Islamofobia e o editorial da Charlie Hebdo

Não é sem motivo que em 2001 Christopher Allen ressaltou as similaridades entre as imagens referentes ao islã propagandeadas na mídia após o 11 de Setembro e a propaganda nazista referente aos judeus.

Nos 15 anos que se sucederam aos atentados perpetrados pela Al Qaeda, a imagem do islã foi associada diretamente ao terror. O antigo fascínio orientalista pela “magia das arábias” (em si já racista e xenofóbico, transformando o árabe em um “outro” exótico e alienígena) deu lugar a uma visão demonizada, onde o islã passava a ser “a antítese da civilização”. Em 2001, a face pública do islamismo, escolhida pela mídia americana era o pregador egípcio Abu Hamza. Como Allen nota, Hamza era a imagem do barbarismo; seus ganchos eram brutais “cicatrizes de guerra” de uma sociedade bárbara com a qual a civilização não poderia conviver. Em uma pessoa só, Hamza incorporava todos os clichês islamofobicos, personificando a imagem do ‘fanático’ incapaz de conviver em sociedade.

Argumenta-se que o discurso não é contra todos os muçulmanos, mas apenas contra os extremistas, ao mesmo tempo que radialistas e formadores de opinião falam em uma “jihad furtiva” e pintam os “moderados” como sendo sleeper agents do extremismo. Ainda este mês, quando o jovem David Sonboly, filho de imigrantes iranianos, matou 9 pessoas e feriu 35 em um shopping em Munique, as respostas imediatas culpavam “o islã” pelo que foi tomado a priori como um atentado terrorista. A possibilidade que Sonboly não fosse ligado à grupos extremistas não foi cogitada pelos formadores de opinião.

Sonboly, ao fim das contas, era um extremista, mas não um extremista islâmico: era um fanático nacionalista que planejou seu massacre – feito a moda dos atiradores escolares tão recorrentes nos EUA – em homenagem ao terrorista norueguês Anders Brevihk. Sonboly se orgulhava de dividir seu aniversário com Adolph Hitler – e não era muçulmano. A pressa e a disposição vista para culpar o islã pelas ações de Sonboly (que gritou “Ich bin Deutscher” durante seu massacre) talvez sejam um dos sinais mais claros do quanto o clichê de islâmico=terrorista se apossou da esfera pública.

A associação do islã com terrorismo é hoje um lugar comum, tão onipresente a ponto de ser visto como uma obviedade. Mas nem sempre as coisas foram assim. O terrorismo ligado à grupos islâmicos não nacionalistas (em oposição a grupos nacionalistas que por acaso eram islâmicos, como os palestinos do Setembro Negro, que perpetraram o massacre de Munique em 1972) se tornou um ponto notável na política internacional no fim dos anos 80, durante o colapso da União Soviética e a decadência dos regimes instalados pelos EUA e pela União Soviética no Oriente Médio. Nos anos 80, o clichê associado ao terrorismo eram os irlandeses; antes disso, os comunistas (como o grupo Baader Meinhof alemão). Antes, os judeus; antes, os anarquistas e os irlandeses. Embora houvessem grupos terroristas islâmicos antes do fim da guerra fria, estes tinham focos claros em combater as potências coloniais no oriente médio; seus interesses eram nacionalistas e políticos, e não religiosos.

A equivalência do islã com o terror nos olhos públicos se faz ver muito bem em um bordão comum em fóruns e espaços de comentários em língua inglesa: “Not all Muslims are terrorists, but all terrorists are Muslims” – leia-se, Nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos. Atentados perpetrados por grupos nacionalistas, separatistas, cristãos (tais quais os ataques a bomba feitos contra clínicas de aborto, nos EUA), ambientalistas e políticos são descartados como não sendo terrorismo, pois terrorismo implica em islâmico. Por mais de uma vez, já vi acadêmicos – ou seja, não leigos no assunto – alegando que os nacionalistas católicos do IRA (Exército Republicano Irlandês) eram muçulmanos, ou que não eram terroristas, a despeito de seus atentados a bomba. O grupo leninista Weather Undeground – responsável por múltiplos ataques a bomba entre 1969 e 1975 – foi outro que já foi tratado como sendo islâmico. A seita budista Aum Shirinkyo, responsável pelo maior ataque terrorista da história do Japão (país que tem seu histórico com atentados políticos por parte de extremistas políticos, como o assassinato público de Inejiro Asanuma, líder do partido Socialista Japonês, em 1960, ou o sequestro do voo 351 da Japan Airlines pelo Exército Vermelho Japonês, em 1971) igualmente foi descartado ou tratado como um atentado islâmico.

O discurso recorrente de que todo muçulmano é um terrorista (sustentado na informação falsa de que nenhum grupo islâmico condenou publicamente o terror) legitima toda forma de discurso de ódio contra aderentes da fé islâmica, e aqueles que pareçam aderir a ela (como Sikhs,imigrantes árabes, imigrantes da africa subsaariana e refugiados sírios). A certeza de que “os islamitas” estejam tramando algo é vista quando incidentes como o de Munique são imediatamente atribuídos ao “terrorismo islâmico” e quando, ao saber do desaparecimento de um avião da Malaysia Airlines, múltiplos colunistas e comentaristas americanos sentem a necessidade de perguntar o “porquê” de não investigarem a presença de muçulmanos a bordo.

Como notam Cameron Riopelle e Parthiban Muniandy, o islã e o terrorismo são frequentemente tratados pela mídia como sendo uma única entidade monolítica. A despeito dos movimentos extremistas serem compostos por menos de 1% da população islâmica, a noção de que um “Muhamad” seja uma ameaça clara e iminente é predominante. Allen já comentava isso em 2001, ressaltando que – da mesma maneira que a Alemanha nazista o fazia com os judeus nos anos 30 e 40 – o muçulmano é frequentemente retratado como a “sombra” da civilização ocidental, violento, retrógrado e parasitário. Esse tipo de mentalidade é visto em charges como a do Daily Mail anexadas a esta postagem (uma das quais dotada do mesmo raciocínio por trás da charge do jornal nazista Das Keine Blatt, de 1939, também em anexo), e em certas charges do hebdomanário francês Charlie Hebdo – vitimado pelo extremismo em 2015 – particularmente a anexada aqui, perguntando “como seria Aylan (o menino sírio que morreu afogado na travessia da Turquia para a Grécia, em 2015) se tivesse crescido”, insinuando que, por ser árabe, seria um assediador.

Recentemente, em abril deste ano, o hebdomadário foi além de insinuar ao publicar um artigo onde afirma categoricamente que o islã e todos seus aderentes são os inimigos da civilização ocidental, e que o terrorismo é só a ponta de um iceberg que ameaça a sociedade ocidental, um iceberg composto por cada dono de panificadora que não vende carne suína, cada mulher de véu, cada professor de cultura árabe, cada radialista islâmico e cada Imam. Um editorial que fala em todos os termos que cada muçulmano, não importa o quão “bem adaptado”, é o inimigo e sempre será, e que ao tolerá-los, estamos contribuindo para o fim da civilização. Um editorial – lamentavelmente vindo de uma publicação de esquerda – que em pouco difere do discurso nazista. Faltou apenas afirmar abertamente que é necessária uma solução final.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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