Minorias nos Quadrinhos: O “outro” no mundo dos super heróis.

Os quatro membros minoritários dos superamigos: bem intencionados, mas uma coleção de estereótipos sem nada além disso.

Um bocado de tempo atrás, eu escrevi sobre a atual Miss Marvel, a imigrante paquistanesa Kamala Khan, a primeira muçulmana a estrelar uma revista de super heróis nos EUA. Kamala se destaca entre os personagens de minorias por não ser tratada como um outro, com base no conceito explorado por Simone de Beauvoir. Resumindo de maneira simples o conceito (cuja compreensão é essencial para entender a representação de minorias em qualquer mídia), o outro é aquele que não é “um de nós”.

Essa noção já resultou em histórias (bem intencionadas) como esta, de 1970
Essa noção já resultou em histórias (bem intencionadas) como esta, de 1970

Beauvoir reaproveitou o conceito psicológico e filosófico de “outro” e o aplicou aos estudos de gênero – e daí ele foi aplicado para outros estudos sociais. Em sua análise, a sociedade contemporânea presume o homem como a “norma”, e trata a minoria (no caso, a mulher) com base em sua diferença. “Nós” somos indivíduos, “eles” são “eles”. Enquanto a maioria é individualizada e tratada por suas especificidades, a minoria é generalizada e tratada com base nos aspectos em que ela não é a maioria. E é sistematicamente excluída e prejudicada em função deste tratamento. 

“Mas o que raios isso tem a ver com quadrinhos?”, você se pergunta. Bem, isso tem a ver com a maneira que personagens são retratados em qualquer mídia, e isso incluí sim histórias em quadrinhos. Vários dos problemas de representação encontrados na indústria de quadrinhos – em especial no mainstream – são derivados da noção de “outro” e da generalização daqueles que nos são diferentes. Faço questão de frisar que isso não é um processo consciente e deliberado (embora o possa ser), mas sim um fenômeno psicosocial que se vê manifesto do jornalismo diário ao cinema, na maneira em que populações são tratadas como “bandidas” ou “civilizadas” de antemão, e como migrantes de um país X são “expatriados” e os de outro são “imigrantes” e “invasores”.

Vou ser claro desde o princípio: este não é um artigo acadêmico, é fruto de uma pesquisa preliminar para um projeto acadêmico. É apenas uma análise não tão breve da questão dentro do coletivo de narrativas conhecido como “histórias de super heróis”.  Me desculpo de antemão por usar Simone de Beauvoir e não tratar de questões de gênero neste texto – este enfoque fica para um artigo mais aprofundado, mas passa pelos mesmo problemas que ocorrem com outras minorias.

 

Os primórdios – o mar branco da Era de Ouro.

1664090-jsa_as3Hora de uma verdade dura: a “era de ouro” dos quadrinhos de super heróis é uma época imensamente racista, e que é fruto claro de seu tempo. Na alvorada dos Super-heróis, na década de 40, os EUA eram um país com uma população 90% branca. Á época, negros e asiáticos não tinham direitos civis plenos, estrangeiros eram mal vistos, imigrantes japoneses eram colocados em “campos de internação”, e ainda imperavam as caricaturas racistas nos cartazes de propaganda.

As audiências de quadrinhos, assim como seus autores, eram quase sem exceções, brancas.E estas audiências não estavam interessadas no “outro”. Elas queriam personagens que fossem como eles, e caso houvesse a necessidade de explorar personagens que não fossem “normais” (leia, brancos, americanos, anglo-saxões, cristãos e heterossexuais), eles deveriam se conformar às noções do público quanto a estas pessoas. Em outras palavras, o “outro” deveria existir apenas em sua forma idealizada pelo “eu”.

O preconceito era tão aceito que até o Capitão América soltava injúrias racistas.
O preconceito era tão aceito que até o Capitão América soltava injúrias racistas.

