Ida ao cinema, ou o que não me contaram sobre a ditadura

Vivo em Buenos Aires desde 2014, já ouvi muito sobre a ditadura (ou melhor, sobre as ditaduras da Argentina) e dia 25 de junho de 2017 conheci o conjunto de prédios ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada de Buenos Aires – Argentina), a ESMA foi muito mais que uma escola, durante a última ditadura militar (1976 – 1983), manteve clandestinamente cerca de 5.000 presos políticos. Foi um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio. Paralelamente ao funcionamento da escola esses presos eram mantidos em um prédio chamado ¨Casa de oficiais¨.

Em 2004 o estado Argentino recuperou o prédio, o lugar começou a ser chamado de EX ESMA e tem como objetivo exercitar a memoria para que tais atrocidades e crimes contra a humanidade não voltem a ocorrer. Existe uma serie de atividades nesses prédios como museus, escola de jornalismo, teatro, música, etc., porém muitas salas ainda necessitam de restauração. Para poder ativar esses espaços é necessário investimento público. O que é complicado obter, considerando o atual cenário  político da Argentina. É possível escrever infinitas páginas sobre todo o contexto político que levou a Argentina a diversas ditaduras e golpes, mas o que vale a pena compartilhar aqui é sobre o aniversário da mãe do Carlos e sua ida ao cinema em 1979.

Carlos é um dos trabalhadores da EX Esma, por casualidade estava próximo ao grupo de visitantes e a pedido do guia nos acompanhou durante a segunda etapa da visita, compartilhando um pouco da sua história.

Em 1978, Carlos e sua companheira Ana foram sequestrados em seu apartamento na capital Argentina, todos os vizinhos sabiam que o jovem casal seria sequestrado por serem militantes, mas ninguém teve coragem de evitar sua captura, afinal, ninguém queria se arriscar a ser um companheiro de Carlos e Ana na prisão, até mesmo porque a maioria nunca voltava para casa (esclarecendo que a Argentina teve mais de 30.000 desaparecidos durante sua ultima ditadura).

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Prédio EX ESMA: Murais com imagens de ex presos políticos.

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Prédio EX ESMA, entrada principal

Carlos foi levado ao complexo ESMA com sua companheira, lá foram submetidos a torturas, diversas humilhações e trabalho escravo, o que os militares chamavam de ¨trabalhos de recuperação¨. Durante dois anos Carlos e Ana estiveram juntos e separados neste complexo, se comunicavam com sinais, ou durante momentos onde os militares reuniam todos os presos, eram mantidos em filas de costas uns para os outros; em alguns desses momentos Carlos relatou que sentia as costas de Ana, na verdade sentia os ossos e se dava conta do quanto haviam emagrecido.

Carlos foi designado a trabalhar na falsificação de documentos para os militares, como recompensa a um trabalho especial de falsificação que realizou para um militar, lhes deram a oportunidade de fazer um pedido. Carlos, já há muito tempo preso e sem acreditar que o pedido seria realizado, solicitou a ida ao cinema, um prazer impensável naquele lugar que muitas vezes lhe negavam simplesmente ir ao banheiro.

Curiosamente o mesmo militar que fazia parte do grupo que levava presos de avião até o Rio la  Plata e lançava seus corpos a morte, é o mesmo que lhe compartilha uma saída ao cinema.

Com a premissa de não fugir, com vários militares e armas ao seu redor, Carlos foi assistir ao filme que jamais esqueceu e nunca quis rever; Morte em Veneza.

A segunda saída de Carlos foi para o aniversário de sua mãe, mas não pense que essa saída foi bondade dos militares, era preciso fingir para todo o país e internacionalmente que a ditadura não existia, que a historia de tortura, mortes e jovens presos era uma falácia, que a Argentina era vítima de incompreensão por parte de todas as outras nações. Cada militar tinha um grupo designado de presos do qual sabiam todos os detalhes pessoais, movimentação dos familiares e amigos íntimos. Os presos preenchiam uma lista com todos seus dados ao serem sequestrados, inclusive bens materiais que posteriormente seriam tomados pelos militares. Por isso, um dia antes do aniversario de sua mãe, Carlos foi informado que iria visitá-la para demonstrar como estava ¨bem¨ no ¨centro de recuperação¨.

