Godzilla – Um (não tão) Breve resumo do “Rei dos Monstros”

Ano passado, eu postei em meu blog duas listas sobre os fantásticos seres que habitam os filmes de monstros gigantes. No entanto, ao meu ver, dois míseros parágrafos em uma lista de outros 13 monstros não são o bastante para tratar de forma adequada de Godzilla o “Rei dos Monstros”. Ele merece mais do que isso.

 

Ishiro Honda no set de Godzilla, 1954
Ishiro Honda no set de Godzilla, 1954

Godzilla é um ícone do cinema japonês e uma das figuras mais memoráveis do cinema. Nascido dos horrores da era atômica, um pesadelo nuclear dado vida. Fruto do indiscutível mestre dos Kaiju, Ishiro Honda (que testemunhou um teste nuclear em 1954, enquanto concebia sua obra prima), o homem que deu personalidade aos monstros gigantes. Se restringir a uma notinha é um desrespeito.

Este é um breve dossiê dos mais de 60 anos de carreira do Rei dos Monstros. Poucos personagens do Cinema se mantiveram relevantes e rentáveis por tanto tempo. O que escrevo aqui é um mero resumo: livros inteiros poderiam ser escritos sobre essa criatura radioativa.

 

 

O original (1954): o horror da era atômica

 

Um clássico instâneo
Um clássico instâneo

Hoje em dia, Godzilla pode ser famoso por peitar outros monstros gigantes e é definitivamente o “verdadeiro” protagonista de quase todos os seus filmes. Mas quando ele emergiu dos oceanos pela primeira vez, em 1954, as coisas eram diferentes. Gojira era um misto de um drama pessoal e filme de terror. De um lado, as relações tensas entre o cientista Daisuke Serizawa, sofrendo de Stress Pós Traumático, sua noiva Emiko Yamane, e o amor de Emiko, o tenente Hideo Ogata. Do outro, o ataque do monstro radioativo Godzilla e o rastro de morte e radiação deixado por ele.


Godzilla era muito mais um desastre natural dado vida do que o herói das décadas seguintes, ou o monstro dos anos 90. Ao mesmo tempo, o rastro de destruição que deixara era simbólico de outro desastre: os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. As cenas de vítimas expostas a radiação e as ruínas de Tokyo compondo o paralelo com o holocausto nuclear da segunda guerra mundial.  Como se manteve pelos 60 anos que viriam, força armada era inútil contra ele. Afinal, não há nada que armas possam fazer contra uma tempestade, ou um terremoto. Ou uma bomba atômica. Apenas esperar pelo melhor e, da próxima vez, garantir que os danos sejam menores.


Atando essas duas tramas estava a criação terrível de Serizawa, o Destruidor de Oxigênio. A arma era única esperança contra o monstro, após tudo mais falhar. O aparato era também a fonte de toda a culpa e remorso de Serizawa, ciente do horror que trouxera ao mundo. Godzilla e o Destruidor eram ambos metáforas para a mesma coisa: a bomba atômica. O monstro, fruto da bomba. O destruidor, a arma que superava a bomba e representava um risco ainda maior. Esse ardil 22 se encerrava tragicamente com o sacrifício de Serizawa: pelo bem do mundo, criador e criatura deviam morrer juntos, levando seu algoz, Godzilla, com eles.

 

Serizawa: para deter o horror da era atômica, há de se liberar um horror maior.
Serizawa: para deter o horror da era atômica, há de se liberar um horror maior.

Gojira estabelecia um tom que rapidamente seria abandonado. Não sem motivo, mantém-se o mais relevante e mais dramático dos filmes do Rei dos Monstros. Seu fim trazia um presságio e um alerta. Ninguém sabia dizer se a morte de Godzilla era algo a se comemorar, ou um sinal de que mais monstros como ele estavam por vir. Estava aí uma metáfora poderosa para o “admirável mundo novo” aberto pela era atômica, e os horrores da corrida armamentista. Assim como os personagens ao fim de Gojira, ninguém sabia o que aguardava no futuro, ou se a humanidade não estava lentamente engendrando seu fim.