Como resultado desta mentalidade, a era é marcada por um monopólio de heróis brancos (o primeiro herói negro viria apenas em 1966). A brancura desses personagens não foi pensada – ela simplesmente “é”, o que resulta na naturalização da ideia de “branco” como “normal”. Ao mesmo tempo, muitos desses personagens tinham parceiros ou ajudantes negros, indígenas e asiáticos retratados de formas caricatas que beiravam (ou cruzavam a linha) do grotesco. Eu já abordei os personagens negros dessa era em outro texto, que expõe bem os clichês a respeito deles. Os asiáticos são alvos de outros clichês, que podem ser vistos em primariamente em histórias de heróis da segunda guerra mundial (e suas caricaturas de japoneses) e durante a guerra fria (desta vez com os chineses).

Embora houvessem muitos judeus entre os escritores de quadrinhos (dos quais se destacam Paul Simon, Jack Kirby, Joe Shuster, Jerry Siegel, Will Eisner e o mais conhecido dos leigos, Stan Lee), o judaísmo nunca era uma parte explícita de seus personagens, por saber que o “kyke” (gíria ofensiva para judeus nos EUA) ainda era visto pelos leitores como uma figura “suspeita”. Da mesma maneira, o preconceito contra asiáticos após Pearl Harbor resultou naquele que seria o primeiro super herói asiático (o Tartaruga Verde, de Chu F. Hing- mais sobre ele no Quadripop) a ser retratado como um homem branco. Intenção autoral não era relevante ante as sensibilidades da época.

Tomemos como exemplo o Super Homem. Embora criado por dois judeus, o Super Homem era o mais “pure bred american boy” possível. Criado por agricultores “no coração da nação”, defendendo “verdade, justiça e o estilo de vida americano”, o “bom moço” da fazenda que vai para a cidade grande mas nunca perde seu jeito do campo. Clark Kent incorporava em si o romantismo de uma América que se via frente a mudanças (em especial nas décadas por vir) e que se voltava para uma “América ideal” onde essas mudanças – e os problemas causados pelo consumismo desenfreado, a exclusão e os anos de guerra – não existiam. Não é de se admirar, portanto, que o primeiro super-herói seja um alienígena (e por definição, um imigrante ilegal) fosse ao mesmo tempo o americano mais “americano” de todos: a personificação daquilo que a América à época acreditava ser. Até mesmo a profissão do herói – jornalista – trazia em si um grau considerável de idealismo, embora a escolha inicialmente tivesse sido mais pragmática.

incredible-science-fiction-33-controversial-endingA EC Comics serve como um bom exemplo de como desvios da norma eram tratados na década seguinte. A célebre história “Judgment Day”, publicada em 1953, foi alvo de uma tentativa de censura por parte do juiz Charles F. Murphy, diretor da Associação Americana de Revistas em Quadrinhos, quando foi republicada em 1956. A história, uma alegoria de ficção científica sobre a desigualdade social e a segregação racial, era sobre a visita do astronauta Tarlon a um planeta habitado por robôs, em um teste para ver se os robôs (cuja sociedade era marcada por intensa desigualdade e preconceito contra os robôs azuis) estavam aptos a se juntarem a sociedade interplanetária. No último quadro, Tarlon tirava o capacete e se revelava negro. Do ponto de vista do juiz, a história violava o “código de ética dos quadrinhos” por ser um ataque racial aos brancos. A história foi a última a ser publicada pela EC, antes dela ser reformulada na forma da revista MAD.

 

“Negritude Radioativa”

 

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Na visão de muitos leitores, não era “crível” que um rapaz negro pudesse ser o novo Homem-Aranha.

Apesar de ser um fruto dos preconceitos e demandas de audiências dos anos 40, essa normatividade branca nos quadrinhos permanece até hoje, de forma atenuada. Sim, há uma presença maior de minorias, mas essas são vistas como algo que exige explicação, ou como uma intromissão no “ecossistema” das HQs. Da mesma forma, uma defesa recorrente para a manutenção do Status Quo é a alegação de que histórias em quadrinhos são escritas por homens brancos para homens brancos e minorias não as leem. Essa defesa não apenas ignora os leitores não-brancos, como reafirma a ótica de que o branco é “normal” e o resto é “anormal” e resulta em uma círculo vicioso onde apenas leitores brancos são representados, pois não brancos não leem.