O aniversário de sua mãe em 22 de abril, foi comemorado com Carlos e mais quatro militares armados ao redor de uma mesa, com ordem precisa de levar Carlos novamente a ESMA.

Essas foram as duas saídas de Carlos da Esma durante seus dois anos preso. Em 15 de fevereiro de 1980 foi liberado, na condição de liberdade vigiada. Depois de 1980 os presos liberados foram proibidos de deixar o país, para que não revelassem as torturas, mortes e sequestros aos meios internacionais, em especial a ONU. Por alguns anos após sua libertação Carlos recebeu ¨visitas¨ de militares em sua casa ou local de trabalho, para acompanhar seu comportamento.

Carlos é um dos 200 sobreviventes do total de 5000 mil presos do centro clandestino de detenção ESMA. Existiram mais de 600 centros clandestinos de detenção na Argentina entre  1976 e 1983.  Nenhum preso conseguiu fugir da ESMA durante o período da ditadura, os 200 sobreviventes sofram liberados pelos militares, as razões por manter esse grupo vivo nunca foram reveladas. Alguns dizem que serviram para contar sobre o centro clandestino e com seus relatos gerar temor a população. Mas a verdade é que os militares julgados nunca revelaram o motivo.

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Cartaz em um dos prédios da EX ESMA

Carlos contou que trabalhar na EX Esma significa trabalhar com o exercício da memoria, na busca da verdade e justiça, afirmou que não há tristeza e sim orgulho por poder honrar a memória dos seus queridos companheiros.

Eu tinha milhares de perguntas para fazer a Carlos e ao mesmo tempo nenhuma. Senti-me tão feliz por ver sua resistência, estar trabalhando na EX ESMA no atual panorama político da Argentina (e América Latina em geral) é ser um pilar, é resistir a que camuflem a história, a história que está impregnada nas paredes, nos corredores, nos jardins, nos sons da EX ESMA. A força transformadora que pessoas como Carlos possuem nunca será dissolvida, por mais cruel que sejam as formas para tentar distanciar os olhares das pessoas ao passado (tão presente). A transformação da ESMA em EX ESMA representa o poder da luta e força de toda uma nação.

Que espaços como este sirvam de inspiração para o Brasil, que possamos um dia ter lugares destinados ao exercício da memoria, um espaço em constante construção e dialogo com a comunidade, um espaço que transforme historia em arte e memória. Temos em São Paulo  desde 2008 o Memorial da Resistência, sediado em parte do prédio que abrigou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social – Deops/SP. No edifício, desde 2004 funciona uma unidade da Pinacoteca do Estado. Foi o primeiro centro de detenção, tortura e assassinatos no Brasil a ser tombado (1999) e musealizado (2008). Em 2016 tive a oportunidade de visitar o memorial, porém é visível a necessidade de ampliação, mais investimento, ações culturais, projetos, ação com a comunidade. E o mais importante conquistar e ativar outros espaços, a exemplo de Argentina e Chile.

Como outro exemplo em Buenos Aires, criado em 1998, próximo ao conjunto de edifício da EX ESMA está o Parque da Memoria-Monumento as Vítimas do Terrorismo de Estado, um espaço público de quatorze hectares de extensão, localizado na costa do Rio la Plata.

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Grupo de Arte Callejero (GAC) com a instalação ¨Carteles de la Memoria¨

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A figura de Pablo Míguez, um desaparecido na idade de 14 anos, recordado por esta obra de Claudia Fontes.

 

* Esse texto contou com a colaboração de Natalia Alvarez, argentina residente em Buenos Aires que gentilmente me convidou a conhecer a EX ESMA.

 

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