Minorias em quadrinhos: Arnie Roth, o gay de meia idade.

Capa, exemplo de minorias em quadrinhos

Certo que a representatividade de minorias em quadrinhos, ou comics – o mainstream da arte sequencial americana – avançou muito desde o tempo em que negros eram mostrados como gollywogs e asiáticos eram “a ameaça amarela”, mas ainda temos algumas coisas ainda problemáticas nesse sentido… Ainda abundam os clichês (tipo o herói negro que é “tananan Negro”, ou o herói asiático que é um mestre de artes marciais), e predominam os heróis brancos-hetero-30-e-poucos-anos, acima de qualquer outro grupo, e  (quer prova? Me diga três heroínas negras da Marvel, que não a Tempestade). Mas as coisas estão mudando… e pra mostrar isso, um breve resgate de comics  que trabalharam minorias com gosto.

Lembrando que estou falando de comics, não de graphic novels – que trataram disso de maneira muito mais aprofundada que as revistinhas, já tem algum tempo, por se tratar de um modelo menos comercial (e nem vou entrar aqui no underground). Isso vai ter alguns spoilers, e algumas coisas deixadas… não contadas. Se querem o todo, sugiro que leiam os quadrinhos – fica a dica.

Para o primeiro texto nesse sentido…

O gay de meia idade: Arnie Roth (Marvel)

CA270aQuando a DC anunciou que após o gigantesco reboot que foi o New 52, o Lanterna Verde da Terra 2, Alan Scott, seria homossexual, eles jogaram fora uma imensa oportunidade: desde os idos tempos da Crise Infinita, Scott era retratado como um senhor já de idade, com dois filhos (Jade e Obsidian, este último gay); mas depois da reestruturação, Scott virou… mais um cara entre 25 e 35 anos. Chance perdida, e por um bom tempo o “novo” Alan Scott virou o cara que dizia que era gay (mas não tinha relacionamento algum).

Mas a figura do homossexual que não é um cara “jovem e atlético” (e nem “camp”) já havia sido explorada pela Marvel em 1982, ainda sob a censura constante da Comics Code Authority: entre as edições #269 e #290 de Captain America Vol 1., um dos personagens centrais era Arnold “Arnie” Roth, um amigo de infância de Steve Rogers, agora perto dos 60 anos, envolvido em um relacionamento de 10 anos (embora o namorado fosse dito como “companheiro de quarto”, graças a censura da CCA); não era caricato, vaidoso, ou promíscuo. Ao invés disso, era… um senhor gordo e calvo que por acaso era gay.

Cap homophobic speechRoth foi o centro de uma trama envolvendo o vilão nazista Barão Zemo (que por sinal, hoje, depois de muita coisa, não é nem nazista, e nem vilão… mas ainda é um calhorda). Arnie e seu parceiro, Michael, foram atacados repetidas vezes por Zemo, Michael foi sequestrado e transformado em um monstro, posteriormente assassinado, e Roth forçado a se humilhar perante o vilão – replicando seu discurso homofóbico, em trajes e maquiagem caricatas, antes de ser salvo pelo Capitão – aí tem um problema, mas mais perdoável: usar personagens de minoria como plataforma para os “normais”.

CapArnieDigo perdoável pelo discurso belíssimo de Rogers após salvar Roth (e que é uma das muitas  razões que quem chama o Capitão América de conservador, não sabe o que diz):

“Arnie – me escute: não importa que palavras eles forcem você a dizer, você sabe a verdade! Você não é uma aberração! Você é o melhor e mais decente homem que eu poderia conhecer! Eles não podem corromper o seu amor por Michael com essas mentiras mais do que poderiam corromper meu amor pela Bernie! Do pode me ouvir Arnie? Eles são os párias! Eles são uma doença!

Arnie Roth faleceu de câncer em Captain America #443 Vol 1., em 1995. Embora nunca fosse um personagem importante, Roth é notável por ser o primeiro personagem abertamente gay no mainstream de quadrinhos da Marvel – e fazer isso sem ser uma caricatura. Certo que suas histórias eram discursos contra a homofobia, mas isso é ruim?

Notas

Copra vai voltar?

Copra02Copra – a carta de amor de Michel Fiffe a série original de Esquadrão Suicida – foi um feito; escritas, coloridas, finalizadas e até enviadas pessoalmente por Fiffe, as doze edições de Copra chegaram ao seu fim em novembro passado. Mas como revelado nesta quarta feira… o esquadrão de criminosos e renegados montado pelo governo para operações “sigilosas” retorna em abril, para uma minissérie de 6 edições. Como a original, Fiffe fará todo  o trabalho. Vale dar uma olhada.

Quer pagar quanto?

Para quem está lutando para ter acesso a quadrinhos tupiniquins (que nem eu, aqui na gélida Dinamarca…), o site de venda de quadrinhos indie nacionais Mais Gibis tem uma modalidade que beneficia consumidor e produtor: o cliente decide o quanto ele acha que o quadrinho vale, a partir de R$ 1,00 (ou pode pagar nada), baixa a HQ e fica por isso – uma ótima maneira de experimentar títulos novos, e depois pagar o quanto acha que a qualidade da obra merece. Por ora dois títulos estão disponível na modalidade: Gibi Quântico Manual da Auto Destruição.

CAPITÃO AMERICA, ESMAGADOR DE COMUNISTAS no cinema?

Grand_DirectorParece que um ponto controverso da história do Capitão America será revisitado nos cinemas – segundo os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, depois de ter aproveitado o arco de história Soldado Invernal (de 2005, por Ed Brubaker),  o terceiro filme do herói pode envolver William Burnside, vulgo o Grão Diretor, o psicótico e ufanista Capitão América dos anos cinquenta. Certamente seria uma ótima maneira de explorar a figura idealista do Capitão America e o ícone Steve Rogers, em comparação com a postura arrogante, imperialista e belicosa que os EUA assumem há décadas, assim como lidar com a ressurgência conservadora do Tea Party e o partido republicano. Para quem não conhece Burnside, segue um resuminho.

Uma maneira de conciliar os quadrinhos com a incongruente publicação do capitão entre 45 e 54, o Capitão Anti-comunista era um professor de história obcecado com a figura do Capitão. William Burnside assumiu o escudo durante o período da “caça aos comunistas”, caçando um novo caveira vermelha, Albert Malik. Instável e paranoico, o segundo capitão se convence que é Steve Rogers, que está certo por que “America sempre está certa” e inicia uma campanha de terror contra “a ameaça vermelha” (incluindo ataques contra “espiões” como comerciantes e policiais que tentavam detê-lo).

Burnside foi usado como vilão em histórias do Capitão America em duas ocasiões: como o supremacista branco Grão Diretor, em 1979, ligado a KKK e ao caveira vermelha original, Johan Schmidt, e novamente em 2008, como um fantoche do Caveira Vermelha, em um plano para assumir o controle do governo americano; Enfrentando Bucky (agora o Capitão América) e liderando o grupo ultra nacionalista Watchdogs, Burnside se considerava “o verdadeiro Capitão America”, contrário à “decadência” americana e favorável a hegemonia através da força militar, do conservadorismo social e de papeis de gênero tradicionais, no que ele via como o retorno à uma América “pura”.

O terceiro filme do Capitão América está previsto para 6 de maio de 2016.

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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