Sexualidade – NÃO ENTRE EM PÂNICO #16

Sexualidade

Já faz algum tempo que quero escrever algo nesta coluna sobre os tabus e preconceitos que rondam a questão da sexualidade. Como nunca me furtei de temas polêmicos, acho que já está mais do que na hora de falar sobre esse assunto. A sexualidade em si já é um tabu muito forte em nossa sociedade desde sempre. Penso que seja fundamental introduzir certo conhecimento científico sobre ela antes de avançarmos na discussão. Não farei deste texto um artigo acadêmico, só instigarei a curiosidade de quem possa se interessar pelo tema. Aliás se você se interessa pelo tema, recomendo o texto Minorias nos Quadrinhos: O casal gay (e robótico), do Pedro H. Leal, aqui do Metranca. E assim como no artigo sobre depressão, meu intuito aqui não é esgotar o tema, é só prestar um mínimo de orientação e dar minha opinião. Para fins de melhor entendimento do público em geral, utilizarei o termo sexualidade para me referir a dimensão que compreende sexo, gênero e orientação sexual, não o conceito psicanalítico.

Sexualidade é uma determinação genética ou cultural?

Esse é muitas vezes, um ponto de partida muito adotado por pessoas que tentam disseminar o ódio contra os homossexuais. Dizer que o comportamento homossexual não é algo natural, que é algum tipo de desvio da função natural do sexo: A reprodução.
Isso já soa ridículo pra quem conhece um pouco de biologia. Primeiramente é preciso dizer que existem diversas espécies de animais que apresentam comportamento homossexual. Posso citar aqui carneiros, golfinhos, bonobos, leões, cisnes, albatrozes… Essa gama de animais vai de vermes a primatas. Portanto temos aí uma evidência que transcende a cultura, e portanto aponta para a existência sim de tendências genéticas da expressão da homossexualidade. Não se pode dizer que a orientação sexual, é determinada somente geneticamente, porém é possível afirmar com certa tranquilidade que, não é somente a cultura ou a experiência humana que participa desta construção.
Outra coisa que se faz necessária questionar é: Quem foi que disse que o sexo necessariamente tem função reprodutiva? A reprodução é um função básica de todo ser vivo. E ela existe sem a necessidade de sexo. Alias, muito antes de existir o sexo, já havia a reprodução, já que evolutivamente o sexo é posterior a reprodução. Existem diversos seres vivos que tem reprodução assexuada, ou seja, que se replicam sem a necessidade da troca de material genérico. Podemos citar aqui o exemplo das bactérias, que se reproduzem simplesmente se copiando e se dividindo em dois. Portanto não se pode dizer que o sexo necessariamente está ligado a reprodução. Fazer sexo é antes de tudo uma maneira de aumentar a variabilidade genética. Trocar material genético basicamente para deixar a população de determinada espécie mais apta a sobreviver, é uma estratégia muito bem sucedida de sobrevivência.
Dito isso, é preciso também levar em conta que pensando da maneira como a biologia vê as coisas atualmente, ou seja, levando em conta a evolução das espécies por seleção natural, algo que é bem comum é a adaptação de certas funções originalmente ligadas a certas atividades para outras. Isso aconteceu com os ancestrais dos cetáceos, a família dos golfinhos e das baleias, que tinham patas com dedos articulados adaptadas para andar no solo e que ao longo de milhões de anos e seleções na espécie chegaram a desenvolver nadadeiras que servem para nadar. Se pensarmos desta maneira, veremos que hoje, o sexo para a espécie humana desenvolveu além da função reprodutiva óbvia, uma função social. Basta ver a quantidade de vezes que um ser humano faz sexo durante sua vida e compara com a quantidade de filhos que essas tentativas resultam. Essa adaptação, não é exclusiva nossa. Pode-se observar isso também nos bonobos, que também utilizam o sexo muito mais para a função social do que para a fim reprodutivo. Portanto, pensando nisso podemos avançar um pouco na questão da sexualidade humana.
Já que não é possível obter respostas concretas sobre a sexualidade humana somente na determinação genética, precisamos entender um pouco desta relação entre sexualidade e cultura. Há duas dimensões aqui que quero destacar: a de identidade de gênero e a de orientação sexual.
A primeira diz respeito em como o sujeito se define dentro das possibilidades que a cultura oferece na questão de gênero. Biologicamente, temos a possibilidade de sermos machos, fêmeas ou intersexuais. Já culturalmente essas possibilidades sem ampliam mais. Há uma certa distância entre aquilo que somos biologicamente e aquilo com o qual nos identificamos. Essa dimensão social da sexualidade damos o nome de gênero e ai, grosso modo, temos também três possibilidades, homem, mulher e transgêneros.
Outra questão totalmente diferente é a questão da orientação sexual, ou seja, se você se sente atraído por pessoas do mesmo sexo (homossexual), de sexo diferente (heterossexual) ou por ambos os sexos (bissexual). É importante dizer isso tudo para separar bem as coisas. Sexo, gênero e a orientação sexual são coisas totalmente independentes.
Logo chegamos a questão: É a cultura que determina a sexualidade? Certamente há influências, mas não podemos dizer que sim. da mesma forma como acontece com a genética, há indícios que apontam para um influência da cultura na determinação da sexualidade. Porém não há respostas em si que sejam conclusivas o suficiente para esclarecer a questão. O que é mais aceito hoje pela ciência é que a sexualidade é resultante da interação biopsicossocial. Que nascemos sexuados e existem diversas formas possíveis de expressão da sexualidade.

Sexualidade e preconceito

Algo muito comum na nossa sociedade é o preconceito contra a diversidade sexual. Só há duas possibilidades de sexualidade aceitas socialmente: ser macho-homem-heterossexual ou ser fêmea-mulher-heterossexual. Todas as demais possibilidades são discriminadas de muitas formas. De tempos para cá, há a mobilização desses setores da sociedade em busca de igualdade de direitos, e a luta pela afirmação da diversidade sexual tem ganhado corpo e representatividade. Mesmo assim, ainda há uma forte resistência de setores conservadores da sociedade, principalmente ligados a doutrinas religiosas, que insistem em disseminar o ódio contra as pessoas que destoam destes modelos de sexualidade aceitos. A questão da diversidade sexual na política levanta ainda mais a questão a laicidade do estado brasileiro, que para mim soa como uma ironia. Na minha opinião, é essa situação de desigualdade de direitos é sustentada principalmente pela ignorância das pessoas, que desconhecem quase que totalmente como se dá a interação de sexualidade, cultura e biologia.
Há tanto preconceito em torno da questão, que posso apostar como deve ter gente lendo esse texto e imaginando se sou ou não gay. Apesar de não ser gay, e achar triste o fato de viver em uma sociedade que se importa com tanto com isso, sempre me solidarizei com a causa. Só o fato de fazer isso, ter empatia pela luta, já recebi diversos daqueles olhares que toda a pessoa que já sofreu preconceito na vida sabe reconhecer muito bem. Aquele olhar de desprezo, cheio de ódio. Imagino como deve ser o fardo daqueles que passam a vida recebendo esse tipo de tratamento, ou pior, daqueles que fingem ser parte do padrão da sexualidade, mesmo não sendo. É muito irracional pensar que ainda vivemos em uma sociedade tão atrasada.

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