uma controvérsia ética. Mesmo a intenção do site sendo boa, Assange permitiu que diversos documentos vazassem com conteúdos que colocariam a vida de diversas pessoas em risco. Isso fez com que o Wikileaks tivesse sua imagem muito manchada frente a opinião pública. Mesmo assim o serviço continua em funcionamento. O caso do wikileaks mostra como os governos são sistemas extremamente reativos e pessoais, que respeitam os direitos civis apenas quando lhes é de interesse. A percepção desses fatos e outras influências fizeram como que surgisse uma força para lutar contra esse tipo de tirania.

O Megaupload

Aproximadamente em 2009, foi criado um serviço de upload e download de arquivos pessoais chamados Megaupload, uma iniciativa de Kim Dotcom, que rendeu uma das maiores polêmicas da internet. Em 2012, o site foi desativado pelo FBI sob acusação de distribuição de pirataria e uma ordem de prisão foi executada para prender Dotcom. Isso fez com que as pessoas se revoltassem em todo o mundo e surgissem para o todo o mainstream grupos que lutavam pela liberdade na internet.

 

O contra ataque: Anonymous

Em um fórum de discussões online chamado 4chan, nasceu uma das iniciativas mais fortes contra a repressão na internet: O Anonymous. Inicialmente tudo era uma grande brincadeira, onde as pessoas começaram a interagir no fórum se identificando como Anônimos, criando memes, compartilhando piadinhas e etc… Com o tempo foi se criando uma cultura toda ao redor desse conceito e as ações ativistas iniciaram pouco a pouco. Inicialmente com brincadeiras e muito bom humor, utilizando as próprias produções da cybercultura para manifestar seus posicionamentos. A ideia de uma organização sem hierarquia, sem líderes, um movimento totalmente autorregulado e caótico conquistou muita gente e se viralizou, algo muito típico da internet. Como o Anonymous tem esse conceito de unidos por um divididos por zero, sem identificações pessoais, pré-requisitos e etc… É muito difícil conceituá-los. Mas é importante citar que eles estão envolvidos em diversas lutas pela internet ou que usaram a internet como meio. Além das revoluções da primavera árabe, podemos citar os movimentos de protesto contra o cerco a Assange, contra a prisão de Dotcom e inclusive as manifestações de Junho de 2013 no Brasil.

 

A Cyberwar em si

Depois de conhecer um pouco sobre os acontecimentos que precedem esse momento, e principalmente um pouco sobre os conceitos por trás desse conflito, é possível ter ideia da importância desse momento. Durante o século XX e XXI, e antes disso também, diversas guerras foram travadas em nome da democracia e da liberdade de expressão. A impressão que tínhamos, é que essa luta já era coisa do passado. A cyberwar é exemplo disso, continuamos a estar a mercê dos interesses de quem detém o poder. Seja pelo lobby que as empresas de Hollywood (MPAA) e a indústria do entretenimento em geral movem para criar leis para regular e censurar a internet, impedindo a inovação e tentando preservar um modelo arcaico de negógico delas, seja pelos governos que passam por cima de convenções e leis de guerra, invadem países e exterminam pessoas em nome de interesses privados, como foi o caso da guerra do Iraque. Seja pela perseguição de pessoas que denunciam isso. Esse conflito vai muito além do Pirate bay sair do ar, tem estreita relação com a tirania que está presente no ser humano e que deveria estar sendo combatida. Uma nova mudança está se instalando e certamente ela é irreversível, a questão é quanto tempo vai demorar para as pessoas perceberem que os tempos são outros, os valores são outros e devemos nos mexer para acelerar as mudanças tão necessárias para o avanço da civilização?

 

 

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