 

Showa (1955 – 1975): de vilão a Herói

 

Gojira foi um sucesso imenso e rapidamente a Toho tratou de produzir mais filmes do monstro. Começando com “Gojira no Gyakushu” (“O contra ataque de Godzilla”), em 1955, esses filmes levaram a uma profunda mudança no caráter do “Rei dos Monstros”. Ao fim deste período, nada restaria do horror atômico que aterrorizou audiências em 1954.

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Anguirus, o primeiro inimigo (e futuro aliado)

Em seu segundo filme, Godzilla voltava dos mortos e enfrentava outro monstro gigante, Anguirus, Embora tenha estabelecido o mais famoso recurso narrativo da franquia (Godzilla deve enfrentar outro monstro gigante), o filme foi um fracasso de critica e de resposta do público Em resposta, a Toho engavetou Godzilla e tratou de fazer outros filmes de monstro até 1962.

Em 1962, no auge da primeira bolha dos Kaiju, a Toho teve uma ideia brilhante: juntar os dois maiores sucessos do gênero, King Kong e Godzilla, em um único filme, Kingu Kongu tai Gojira (King Kong versus Godzilla). Com a direção novamente nas mãos de Ishiro Honda, o filme de míseros US$250 mil faturou 350 milhões de ienes (3,5 milhões de dólares) no Japão e US$ 1.25 milhões nos EUA. Como King Kong era então mais popular, Godzilla era o “vilão” e o gorilão ganhou a luta na estória que carecia da profundidade e do simbolismo de ambos os filmes.

Duelo de Titãs: King Kong contra Godzilla
Duelo de Titãs: King Kong contra Godzilla


Mas no longo prazo, ganhara Godzilla. O sucesso estarrecedor de King Kong versus Godzilla levou a um ressurgimento do “Rei dos Monstros”, começando com Mosura tai Gojira (Mothra versus Godzilla), em 1964. Novamente colocando Godzilla contra outro monstro gigante, a mariposa Mothra, o filme novamente via Godzilla como o vilão sendo derrotado.

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O filho de Godzilla

Era em seu quinto filme que Godzilla começava a se tornar o herói: San Daikaiju: Chikyu Saidai Kessen (Três monstros gigantes: a batalha definitiva da Terra, mais conhecido como Ghidorah, o monstro de três cabeças), de 1965, botava Godzilla, Mothra e Rodan no papel de heróis contra o monstro alienígena King Ghidorah.  O monstro e Rodan voltariam no próximo filme, Kaiju Daisenso (A invasão do monstro espacial. lit: A Grande guerra dos monstros), em 1966, em que o trio luta no espaço.

Com Ghidorah, Godzilla deixava de ser um vilão para ser o herói de seus filmes. O sucesso de seu concorrente Gamera com as crianças deu início a um processo de mudanças progressivas no personagem para “deixa-lo mais popular com as crianças”. O primeiro filme a mostrar isso foi seu oitavo título, Kaiju-to Kessen Gojira no Musuko, ou “O Filho de Godzilla”, em 1967. O filme trazia o bizarro Minnilla, o “filho de Godzilla”, e tornou o Rei dos Monstros uma figura mais “simpática”.

O processo continuou com os filmes seguintes. Kaiju Soshingeki (Destroy All Monsters), de 1968, era composto por filmagem reaproveitada, com um número imenso de monstros. Gojira Minira Gabara: Ōru Kaijū Daishingeki (All Monsters Attack), de 1969, era um filme bobo sobre o Minnilla lidando com o bully Gabara. Quanto mais a Toho tentava “atrair as crianças”, mais o Godzilla se perdia no meio disso. Não havia nada do “Gojira” no herói e no pai relapso destes filmes.

Algo havia de ser feito. Ishiro Honda foi afastado da direção: segundo alguns, por decisão da Toho para dar novos olhos à franquia, e segundo outros por uma decisão pessoal de deixar o cargo após a morte de Tsuburaya, no ano anterior.. Em 1971, o Godzilla recebia um filme “como nenhum outro”, Gojira Tai Hedora (Godzilla versus Hedorah), de Yoshimitsu Banno. Intercalando segmentos filmados com animação e momentos surreais, o filme colocava Godzilla contra o bizarro “monstro da poluição”, e retomava os temas de horror do primeiro filme, tratando os de forma excêntrica.

A animação surreal de Hedorah.
A animação surreal de Hedorah.