Andrew Wheeler abordou essa questão em um artigo de 2014 para o site Comics Alliance. No artigo, Wheeler ressalta que minorias são vistas como algo a ser justificado, como se houvesse algum tipo de “negritude radioativa” para explicar porque um personagem é negro. Em outras palavras, quaisquer desvios da norma são vistos como algo a mais para explicar, como se “ser latino” ou “ser gay” fossem tão excepcionais quanto “soltar laser dos olhos”.

Esse “embranquecimento padrão” se estende a caracterização mesmo em grupos em que a ideia seja representar minorias. Isso graças a estranha noção de que um personagem não-branco já é “alguma coisa” e que sua não-branquitude conte como caracterização. Dessa forma, os X-Men tem mais membros azuis do que negros em toda sua história de publicação, embora almeje ser o título da Marvel a cobrir o sofrimento das minorias.

De maneira similar, a caracterização de personagens pertencentes a grupos minoritários tende a ser definida única e exclusivamente pelo grupo a que pertencem. Isso se estende a personagens brancos não americanos, vide Piotr Rasputin (Colossus, inicialmente definido por sua “russicidade”) ou Sean Cassidy (Banshee) e Molly Fitzgerald (Shamrock), definidos por sua “irlandesidade”.

capbrother6Nem personagens “normais”, no entanto, estão a salvo de serem alvo de tentativas de explicar como eles podem “não ser um de nós”. Em 1978, Steve Gerber tentou reescrever a história de vida do Capitão América. Com o retcon, Steve Rogers deixava de ser o filho único de imigrantes irlandeses, que cresceu nas ruas de Lower East Side e desistiu de uma faculdade de arte por dificuldades financeiras. Ao invés de ser um rapaz raquítico que perdera os pais para a doença e um acidente de trabalho (qual pai morreu do que, foi mudado n vezes), Rogers era um rapaz de classe média alta, do subúrbio de Maryland, que levou uma vida tranquila até que o irmão mais velho morreu no ataque de Pearl Harbor. Movido pela perda, Rogers então se alistava no exército, abandonando o pacifismo que antes mantinha.

A história original passara a ser explicada como uma memória falsa. Afinal, não fazia sentido para o herói símbolo da américa ter uma vida tão anti-americana. Ao invés de se alistar “por odiar valentões, não importa de que lado estivessem”, Rogers se alista por vingança. Ao invés de sofrer com as agruras da desigualdade social e o lado ruim do estilo de vida americano, ele viveu as  benesses do “sonho americano”. Era uma releitura “inofensiva” de um personagem que surgira de forma controversa (e como demonstrei em outro artigo, nenhum dos elementos de seu design foi “incidental”. Neste caso, o ser branco era pensado propositalmente, como uma resposta ao ideal ariano dos nazistas), e que felizmente, durou pouco: em 1980, John Byrne e Roger Stern estabeleceram essa origem como uma memória falsa, e a reestabeleceram a original, do rapaz filho de imigrantes que crescera nas ruas.

 

Inserção como resposta a pressão e “personagens orgânicos”

 

Uma verdade deve ser dita com relação a indústria americana de quadrinhos: seu uso de personagens minoritários, em sua grande maioria, é fruto de pressões sociais. Há quem enxergue isso como um problema, como “ditadura do politicamente correto”. Essa mentalidade explica muito da resistência da indústria e principalmente dos fãs contra narrativas mais inclusivas.

Unused_Black_Panther_CoverQuando a Marvel introduziu os primeiros super heróis negros da indústria (Pantera Negra, em 1966, e Falcão, em 1969), ela não o fez porque um belo dia decidiram que “seria legal por um personagem negro”. Essa inclusão veio como resposta ao crescimento de protestos contra a descriminação racial e a sensação de alienação do público negro – ignorado até então. Da mesma maneira, a discussão sobre a AIDS resultou na mesma editora (em uma história cercada de problemas) a “tirar do armário” o super herói Northstar. A guerra ao terror resultou na criação de personagens islâmicos (indo de tentativas bem intencionadas a caricaturas grotescas como o vilão Jihad) e o discurso vigente da Guerra Fria inundou as estórias com ícones da “ameaça vermelha”.

