La Danza de la Realidad: um encontro de si mesmo na cinebiografia de Jodorowsky

Eu acho fascinante a maneira como o cinema pode servir na exploração do nosso próprio ser, por estímulos audiovisuais nunca imaginados anteriormente. Não pela sua técnica, mas pelo seu conteúdo, sua temática e daquilo que se desperta, através das emoções, em cada um de seus espectadores. Fico extremamente feliz quando um filme tem esse efeito em mim, e vou deixar abaixo uma breve descrição sobre ele, para algum leitor do Metranca se interessar e talvez sinta algo semelhante após vê-lo

Alejandro Jodorowsky é um diretor que ficou marcado por uma linguagem única e intensa, buscando (e encontrando) um elo entre o onírico, o poético e o surreal. Desta fusão surgiram obras que mexeram com figuras que vão de David Lynch à John Lennon, que inclui Fando y Lis (1968), El Topo (1970) e A Montanha Sagrada (1973). Entre o que o se torna único nos elementos visuais que ele aborda, costuma ser o fato de entregar cenas chocantes não recomendadas para um público hipersensível; mostrando sexo, genitálias (tanto masculinas como femininas), sangue, urina, fezes (que incrivelmente não aparecem neste filme), violência, cadáveres, seres humanos fora do padrão normativo (como pessoas gordas ou magras demais), pessoas sem membros ou deformadas, e todos os tipos de personagens outsiders, incluindo travestis, mendigos e prostitutas.

A Dança da Realidade é o primeiro passo de uma jornada autobiográfica que Jodorowsky iniciou em 2013 – e que continuaria em Poesía sin fin (2016) -, onde aqui o foco é a infância do diretor. Com uma série de emoções extremamente exacerbadas e cheio de personagens circenses, o filme é elaborado em um formato onde se privilegia películas metafóricas para contar uma história cheia de detalhes políticos e espirituais profundos, servindo para explicar o processo de maturidade psicológica que a pessoa Alejandro viveu. As imagens filmadas diretamente de Tocopilla, a cidade chilena que foi o seu berço, expelem ainda mais os conflitos e o desafio de lutar contra o imaginário do garoto Alejandrito; essa cruzada de ilusões, pureza infantil e experiências de vida tão desgastantes seriam o caminho para a realidade (ou maturidade) que o diretor propõe com o título.

O fator de ser filho de imigrantes judeus ucranianos é um elemento que serviu como ponto-chave na formação do seu ser, tão forte quanto a sua relação com a tirania. Essa tirania é vista principalmente por parte de seu pai, Jaime Jodorowsky, um stalinista convicto da filosofia do “fazer o homem”; que não só tentava moldar o caráter de seu filho, mas também como o de sua esposa, em um constante abuso; além do intenso fascismo que historicamente assolava e crescia no Chile dos anos 1930. E é justamente a retratação de seu pai, ao buscar uma reação comunista contra um ditador fascista em Santiago, que torna-se o foco da segunda parte do filme; onde os eventos que se sucedem servem para confrontar a moralidade de Jaime quanto a sua descrença sobre espiritualidade, a forma como ele via a morte e, finalmente, o levar a entender que a idolatria que ele mantinha sobre uma imagem política servia apenas para destruir o seu próprio eu (e que Stalin não tinha tantas diferenças assim com o o ditador Ibãnez). Ou seja, a redescoberta do viver por seu pai e a reunificação de sua família foram cruciais para o encontro da maturidade (“a realidade”) plena de Alejandro.

“Pare! Não pule! Você não está sozinho. Está comigo. Tudo o que você será, já é. O que procura já está em você. Entregue-se aos seus sofrimentos, graças a eles chegará até mim. E eu, quem serei daqui a vinte anos? A cem? A dez mil? Entretanto, minha consciência precisará de um corpo? Para você, ainda não existo. Pra mim, você não existe mais. No final dos tempos, quando a matéria voltará ao pondo de origem, você e eu teremos sido só recordações, nunca realidade. Alguém está sonhando conosco. Entregue-se à ilusão. Viva!”

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