Havia uma promessa de retomar a “seriedade” do Godzilla, e essa promessa foi mantida em partes pelo filme seguinte, Gojira tai Gigan (Godzilla versus Gigan), de 1972. O filme de Jun Fukuda trazia de volta Anguirus, e colocava a dupla para enfrentar os monstros espaciais King Ghidorah e o sádico Gigan, o primeiro monstro a fazer Godzilla sangrar. Ainda assim, Godzilla era um herói protetor, e não o monstro atômico.

JET JAGAAAA
Godzilla e Jet Jaguar, de monstro a herói…

Infelizmente, essas promessas foram descartadas no filme seguinte, também de Fukuda: Gojira tai Megalo (Godzilla versus Megalon), de 1973. Introduzindo o andróide Jet Jaguar e o aparvalhado monstro Megalon, o filme era tão (ou mais) infantil que os filmes com o filho de Godzilla, com direito a música tema para Jet Jaguar.

Vendo que o barco estava afundando (e que a bolha dos Kaiju estava estourando), a Toho decidiu engavetar o personagem. Jun Fukuda e Ishiro Honda dirigiram mais dois filmes: Gojira tai MechaGojira, em 1974, e Mechagojira no Gyakushu, em 1975. Ambos os filmes traziam o rei dos monstros contra uma duplicata mecânica.

 

A era Showa de filmes do Godzilla viu uma lenta transformação do personagem de um “horror da era atômica” em um “pai de família” e protetor da Terra. Além de seus próprios filmes, Godzilla também dava as caras no bizarro Tokusatsu Zone Fighter. Ao fim dos seus filmes, uma conclusão era óbvia: era hora de por o Godzilla para dormir. E assim a Toho fez até 1984.

 

Heisei: (1984 – 1996): Retomando o horror

 

Retornando às raizes
Retornando às raizes

Em 1984, no aniversário de 30 anos do primeiro filme, o Rei dos Monstros voltava a vida em Gojira (no ocidente: O retorno de Godzilla). Descartando completamente os filmes anteriores e se apresentando como uma continuação do original, a obra dava início a uma nova era de filmes do Godzilla. Era novamente uma ameaça implacável e o horror de sua presença era o foco das atenções. Até o design tomava ares mais ameaçadores do que o original.

Sem outros monstros (salvo o “carrapato” Shockirus), o filme tinha o mesmo tom sombrio e aterrador do original de 30 anos atrás. Godzilla voltava a ser o monstro, mas desta vez não havia “arma milagrosa” que pudesse detê-lo. Ao invés disso, a tarefa caia nas mãos de um avião experimental – o Super X – criado especificamente para um eventual retorno do Godzilla. A vitória do avião contra o gigante é curta: uma explosão nuclear na atmosfera revive Godzilla, que destrói a aeronave. Sem esperanças, a Força de Defesa do Japão recorre a guiar o monstro até o Monte Mihara, detonando o vulcão e trancando a abominação radioativa dentro da lava.

Biollante: Godzilla como o vilão,  em uma trama de tragédia e desespero
Biollante: Godzilla como o vilão, em uma trama de tragédia e desespero

Levariam quatro anos até que Godzilla tivesse mais um filme, Gojira tai Baiorante (Godzilla versus Biollante), em 1988. Partindo da conclusão do anterior, Biollante pegou as audiências de surpresa. Hoje considerado um dos melhores filmes da série, à época foi um fracasso:  Esperando uma luta entre dois monstros, ao adentrar os cinemas, as audiências japonesas foram recebidas com um filme sombrio e melancólico. Biollante era um fruto de ciência mal utilizada, células do Godzilla e de uma rosa combinadas com a mágoa de um pai que perdera a filha para o terrorismo. Godzilla não era o herói que salvava o dia: era um monstro desalmado que atacava uma criatura inocente que chorava ao ser queimada e que cujo aspecto monstruoso se devia às ações do “rei”. O mais perto de um herói era a retomada Mothra, e o trágico doutor Shiragami – que perdia sua filha não uma, mas três vezes.

