NÃO ENTRE EM PÂNICO #14 – Educação?

Gostaria de tecer algumas considerações sobre um tema muito caro para mim, o sistema de educação formal no Brasil. Antes de dizer qual a situação da educação atualmente, seria interessante explanar um pouco sobre como é fundamental o papel da educação na vida das pessoas, depois comentar alguns dos principais problemas da educação no Brasil.

 

Qual a importância de uma boa educação?

Dentre os clichês que se houvem por aí nas reivindicações e debates políticos da vida, sempre que se fala em educação se fala em como ela é essencial e fundamental. Ressaltar a sua importância é um argumento mais básico de qualquer discurso dentro de temas políticos. Agora, já experimentaram fazer a seguinte pergunta: Por que educação é tão importante assim para mim? É um bom exercício para pensar qual foi a qualidade da sua educação. Uma boa educação te dá a consciência basicamente. Consciência de quem você é, de onde você veio, de até onde é possível chegar. Consciência do mundo que o cerca, das regras as quais ele está submetido. É disso que se trata o processo educacional. Na minha concepção, politicamente, a importância da educação está em dar acesso aos demais direitos do cidadão, e por isso ele é mais fundamental que os outros. Sem ela, o sujeito simplesmente não tem a consciência do mundo que o cerca e de suas falhas, e também, do pacto social e de suas falhas. O grande erro da educação no Brasil se situa no como se faz para dar consciência.

 

Educar não é catequizar  o outro

Uma boa educação te da consciência de quem você é, de onde você veio e de até onde é possível chegar. É importante esclarecer esse enunciado primeiramente para evitar distorções. Entendam a palavra consciência por alguma noção, alguma impressão ou alguma ideia. Nunca como um saber. Não é disso que se trata a verdadeira educação e é ai que patina, na minha opinião, o nosso sistema educacional formal. Há uma concepção muito arraigada na educação brasileira que é a de levar o conhecimento ou o saber aos seres desprovidos dele. Levar a luz onde há trevas. Até por isso, chamamos os estudantes em nosso país de alunos (a-lunos), do latim, sem luz. Essa hierarquização da relação estabelecida entre professor-aluno, na minha opinião, é totalmente o contrário de educação. É preciso primeiramente entender que o que acontece em um processo educacional é uma troca extremamente diplomática, onde nenhuma das partes pode impor nada, tudo deve ser negociado. Não deveria ser uma obrigação, um dever ou uma norma. Educar é antes de tudo um desejo, que deveria ser despertado, em ambas as partes.

 

Alguns problemas da educação brasileira

 

1- Extrema confiança nas metas

Além do fato de que, muitas vezes, o educar nem chega a acontecer, portanto nem se pode dizer que há um problema na educação, o sistema educacional formal brasileiro é algo arcaico. Metas, essa é a palavra chave para entender como funciona nossa política de educação. Absolutamente tudo é quantificado sem o menor critério de validação. Não sou contra a quantificação, desde que a metodologia seja minimamente racional, testada e validada. Uma vez que isso não acontece, você compromete todo o sistema. Estou falando obviamente das provas aplicadas no cotidiano pelos professores, mas vou além disso. Os índices de aprovação que obrigatoriamente tem que crescer para provar a qualidade da gestão, e o IDEB do município que tem que crescer para manter as cabeças dos cargos comissionados no poder e garantir um verba extra, por exemplo. Há uma extrema confiança de que essas metas melhoram a qualidade das coisas, mas vou levantar alguns questionamentos hipotéticos aqui para provocar a reflexão: E se o professor fizer uma prova mais fácil para aprovar mais estudantes e assim não gerar conflitos com a gestão da instituição? E se a gestão da instituição manipular os índices de aprovação? E se o governo facilitar ano a ano a prova brasil a fim de dar a impressão de uma melhora na qualidade? Como se avalia sem parâmetro de comparação válido?

 

2- Massificação do processo

Falta na educação brasileira a compreensão de que não existe uma formula mágica, de que não há como aplicar uma metodologia única, estática e imutável para ensinar. É preciso feeling, para entender qual a maneira que esse ou aquele estudante aprende melhor, o que esse ou aquele grupo gosta mais. Falta empatia com o estudante. É preciso deixar de lado a maneira massificada de ensinar, que se aprende nos bancos da academia muitas vezes, e ter jogo de cintura. Tenho certeza de que vários estudantes vão concordar comigo, quando digo que grande parte das aulas que tiveram foram na velha metodologia: Exposição, exercício e prova. Raríssimas vezes é possível fazer uma coisa que parta mais para o lado da experiência. Basta algumas voltas nas quadras ao redor da escola para que as pessoas possam visualizar uma série de problemas cotidianos que podem ser usados para melhor compreender os conteúdos obrigatórios das grades curriculares. Falta muitas vezes essa ousadia por parte dos educadores.

 

3- O desinteresse

Quando vemos diversos educadores reclamando que seus alunos não tem interesse, sou obrigado a concordar. Isso é evidente e inegável. Porém, cabe aqui uma diferenciação: Na minha opinião, o desinteresse reside no fato de que a maneira como o processo é feita é desinteressante. Há algo nesse sentido que é preciso ser dito, não há como educar sem um esforço para conhecer melhor seu público. Se você trabalha com crianças é essencial que você saiba do que elas gostam. O mesmo com adolescentes, adultos e idosos, por exemplo. Não há como comunicar conceitos sem isso. Essa aproximação de interesses tem que partir de algum lado, que seja do lado do professor que por excelência é aquele que busca. Afinal de contas, é disso que se trata ser professor.

 

4- O foco é a disciplina

Não há como falar de educação sem passar por essa crítica. Talvez isso ainda seja algo que ressoe desde antes da nossa recente re-democratização. Muitas das pessoas que estão por trás dos processos políticos educacionais ainda viveram em uma ditadura. Talvez tenham se acostumado ou aprendido a viver em uma. Tanto se acostumaram que insistem em reproduzir o modelo de disciplina rígida e hierarquização que foi duramente estabelecido durante esse período. O fato é que ainda é muito presente na educação nacional a preocupação com a disciplina. As vezes essa preocupação excede a preocupação em educar. Não desprezo a disciplina, acho que ela é necessária, porém critico muito o conceito de indisciplina  que circula pelos corredores da educação nacional. Disciplina não é passividade, e indisciplina não é contrariar a ordem vigente. Há muito que avançar ainda nessa área para que tenhamos realmente um processo que possamos associar à educação. Todo processo educacional deve ser extremamente crítico. Sem a crítica não há realmente construção de nenhum conhecimento, nada é agregado ou negado, somente reproduzido.

 

Qual o caminho?

Não tenho a pretensão de apontar um caminho que possa levar a solução de todos esses problemas, mas tenho certa segurança em apontar uma direção: O investimento.

Quando se fala em investimento, o que vem a cabeça logo de imediato é a questão financeira da coisa. Sim isso também é necessário, porém não somente. É preciso empenho de outros recursos além dos financeiros. Pessoa que queiram transformar a educação são essenciais e o interesse pelo tema também. Temos que concordar que, o principal ator dessa mudança se chama professor. Não que tudo seja de inteira responsabilidade dele, longe disso, no entanto, nele reside toda a força de mudança potencial de uma sociedade. Tanto pelas práticas inovadoras e transformadoras, quanto pela mobilização política. No dia em que essa consciência de força despertar de fato, teremos uma revolução sem precedentes na história brasileira.

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