Mad Max: a estrada da desconstrução

O filme está quase saindo de cartaz, e finalmente estou lançando o artigo…

Quando Mad Max: A Estrada da Fúria ainda estava para sair, houve um chororô de grupos machistas sobre o o filme de George Miller ser “propaganda feminista” e “um ataque aos homens”. Tendo visto o filme, tenho que dar razão ao chororô: para quem se apega veementemente ao ideal do “homem de verdade”, de fato o filme é um ataque – e isso não é um demérito.

Mad Max definiu a estética do pós apocalíptico - e agora vem para desmontá-lo.
Mad Max definiu a estética do pós apocalíptico – e agora vem para desmontá-lo.

Mad Max, o filme original de 1979, junto com sua continuação de 1981, The Road Warrior, são praticamente o molde do gênero pós apocalíptico. Longe de serem a primeira obra do tipo (esse troféu vai para o livro The Last Man, da inglesa Mary Shelley, em 1826), Mad Max traz tudo aquilo que se pensa quando se fala em “pós apocalíptico” – incluindo a estranha associação do gênero com fantasias de poder masculinas.

O mundo pós apocalíptico a la Mad Max (ou melhor: a moda dos três primeiros filmes da série) e que é copiado sem pudor em coisas como Fallout, Wasteland, Hokuto no Ken e no abismal Riki-Oh é, por excelência, o mundo do “homem de verdade”. Uma terra sem lei e sem civilidade, onde “badasses” impõe sua vontade através da virilidade, e apenas um HOMEM DE VERDADE pode salvar os fracos e oprimidos (cuja sobrevivência depende de bons homens machões os salvarem dos homens maus). Uma terra onde mulheres são damas a serem salvas, postas em “seu devido lugar” ou tomadas como tesouro (se é que há diferença)*. Qualquer semelhança com os piores aspectos do gênero Espada e Feitiçaria e com as formas mais machistas do Western não é coincidência: a ação pós apocalíptica nada mais é que um “Sword and Sorcery” moderno, um Western com carros sucateados no lugar dos cavalos.

Max Rockatansky (Tom Hardy em Estrada da Furia, Mel Gibson nos originais) é um dos mais claros avatares da fantasia de poder associada a esse tipo de cenário: o homem-que-é-homem, não leva desaforo de ninguém e obedece apenas a si mesmo. Max é o ideal que a audiência quer ser: o sonho de ser o “bambambam” que tudo pode e nada teme, e que é o único semblante de “ordem” em um mundo louco (ironicamente, o ex-policial é definitivamente louco).

E Estrada da Fúria pega esse ideário regado a testosterona e o vira de cabeça para baixo. Esse não é um filme sobre um “homem que é homem” salvando o dia e obtendo o que quer através de sua virilidade: é uma obra sobre o quão tóxica e improdutiva é a mentalidade que sustenta a obsessão dos fãs em serem Max. Apesar de todo o seu horror, o pós apocalíptico é uma fantasia para muita gente (assim como o apocalipse zumbi), e o filme de Miller escancara o quanto essa virilidade exarcebada e obsessiva é nociva a todos.

mad-max-fury-road-official-legacy-trailerTemática que se sustenta em seu vilão, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), regente da Cidadela.  Joe mantém seu poder se colocando como o ápice da masculinidade, guardião dos portões do Valhalla, e o ideal que seus Warboys devem seguir. Estes, por sua vez, muito como rapazes inseguros de sua masculinidade,  fazem de tudo para impressionar o “viril” líder e patriarca simbólico. E enquanto homens precisam “provar seu valor” através da mais máscula das atividades, o glorioso combate, mulheres se resumem a duas coisas: parideiras, ou provedoras de leite. Nada mais.

A obsessão de Joe com masculinidade é clara em sua preocupação com “gerar filhos saudáveis”. Ao perder uma de suas “esposas”, a preocupação não é com a morte da sua “favorita” (a Esplendida Angharad, interpretada por Rosie Huntington Whiteley), mas com a perda do filho, e em saber se este era “um menino”. Isso é simbolizado não apenas nos seus Warboys (cuja palidez, “meia vida” e status como “homens por vir” os faz representar não homens, mas espermatozóides), mas em como sua estrutura de poder se sustenta em atividades e ferramentas tradicionalmente masculinas: a forma de provar a masculinidade é morrendo gloriosamente em batalha. Seu poder, ironicamente, vem da única coisa não “masculina” sob controle do seu exército. Enquanto o “justiceiro” Bullet Farmer (John Howard) mantém controle sobre munição (que alimenta o ó tão fálico implemento que são as armas de fogo) e o grotesco The People Eater controla o fluxo de combustível (Richard Carter) (que dão a vida a outro substituto fálico, o automóvel), Joe controla a água, fonte de vida e de sustento para os habitantes do deserto.