Há uma crença de que a “arte” deva ser uma bolha isolada da sociedade, ou que ela não deva desempenhar um papel social. Em 2013, Gery Conway, criador do Justiceiro (e responsável pela decisão de matar Gwen Stacy), usou como defesa contra medidas mais ativas de inclusão nas HQs a alegação de que “quadrinhos seguem a sociedade, não a lideram”. Conway erra em um aspecto importante: quadrinhos (aqui definidos como o mainstream americano de quadrinhos) estão consideravelmente atrasados em relação ao status quo social. E isso, novamente, tem a ver com a noção de que minorias sejam um “outro” idealizado.

Metade da população mundial é do sexo feminino. Nos EUA – lar da indústria de quadrinhos de super-heróis, alvo maior desse artigo – cerca de 13% da população é negra, 5% é asiática e em torno de 15% é hispânica. As estimativas quanto a sexualidade apontam que haja entre 3% e 13% de gays. E ainda assim, os personagens que não são brancos são praticamente restritos a lista D. A maioria das “super equipes” contam com apenas uma mulher (o “princípio da smurfette”) e personagens homossexuais, asiáticos ou latinos se contam nos dedos. Sim, o quadro está mudando – com atraso considerável.

Há uma defesa recorrente para a falta de representação com base em “personagens X devem surgir naturalmente”. Esse pensamento (manifestado mais recentemente pelo diretor de cinema da Marvel, Kevin Feige) é um dos frutos mais claros do problema maior do “outro”. Ele ignora que personagem algum é “orgânico”, sendo todos construtos fruto de decisões autorais que privilegiam a reprodução da maioria, e expõe o fato de que, enquanto personagens ditos “normais” são criados “organicamente” – isto é, não são pensados como parte da maioria -, a mera criação de um personagem “anormal”, um outro, é tratada como sendo artificial e imposta.

O Vlogger Robert “Moviebob” Chipman discutiu a questão em um vídeo de 2009 e apontou um fator interessante e recorrente na indústria de entretenimento. Enquanto personagens brancos tendem a ter múltiplos identificadores (como fantasias, armas, histórias pessoais, logos), personagens de minorias tendem a ser definidos apenas por sua minoridade. A lógica reinante é que eles não precisam de nada a mais pois eles já são alguma coisa – um dos exemplos mais claros disso vem, novamente, da Marvel: na formação de 2009 dos Novos Vingadores, o único membro não branco era Luke Cage – então vestido com jeans e uma camiseta, enquanto seus companheiros tinham roupas incríveis e nomes únicos.

 

O preconceito bem intencionado

Esse pensamento centrado nas diferenças entre “eu” e o “outro” é responsável por muitas das representações preconceituosas de personagens minoritários na mídia. Não que seja intencional. A questão é que muitos escritores – por falta de vivência, por ser o caminho mais fácil, ou as vezes por preconceito mais perverso – ao escrever um personagem “diferente”, apelam para noções pré-concebidas do que este personagem deve ser.

250px-DustProfileCombinado com a tendência a tratar a diferença como um personagem por si só, isso pode resultar em caricaturas negativas, porém bem intencionados. O que nos leva ao motivo de eu ter mencionado Kamala Khan na abertura deste texto. Khan não é a primeira muçulmana na Marvel e nem é a primeira a explorar o conflito cultural de jovens muçulmanos nos EUA. Outra personagem a abordar essas questões foi Sooraya Qadir (vulgo Pó), em Novos X-Men, criada em 2002 por Grant Morrison, Frank Quitely e Ethan Van Sciver.

