Lembram da Sofix?

Ruinas da Sofix
O que sobrou da Sofix

Lembram da Sofix?

A indústria Sofix de parafusos que ficava atrás da Arena? Pois então, estive lá neste domingo de tarde, visitando o espaço onde trabalhei por quase três anos, como auxiliar de almoxarife.  Foi o meu primeiro emprego com carteira assinada, aos 17 anos. Eu era “Peão de fábrica”, com muito orgulho. Orgulho por ter aprendido na prática o que o tal do Marx falava sobre “mais-valia”, não por fazer parte do sistema em si.

Eu poderia discorrer sobre estes anos e contar alguns causos da época, mas o que quero repartir com vocês são as imagens que fiz na tarde deste domingo. Não tenho como apresentar todas as linhas de raciocínio que tive ao ver a fábrica em pedaços e é por isso que vou citar apenas algumas referências, ao invés de escrever um texto enorme.

Sim, acredito que o capitalismo seja um sistema em crise. As dificuldades deste modo de produção se expressam em processos de super produção ou de baixo consumo. A natureza já clama pelo fim destes ciclos e os trabalhadores ainda pouco sabem como enfrentá-los. O fato é que, ainda neste sistema, sempre que a corda afrouxa, sabemos para o lado de quem ela arrebenta. Deixo o trabalho teóricos para os especialistas da área, minha contribuição aqui é repartir um pouco das referências e da minha experiência pessoal.

Então, ao invés de escrever, vou indicar:

Para entender como as corporações se instituíram: A Corporação de Mark Achbar e Jennifer Abbott

Sobre as relações íntimas entre estas corporações e políticas que deveriam ser públicas: Adeus, General Motors, do Michael Moore

Sobre a obsolescência programada“A obsolescência programada faz parte de um fenômeno industrial e mercadológico surgido nos países capitalistas nas décadas de 1930 e 1940 conhecido como “descartalização”: Obsolescência programada
SofixUm mar de obscenidades políticas

Apresentei estas referências para vocês entenderem um pouco do que eu vi hoje, ao entrar naquela fábrica abandonada e destruída. O quadro que podemos pintar após assistir e ler os trabalhos acima é de um ambiente onde o interesse privado deságua em um mar de obscenidades políticas. E é esta relação que faz com que empresas como a Sofix (em uma escala pequena) ou a GM (em um exemplo mundial) sucumbam moradores e trabalhados de uma determinada comunidade aos interesses de seus proprietários, mas, claro, só no que se refere o processo  exploratório trabalhista, porque quando a empresa falir, os mesmos proprietários darão as costas para os funcionários…

Na “mídia”:

 “Empresa Sofix confirma crise em Joinville“:

“A Sofix Indústria de Fixadores confirmou, por meio de nota oficial assinada por seu advogado, que passa por um período de dificuldades financeiras que a levaram a atrasar salários dos quase 70 funcionários. A fabricante de parafusos com sede no bairro Bucarein, zona Sul de Joinville, chegou a fechar no ano passado e foi reaberta em março deste ano após a entrada de novos investidores.”

 “TJ manda prender dois administradores em Joinville“:

“Dois administradores de empresa de Joinville foram condenados à prisão esta semana pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). Um deles já está na Penitenciária Industrial de Joinville. O outro é considerado foragido.”

“Na ação, o Promotor de Justiça relata que, entre 2003 e 2005, Vitor Manuel Augusto Caiado e Hilário Paulo Horst – gerentes administradores da empresa Sofix Indústria de Fixadores – inseriram elementos inexatos em livro exigido pela lei fiscal, consignando como créditos de ICMS aquisições de materiais de uso e consumo do estabelecimento, conduta vedada por lei complementar.”

Bens da Sofix avaliados em R$ 6,2 milhões vão a leilão, em Joinville

O valor que ultrapassar as dívidas trabalhistas será encaminhado para quitação de outros débitos. O imóvel está hipotecado ao Banco de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (Badesc) e penhorado na Vara Federal de Execuções Fiscais de Joinville.”


Fábricas Abandonadas pelo mundo

Ah, claro, sempre teremos aqueles personagens “Constantinos” das redes sociais que dirão: “Ahh, mas no Brasil existem muitos impostos, tudo culpa do regime comunista do PT”. A as fábricas fechadas nos EUA, Inglaterra e Itália? Culpa do PT também?

Sofix

Confira 10 incríveis fábricas de carros totalmente abandonadas

E os trabalhores?

Ao entrar na fábrica na tarde deste domingo só consegui imaginar uma coisa: “aonde estão as pessoas que trabalhavam aqui?”. E este pensamento desencadeou outras perguntas: será que estas pessoas já receberam os benefícios dos processos movidos contra os donos da Sofix? Será que os ex-donos ainda estão presos? Será que estes trabalhadores não poderiam ter ocupado a fábrica antes dela virar este depósito de óleo velho e suor desperdiçado?

A última pergunta está ligada diretamente à outra referência audiovisual: o documentário The Take, de Avi Lewis e Naomi Klein. Este outro filme trata do colapso econômico da argentina em 2001, mas, mais importante que isso, o trabalho aborda uma nova dinâmica dentro deste sitema falido que é a de ocupação de fábricas em ruínas.

Sofix

Esta é apenas uma leitura sobre uma fração de toda uma experiência política

Dentro da minha construção política visitei muitos ambientes de trabalhos em péssimas condições. Como funcionário da Sofix, lembro do dia em que fiquei feliz porque meus superiores me concederam, além de um aumento de 100 reais, o direito de continuar usando vale transporte mesmo indo para o trabalho de bicicleta. Isso fez meu salário bruto subir para aproximadamente 700 reais e que os passes eu pudesse usar no trajeto para a faculdade.  Pouco entendia do valor real da minha força de trabalho.

Mais tarde e já formado visitei uma fábrica de câmaras para pneus em Jaraguá do Sul. Local onde dois trabalhadores faleceram em virtude de choques nas instalações elétricas, sem contar amputações e consequências graves na saúde de outras pessoas que ainda lutavam para tentar ocupar a fábrica que, mesmo abandonada pelos proprietários originais, representava a única fonte de renda desta comunidade de trabalhadores.

Estou tentando escrever este texto há duas horas, mas acho que nunca vou conseguir explicar para vocês a raiva e felicidade que senti ao ver a Sofix abandonada:

Raiva por saber que o valor do meu trabalho foi mastigado por pessoas que certamente estão soltas e aproveitando bem a vida, enquanto a amargura e as pendências jurídicas são os únicos frutos que os ex-trabalhadores da Sofix devem estar recolhendo.

Felicidade por ver na prática a incoerência deste modo de produção e por poder dividir com vocês os registros deste “troféu” gerado por este sistema.

Compreendem? Trabalhei por quase três anos neste ambiente. Hoje ele é um acumulado de pó, óleo, papeis e máquinas. Cresci politicamente neste lugar e, agora, ele fecha um ciclo teórico para mim. Percebo nele não só o começo das minhas experiências trabalhistas, mas também o fim das práticas individuais e egoísticas deste sistema.

 

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Jornalista, músico e mestrando em patrimônio cultural e sociedade

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