NÃO ENTRE EM PÂNICO #15 – Ativismo

Quem nunca lutou por alguma causa na vida? Seja nas injustiças triviais do cotidiano ou contra os absurdos da política brasileira. Penso eu que, todos compartilham, em certo nível esse sentimento de luta por algo, em maior ou menor escala. Há aqueles que dedicam suas vidas à certas causas e aqueles que nunca participaram efetivamente de nenhum movimento organizado, porém, está no cerne do ser humano resistir à algo, nem que seja à expectativa dos próprios pais, da família ou da sociedade. São nesses momentos de resistência que demarcamos o que nos pertence enquanto sujeitos, ou seja, o que nós somos.  Não há como se escapar disso, pois as expectativas são ambivalentes, logo, se tem que fazer escolhas, satisfazer há algumas e resistir a outras. Gostaria de começar minha argumentação desta forma para demostrar um pouco do problema que quero abordar neste texto: O posicionamento ativista na realidade brasileira atual.

Já participei de alguns movimentos sociais, e, o que tenho notado é algo que me entristece muito. É quase impossível dialogar dentro deles. Ou você grita as palavras de ordem certas, se comporta como o esperado e aceita os encaminhamentos, ou você se torna instantaneamente o inimigo. Essa lógica que opera, essa polarização do “ou está conosco, ou está contra nós” é algo muito presente em todos os movimentos que observo e acompanho. Vejo isso como uma tentativa de massificar o pensamento, e isso tem efeitos terríveis para o processo. A postura ativista se divorciou ao longo do tempo com o compromisso de mudar a o estado das coisas pela via da palavra, agora ela falta, sobrando assim a agressão e a violência.

Tenho algumas posições muito claras sobre certos assuntos polêmicos, como o aborto, o ensino do criacionismo, a união homoafetiva, o sistema de cotas nas universidades, o ideal de meritocracia, o uso de drogas, a prostituição, o sistema de distribuição de renda, dentre outros… Construí esses posicionamentos muito pela minha formação que passeia pelas ciências humanas, exatas e biológicas. O que destaco aqui é que nenhum desses posicionamentos veio ou foi fruto de alguma discussão ou da opinião de alguém ligado aos movimentos sociais relacionados a essas causas. Simplesmente porque quem luta não explica o motivo, ou não tem a mínima paciência de tecer uma lógica pelo qual está se lutando, nem sobre esse ou aquele é o posicionamento adotado. Qualquer questionamento nesse sentido, é recebido como um ataque e a discussão se torna atrito, disputa de poder ideológico. Não estou querendo que os ativistas sejam acadêmicos, mas que possam dialogar sobre suas ideologia de maneira tranquila e fundamentada, provocando nas pessoas que estão alheias àquela questão algum tipo de interesse.

Essa falta de diálogo entre os movimentos sociais, entre as pessoas que tem o desejo de mudar o status das coisas, criou uma pulverização de demandas, partiu a força de mobilização em diversas frentes que querem objetivos muito específicos. Logicamente é muito interessante que se tenham tais metas claras, porém desta forma não há força suficiente para lutar. O erro dos ativistas atuais foi ignorar o poder da empatia e da comunicação de conceitos como forma de mobilização. Simplesmente não temos grandes movimentos sociais atualmente que saibam fazer isso. O que vemos são as pessoas disputando quem é o mais ativista, discriminando pessoas que talvez não tenham tanta noção de como se faz um movimento social.

Cito aqui como exemplo do que estou falando, para que fique mais claro, as manifestações de rua que aconteceram em junho de 2013, contra o aumento das passagens de ônibus em são paulo. Não critico a causa do Movimento Passe Livre, pelo contrário, até simpatizo muito com ela, porém temos que admitir que eles não souberam e ainda não sabem comunicar seus conceitos e muito menos gerar empatia na população por aquilo que lutam. Pra quem se lembra ainda, o movimento era bem tímido até a reação extremamente violenta da polícia. A partir daí, isso gerou a empatia da população em geral. Tanto que até os setores mais conservadores, pra não dizer reacionários, da sociedade participaram da mobilização e foram duramente criticados por isso. Me lembro claramente do dia da manifestação aqui em Joinville, chovia muito, mas isso não foi o suficiente para espantar a multidão que tomou as ruas. Dentre as  palavras de ordem eram gritadas em coro estava o emblemático: “- Ei! Reaça! Vaza dessa marcha!”.  Na hora eu também gritei, mas depois me peguei pensando nisso. O que fazia um reacionário num movimento tão avesso a esses ideais? Qual o sentido de mandar as pessoas embora das ruas, já que elas são públicas e sai para manifestar sua insatisfação quem quiser e pelo motivo que quiser? Ser reacionário não é justamente ser contra a livre manifestação?

Desses questionamentos é que levanto a reflexão proposta aqui. Há uma identificação presente ai, como fica claro no  “- Ei! Reaça! Vaza dessa marcha!”. Entre esquerda e direita, entre revolucionários e reacionários, entre progressistas e conservadores, há sempre um componente de ativismo nesses conceitos. Como definir quem tem a razão ou quem está sendo influenciado ou alienado? Será que o caminho é adotar um rótulo e acreditar cegamente em tudo que ele agrega? Pois é isso que acontece quando o ativismo se desagrega da via da palavra, sem diálogo de nada serve o ativismo, é pura repetição do mesmo com outra pele. Para que se tenha o mínimo diálogo é necessário que se construam pontes. Reconhecer minimamente alguma legitimidade no discurso do outro, explicar seus pontos de vista, respeitar os diferentes alinhamentos, poder unir forças em questões específicas, ter um sentimento republicano. Isso é ser democrático, é não hierarquizar o saber, poder fazê-lo transitar e tomar corpo sozinho.

Iniciei este texto tentando mostrar que esse sentimento ativista é comum a todos. É preciso lutar e resistir para se tornar sujeito. Não podemos nunca é dizer que essa ou aquela luta é mais ou menos importante. Que se deve lutar por isso ou não por aquilo. Isso é tarefa própria e intransferível de cada sujeito. Podemos sim fazer pontes, entre aquilo que me move a lutar e aquilo que move outras pessoas a lutar. Destruí-las já é o estado natural das coisas, não podemos nos aliar a isso.

Gostou do conteúdo?


Curta a nossa fanpage no Facebook:  
e siga-nos no Twitter:  

O Metranca agora está aceitando conteúdo enviado pelos leitores!
Confira em: http://coletivometranca.com.br/contribua-com-o-metranca/

Veja Também

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*