mad-max-fury-road-charlize-theron-vs-tom-hardyO que engatilha a trama de Estrada da Fúria é a perda do “tesouro” de Joe: suas “esposas”, fartas de serem “coisas” e levadas por Furiosa (Charlize Theron) para “o lugar verde” – um lugar seguro onde não servirão de “coisas” para ninguém e seus filhos não crescerão para serem soldados. O que se segue é uma perseguição implacável do exército do tirano contra o caminhão de Furiosa (que por sinal, só tem a oportunidade de servir no exército de Joe por ser infértil – e portanto “inútil como mulher” para o vilão). E de fato, como os machistas de plantão reclamaram, Furiosa tem mais tempo de cena que Max – e muito mais falas, dado que o personagem de Hardy continua sendo alguém de poucas palavras. Furiosa e as cinco esposas são quem tem a maior parte do diálogo e é através dos olhos delas que o cenário é levado para audiência. Delas, e de um dos Warboys.

Max: de "o homem-que-é-homem" a bolsa de sangue e a "badass" novamente.
Max: de “o homem-que-é-homem” a bolsa de sangue e a “badass” novamente.

Max é praticamente incidental: o filme abre humilhando o personagem e o reduzindo a “uma bolsa de sangue” para Nux (Nicholas Hoult), um dos warboys de Joe. Enquanto todos querem ser Max (ou pior: imaginam que num mundo destruído, seriam Max), é com Nux – sedento pela afirmação da figura paterna, obcecado com sua virilidade e com “ir ao Valhalla” – que o filme foca a sua atenção. Ele representa a mente “homem comum”: inadequado, por querer atingir um ideal que não apenas é impossível, mas que é nocivo e autodestrutivo. A “redenção” simbólica de Nux se dá ao abandonar a obsessão em “se provar homem” e ao fazer as coisas não em busca de aprovação (seja de Joe, seja de quem for) mas apenas por serem necessárias para os outros. Para colocar de forma mais clara: Nux, como todos os Warboys, é oprimido pelo patriarcado personificado em Joe. Não da mesma forma que as mulheres, mas ainda oprimido e forçado em um molde inalcançável. O mundo “do homem que é homem” é um mundo só para quem está no topo – e mais ninguém.

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Nux: a frágil masculinidade obsessiva.

Enquanto isso, a contribuição narrativa de Max se dá em duas cenas (que prefiro manter em segredo). De resto, embora ele seja definitivamente útil nas cenas de ação, seu impacto em eventos narrativos é mínimo. Max e toda sua virilidade não são a esperança desse mundo: a esperança está nas Vuvalini, a “tribo” de Furiosa e em sua busca por preservar o mundo pensando no coletivo, ao invés de dominá-lo em nome de si mesmo. Max é só mais um sintoma da doença que matou o mundo. Ele pode ter poder para derrubar tiranos, mas não para mudar o mundo. Você não pode salvar o mundo com a mesma mentalidade que o matou – e por mais que Max não seja um porco machista como Joe, ele ainda é da mesma cepa em que violência é a solução.

madmax_fr_comicon_trailerComo não é possível falar de Mad Max sem falar no visual (algum ponto do texto tinha que ser dedicado a isso, afinal), é preciso frisar que Estrada da Fúria é um dos filmes mais visualmente impactantes do ano. George Miller definitivamente sabe o que faz, e o faz sem depender obsessivamente de computadores. As sequências de combate veicular, por si só, já valeriam o filme, mesmo que ele não tivesse uma mensagem fortíssima por trás. Os veículos e o figurino trazem a identidade visual tão fortemente associada ao gênero – e demonstram o quão marcante é o visual de Mad Max: faça Max socar as coisas ao invés de atirar, e temos um filme de Hokuto no Ken. Troque a Cidadela por um presídio, e esse filme viraria Riki-Oh. Pinte os Warboys de verde e os dê sotaques de trabalhadores ingleses? Orks de Warhammer 40k. A série Mad Max é uma obra seminal – e nada mais apropriado que o criador da própria para expor o quão abominável é o mundo novo criado em seus filmes e que muitos, cientes do horror que os filmes nunca esconderam, ainda insistem em achar “o lugar para eles” onde eles “poderiam ser livres”.

Mad Max tinha tudo para ser “o filme burro”, mas do contrário: demonstrou que é possível fazer arte, ter um discurso político, e ainda assim ser um filme de ação non-stop.

*Vide o caso da Mamiya em Hokuto no Ken – de “garota de ação” a escrava sexual, passando a “donzela indefesa” posta em seu “devido lugar” pelo herói machão, e que termina “abraçando sua feminilidade” e virando uma dona de casa glorificada.

 

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