Pó é tudo aquilo que a atual Miss Marvel não é. Enquanto Kamala tem uma roupa própria, digna de qualquer super-herói, e que se diferencia apenas por ser mais “recatada”, Sooraya se veste com um niqab (e não uma burqa, como muitos chamam). Kamala tem uma personalidade multifacetada, que abrange interesses nerds, uma adoração pela Miss Marvel anterior, conflitos familiares, dramas adolescentes, poderes em desenvolvimento e o conflito entre os ditames da fé e a vida americana (retratado na primeira página de sua revsita solo na forma do desejo de só uma vez comer um sanduíche de bacon). Já Sooraya é “a muçulmana”, com pouca caracterização além disso. Até em termos de poderes, há uma aplicação do clichê na X-woman: Kamala tem o poder de aumentar partes do seu corpo, um poder único e que não referencia sua etnicidade ou religiosidade de forma alguma, enquanto Sooraya tem o poder de virar uma tempestade de areia, bebendo tematicametne de visões idealizadas e fantásticas do Oriente Médio.

snap wilsonNão há motivos para suspeitar que os três tenham sido intencionais na coleção de estereótipos usados para compor a personagem, mas é claro que “muçulmana” foi o grande caracterizador, com pouco além disso. Da mesma maneira, não há motivos para suspeitar que Steve Englehart tenha sido deliberadamente racista ao reescrever o passado de Sam Wilson, o Falcão, como um traficante de drogas;  a questão é que Englehart trabalhou com Wilson como negro primeiro, e personagem em segundo lugar, e suas noções prontas o levaram a esse retrato infeliz. É possível que o autor fosse malicioso, mas não há evidências para sugerir qualquer coisa além da mais simples ignorância

 


IMG_0059aNão é o primeiro e nem o último caso em que a tentativa de aprofundar um personagem negro envolve estabelecê-lo como um ex-criminoso. Luke Cage é outro que sofre disso (sendo estabelecido a priori como um gangbanger, preso por um crime que não cometeu). Mais recentemente, a reintrodução de Wally West (o terceiro Fla ao universo DC – repaginado como um jovem negro – o viu ser redefinido como um delinquente juvenil, abandonado pelo pai. A caracterização se encaixa dentro dos clichês raciais americanos, onde jovens negros são vistos como delinquentes, e é recorrente a ideia de que mães negras são em sua maioria mães solteiras (com filhos de pais diferentes), quando o clichê não é ainda mais negativo. Essas representações, no entanto, não são deliberadamente racistas, em grande parte – o que não as torna menos criticáveis.

Extrano-Profile-580x341Com homossexuais a questão já foi ainda pior. Uma das primeiras tentativas da DC Comics de abordar a homofobia e o drama da AIDS, então vista como uma “doença gay”, resultou no insultoso Extraño, criado por Steve Englehart em 1988. Extraño (que se destaca por ser gay e hispânico, um raro personagem que engloba duas minorias) juntava todos os clichês sobre homossexuais: era espalhafatoso, melodramático, afeminado e “alegre”. Dotado de poderes mágicos, o herói se referia a si mesmo como “a titia”, e era o alívio cômico dos Novos Guardiões (um grupo que tentou ser diverso, e terminou sendo um apanhado de clichês). Extraño posteriormente foi revelado como soropositivo depois de ser atacado por Hemogoblin, um “Vampiro Aidético”.

 

Repensando e melhorando

 

O que levou Kamala Khan, Robbie Reyes (o Motorista Fantasma), Sam Wilson, Virgil Ovid Hawkins (Static), James Rhodes (War machine) e Jaime Reyes (o terceiro besouro azul), entre outros, a serem personagens multifacetados enquanto outros personagens de minorias tem suas personalidades compostas apenas por sua minoria? A resposta é simples: o processo de “outrificação” não é tão evidente neles por que foram pensados como pessoas, e não como “o outro”.

Kamala09A maneira como Englehart, por exemplo, escrevia personagens fora da “norma” demonstra que ele não tinha vivência nem pessoal e nem por contato com estes grupos e portanto recaia sobre o estereótipo. Grant Morrison, por mais que fosse exímio escritor de personagens “exóticos” – ou talvez por esse dom – caiu no mesmo erro com Sooraya Qadir. Enquanto isso, Sana Amanat e G. Willow Wilson beberam de suas próprias experiências como muçulmanas americanas na criação de Kamala Khan, dando a ela nuancias que iam além de “ela é muçulmana”.