O fracasso de Biollante deu um recado para a Toho: as audiências queriam filmes mais sombrios, mas não tão sombrios. Com o título seguinte, Gojira tai Kingu Ghidorah (Godzilla versus King Ghidorah), em 1991, a série passava por uma reformulação, trazendo de volta um dos mais clássicos inimigos do Godzilla, que assumia uma forma cibernética (Mecha King Ghidorah) ao final do filme. Mais leve, ignorava os eventos de Biollante (com exceção da personagem Miki Saegusa) e recuperava as tramas de invasão extraterrestre da série Showa, mas ainda mantinha o Grande G como um monstro sem nenhuma compaixão pela humanidade. O filme também gerou um imenso buraco na continuidade, ao implicitamente apagar o filme original através de “viagem no tempo”.


De King Ghidorah foi seguido por outro monstro clássico, Mothra, em Gojira tai Mosura (Godzilla versus Mothra, a Batalha pela Terra), em 1992. Aqui, Godzilla era novamente o vilão, se envolvendo na luta de Mothra contra sua contra-parte, Battra, a defensora da natureza. Battra buscava a destruição do japão para preservar o ambiente, mas Godzilla força as duas divindades a se unirem, colocando o mundo em grande risco. Produzido em alguns meses depois do sucesso de King Ghidorah, o filme sofre de problemas claros, e é o mais fraco da série Heisei.

 

Um novo e melhorado Mecha Godzilla
Um novo e melhorado Mecha Godzilla

O seguinte, Gojira tai Mechagojira (Godzilla versus Mechagodzilla II), de 1993,  mostrou a maior marca do período, amarrando a continuidade dos filmes anteriores. Os eventos de versus Mothra levaram a criação da UNGCC (United Nations Godzilla Countermeasures Center), para prevenir e conter novos incidentes. Dos destroços do Mecha King Ghidorah, a ONU cria duas “armas anti godzilla”: o robô gigante Mechagodzilla, e o avião gigante Garuda. Dois anos mais tarde, o centro se torna necessário pela primeira vez quando um ovo misterioso é encontrado na ilha Adona, atraindo Godzilla e o pterodátilo gigante Rodan. O ovo revela um filhote de Godzilla, capturado e usado para estudos pela UNGCC – despertando uma fúria implacável.


Em 1994, Biollante era colocada de volta na continuidade com Gojira tai SupesuGojira (Godzilla versus Space Godzilla). As células da aberração vegetal se uniram a um cristal extra terrestre para dar a luz à algo perverso: Space Godzilla. Seu objetivo, matar o original e consumir toda a vida na Terra. Enquanto isso, a UNGCC testava sua sorte tentando controlar Godzilla, e o filhote crescia aceleradamente. Fechando o filme havia o robô gigante M.O.G.U.E.R.A., que não teve sucesso contra os dois Godzillas.

 

O Fim de uma Era
O Fim de uma Era

A era se encerrava no filme seguinte. Depois de meia década “aliviando o tom” e evitando a melancolia de Biollante e o terror de O Retorno de Godzilla, a era Heisei se encerrava com Gojira tai Destoroyah (Godzilla versus Destoroyah) de 1995. Feito para fechar a história do Godzilla “de vez”, Destoroyah retomava personagens do filme original, os traumas de Emiko e sua vida deprimente após a morte de Serizawa, a futilidade do sacrifício do cientista e o próprio Destruidor de Oxigênio. O tom era dado pela primeira cena: Godzilla ardia em chamas, o oceano fervendo ao seu redor. O Rei dos Monstros estava morrendo. Enquanto a UNGCC buscava uma maneira de reduzir os danos cataclísmicos por vir, as consequências da arma que matou o primeiro Godzilla se tornavam claras: Destoroyah, um agregado de micro-organismos alterados pela arma terrível começava seu ataque. Era o filme mais sombrio, mais lúgubre e mais trágico que o Rei dos Monstros teve. E marcou o fim de uma era.

 

A próxima obra do Rei dos Monstros só sairia quatro anos depois, no fim do milênio. Mas o Rei dos Monstros não desapareceu da mídia japonesa, estrelando a série de curtas Godzilla Island, sobre a qual você pode ler aqui.

