Minorias nas HQs: Kamala Khan e o Islã.

Kamala Khan e o Islã

leadEnquanto algumas minorias lentamente se livram da predominância do clichê na maneira como são representadas em quadrinhos mainstream, outras ainda sofrem para sequer fazerem parte das histórias. E poucos casos são tão notáveis quanto a dos muçulmanos – raramente representados, e em grande parte das vezes, apenas como terroristas – e não só nas hqs; o esteriótipo do muçulmano como terrorista abunda também no cinema e na televisão – mas temos uns (poucos) casos que demonstram como isso está mudando, e nada melhor que nossa figura da semana, Kamala Khan, para demonstrar isso. (Em quadrinhos indie e graphic novels a situação é felizmente bem menos aterradora).

Introduzida em Captain America #14em agosto do ano passado, a nova Miss Marvel (substituindo Carol Danvers, hoje Capitã Marvel) é a primeira personagem islâmica a ter sua própria revista no mercado americano de quadrinhos. Filha de imigrantes paquistaneses, a jovem ganhou seus poderes – mudança de forma – após o evento Inhumanity  (em que os inhumanos cobriram a Terra com as névoas terrígenas, dando superpoderes a uma parcela considerável da humanidade). Mas isso não é o mais importante: o que é importante é que Kamala Khan escapa da pilha gigante de clichês que afetou outros heróis islâmicos (e que jamais foram headliners): Ela não é “exótica”, como Monet St. Croix. de X-Men; não veste um niqab (e não uma burqa, como alguns insistem em dizer)como  Sooraya Qadir (vulgo Pó); uma fanática como Josiah X, e nem é confundida com uma terrorista em sua primeira edição, como Simon Baz (o quinto Lanterna Verde). Além disso, se destaca em outra coisa: é uma das únicas mulheres não brancas a ter uma revista dela.

comic-pow-ms.-marvel-no-partyNão: Kamala é uma adolescente normal, que por acaso é muçulmana e filha de imigrantes – essa identidade é parte chave de sua narrativa, mas não em uma forma estereotipada. Ao contrário, serve como base para lidar com dramas comuns de jovens migrantes: o conflito entre a tradição e a modernidade, os dilemas da fé em um mundo em constante mudança, a luta em busca de uma identidade dividida entre realidades diferentes, enquanto o mundo tenta lhe impor  – algo que suas criadoras, a editora Sana Amanat (filha de imigrantes paquistaneses) e a roteirista G. Wilson Wilson (que se converteu ao Islã na universidade) conhecem bem. Não é uma debate sobre fé: é sobre identidades e conflitos internos.

Como bem colocou Amanat:

Ao mesmo tempo que o Islã é parte da identidade da Kamala, esse livro não é sobre pregação religiosa ou a fé islâmica em particular. É sobre o que acontece quando se luta contra identidades impostas sobre você, e como isso forma o seu senso de identidade. É uma luta que todos nós enfrentamos, e que não é particular da Kamala por ela ser muçulmana. A religião é só um aspecto das muitas maneiras como ela se define.

Entre os rotineiros dramas da juventude tão bem cobertos nos primórdios de Homem Aranha, entram também o estranhamento, as diferenças culturais e a sensação de “estar fora do seu lugar”: dramas que não pertencem a um único grupo, mas que tem uma cara distinta neste caso. Logo a primeira cena da primeira edição da garota já retrata esse estranhamento: o desejo de comer “americano”, podado pelas restrições dietárias da família, manifesto no simples ato de “só sentir o cheiro” de um sanduíche de bacon. E a isso se juntam comentários maldosos (muitos não intencionais) de colegas, os pais controladores, aqueles dramas da vida que todos conhecem. Uma formula de sucesso -e que tem dado certo com a novata – mesclada a uma reação de fangirl que a leva a adotar o título que antes pertencia a Danvers.  E é uma narrativa que funciona porque é um drama muito real. Bebe da mesma fonte que o conflito de identidade do Super Homem, mas com laços muito mais fortes com o mundo real.

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Infelizmente, como houve com Bilial Asselah (o “Batman de Paris”), a entrada da nova Miss Marvel foi vista com hostilidade por parte do público de quadrinhos: alguns, ignorando que Danvers agora passava a Capitã Marvel, entenderam bizarramente que estavam “matando a Miss Marvel”. Outros julgaram que estavam “lhes forçando o islamismo goela abaixo”. que a personagem “entrou por cota”, e outras tentativas de pintar a representatividade como opressão à maioria (por sinal… em mais de meio século de publicação, a Marvel tem apenas cinco heróis islâmicos, quatro deles personagens terciários). A essas se somaram piadas de cunho islamofobico, como dizer que ela teria “o poder de se explodir”, que o uniforme “seria uma burqa”, ou que “seu maior inimigo é o prédio”. Não impressiona quando se vê que – especialmente nestes anos de “guerra ao terror” – que a representação muçulmana na ficção é repleta de clichês e esteriótipos, pintando os muitas vezes como fanáticos, terroristas, primitivos ou selvagens – e nada mais notável nesse aspecto que outra HQ recente sobre o Islã, Santo Terror, de Frank Miller – na qual muçulmano e terrorista são sinônimos, A Al Qaeda é a organização máxima do Islã, e muçulmanos vivem em cavernas tramando o fim do ocidente.

A heroína, e a fangirl
A heroína, e a fangirl

Com esse ainda pequeno – mas importante – passo, tem-se saído mais um pouco do vasto oceano de não representatividade no mainstream de quadrinhos. Como muitas minorias, islâmicos (e árabes – duas coisas distintas que o senso comum pensa que são a mesma) tem pouquíssima presença na indústria do entretenimento, e por ser um grupo religioso, fica ainda mais apagado, já que se evita discutir religião “pra não ofender”. Enquanto são representados na maioria das vezes apenas pelo estereótipo, outro grupo – os judeus – são também sufocados: sua presença se dá sob a forma de “ei… eu sou judeu”, e pouco mais que isso (salvo por casos como Magneto e Kitty Pryde, ambos de X-men, onde a identidade judaica serviu para muito mais do que uma etiqueta). Algumas obras da linha Elseworlds tentaram dar um foco maior em religiosidade (mas quase sempre mantendo a normatividade que diz que se não é explicito que ele é de uma minoria, ele é um “normal” – leia, cristão) – em geral de forma desastrosa. Que Miss Marvel comece a mudar isso, e deixar claro que tratar de identidade religiosa não significa que seja pregação religiosa – que grupos não se definem em clichês, e que minorias não precisam ser um fracasso – não é preciso ser uma adolescente muçulmana para se ver em Kamala Khan, assim como ninguém precisou ser um rapaz orfão do Brooklyn para se ver em Peter Parker, ou ser um mutante para se sentir representado nos X-Men – mas ajuda não ser tratado como uma nulidade, e é isso que acontece com muitas minorias – inexistentes na ficção, ou retratadas apenas como vilões, anomalias, “pano de fundo” ou vitimas a serem salvas, poucas vezes protagonistas.
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Houve também quem fosse mais explícito no seu ódio, e disse não querer “lixo politicamente correto” ou “uma muçulmana asquerosa” nas suas revistas. A esses digo três coisas: primeiro, você não é obrigado a ler nada; segundo, ninguém te deu o direito de dizer quem pode ser representado em ficção, e quer você queira ou não, as minorias estão deixando de ser invisíveis. E por último, aos (não poucos) que expressaram asco a respeito de mulheres árabes (com comentários negativos quanto a sua aparência)… vocês são cegos? Eu quero dizer… sério, vocês já viram uma mulher árabe?

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