O ponto sobre “personagens orgânicos” levantado por Feige se aplica aqui: escritores escrevem o que conhecem, e justamente por isso sair do “eu” é uma dificuldade tão grande. Experiência de vida e empatia permitem a composição de personagens complexos pois os tratam como pessoas, sejam essas pessoas brancas, negras, polinésias, muçulmanas, xintoístas ou pansexuais. Do lado contrário, ao se pensar o personagem primeiro como o que e não quem ele é, ao dar prioridade para o rótulo e não para a pessoa, temos os clichês ambulantes que marcam tanto a indústria de entretenimento.

Essa é a chave: o rótulo tem que ser eliminado, personagens não devem ser pensados como “o que” eles são, mas como pessoas. E é justamente desse rótulo sobre o outro que deriva o fator apontado por Chipman e por Wheeler. Como a minoria é vista como uma caracterização em si, há o erro recorrente em achar que personagens negros “já são uma coisa”, e não precisam de nada a mais, ou que a ideia de um personagem negro, nerd, e super-herói, por exemplo, seja “fazer dele coisas demais”.

Vale notar que mesmo os personagens que já estão bem estabelecidos tendem a ser vistos de forma a reduzi-los a um “outro” ideal por parte dos leitores. Não são raras as críticas ao Capitão América que o reduzem ao conjunto de estereótipos sobre os EUA (como conservadorismo, ufanismo e imperialismo), os mesmos traços que o personagem critica. Kamala Khan, dois anos dentro de sua publicação, continua a ser alvo de piadas sobre “usar uma burqa” e poder “se explodir”.

250px-DevilDinosaurandMoonBoyDa mesma maneira, a estereotipificação e as reclamações quanto a “imposição” de minorias não passam pelo crivo da coerência. A luz dos anúncios de um novo Justiceiro negro, houve quem reclamasse que o justiceiro “ia ser um bandido” (como se Frank Castle não o fosse). Quando a nova Moon Girl foi anunciada, houve quem reclamasse de apagamento de personagens brancos – quando Moon Boy, de 1978, era um hominídeo peludo, quase um sasquatch pequeno. Quatro anos após a estréia do negro porto riquenho Miles Morales como Homem-Aranha, ainda há quem reclame de “terem mudado a etnia do Peter Parker”.

A noção de encarar a minoria antes da pessoa está tão enraizada que vários leitores tem dificuldade em compreender que os personagens minoritários introduzidos em tempos recentes são personagens novos. Em sua leitura, eles leem, por exemplo, “Hulk” e “coreano” e ignoram que Amadeus Cho não é Bruce Banner. Disto, reclamam que estão “mudando a etnia dos heróis” ao invés de “criar heróis novos”. O título de personagens velhos é reaproveitado por uma questão simples: o reconhecimento diminui a resistência que esses personagens encontrariam se fossem lançados sem algo para ancorá-los.  

Encerro com um lembrete, antes que alguém me diga que “mas isso é um problema de toda narrativa, não só de quadrinhos”: este fenômeno não se aplica apenas a quadrinhos de super-heróis. Ele se faz presente em todas as formas narrativas e em toda forma de mídia, especialmente quando se apela para a caricatura do “outro” e a criação de uma imagem idealizada (positiva ou negativamente) de outros povos, etnias e sexualidades. Não é diferente com cinema, jogos ou literatura. O clichê é fácil. Ele existe por funcionar, por resultar em identificação fácil da audiência, que não precisa pensar além do superficial para aceitar o “persoangem”. Mas não é possível viver de clichê para sempre. Especialmente quando as audiências não são mais aquele público majoritariamente branco, americano, anglo-saxão e de classe média dos anos 40.  

 

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Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

2 Comentário

  1. Imagino um japonês no seu país natal lendo seu primeiro gibi americano e encantado por ver retratado um branco ocidental. Minoria depende de onde você se encontra…

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