 

Millenium (1999-2004): Micro-continuidades

 

Em 1999, após o fiasco do filme americano do rei, a Toho lançou um novo e “verdadeiro” filme do Godzilla: Gojira 2000: Millenium. Dirigido por Takao Okawara – que já havia dirigido Godzilla versus Destoroyah, Mechagodzilla II e Mothra – partia novamente da obra de 1954. Desta vez, o Godzilla era uma ameaça recorrente pelos últimos 40 anos, Para o horror do Centro de Gerenciamento de Crises, o Japão precisa lidar com outra ameaça: um OVNI dos Millenians reativado após 65 milhões de anos. Após eras adormecidos, os aliens tentam consumir Godzilla para adquirir seu fator de cura, virando o monstruoso Orga.

 

Millenium deu início à uma nova era de filmes do Godzilla. Enquanto os de Showa eram marcados por uma continuidade frouxa e um tom “heróico” e os de Heisei tinham ligações fortes um com os outros, essa era era marcada por “micro continuidades”, escolhendo quais filmes seguir a cada novo título. O tom era mais próximo de Destoroyah do que qualquer outro filme anterior, com apenas uma instância do Godzilla como “herói”.

 

A expressiva face de Megaguirus
A expressiva face de Megaguirus

O filme foi seguido por Gojira X Megaguirus, em 2000. Desenterrando os obscuros insetos gigantes Meganulons de 1956, Rodan, a trama se abria com um satélite capaz de disparar micro-buracos negros acidentalmente trazendo um inseto pré-histórico para o presente (não pergunte).Se multiplicando rapidamente, os insetos são atraídos pela radiação do Godzilla (enquanto o rei é atraído pelas usinas nucleares do Japão). Depois de absorver as energias atômicas do Godzilla, as larvas se transformam em libélulas gigantes (as Meganulas) e levam sua carga preciosa para sua rainha, gerando a monstruosa Megaguirus. O filme contou com alguns dos melhores animatrônicos da franquia, apesar de algumas falhas de produção evidentes (como fios visíveis em algumas cenas).

 

GMK: o ataque do Godzilla Zumbi
GMK: o ataque do Godzilla Zumbi

Enquanto neste filme Godzilla era uma figura “neutra”, agindo como uma ameaça secundária e um “salvador acidental”, o filme seguinte, Gojira Mothra King Ghidorah: Daikaiju Sokogeki, em 2001 (GMK: Monsters All Out Attack), faria a maior reinvenção do monstro. Desta vez, Godzilla era reanimado pelas almas de todos os 36 milhões de mortos na Guerra do Pacífico, e os heróis eram o “pequeno” e “adorável” Baragon, Mothra – redesenhada com traços vespiformes – e um heroico King Ghidorah. Godzilla se tornava um símbolo da Guerra e da revolta com um país que esquecera seus crimes.

GMK foi sucedido por outra micro-continuidade, a duologia Tokyo S.O.S (2002 e 2003), composta por Gojira X Mechagojira e Gojira X Mosura X MechaGojira: Tokyo S.O.S. Nessa linha de tempo, após um ataque do Godzilla em 1999, o governo Japonês decide criar uma arma anti-godzilla a partir dos ossos do original. Envolto em armadura cibernética e sob o controle da Força Anti Megalosaurus, o “clone” é chamado de Kiryu, e se demonstra difícil de controlar após ouvir o rugido do seu “filhote”. Nos dois filmes, Godzilla é mantido consistentemente como o “vilão”, e pela primeira vez um Mechagodzilla é bem sucedido em derrotar Godzilla duas vezes, mesmo passando por um downgrade entre os filmes.

Godzilla Tokyo SOS1

 

O fim do rei (ou assim era pra ser)
O fim do rei (ou assim era pra ser)

A era Millenium do Godzilla se encerrou em 2004, com Godzilla: Final Wars, um filme em comemoração dos 50 anos do rei dos monstros. Essencialmente, foi um remake de Kaiju Soshingeki: Os malignos Xilliens (no lugar dos Kilaaks do original) invadiam a Terra, controlando vários monstros para destruir a humanidade e as únicas esperanças eram Godzilla – o único monstro “livre”  – e o super navio de guerra Gotengo. O filme adicionava elementos extras a trama, como o conflito interno dos Xilliens e um exército de mutantes infiltrados na humanidade, e modernizava vários monstros Showa (além de um cameo humilhante do “Godzilla” americano, Zilla). No papel desempenhado antes por King Ghidorah, de “Chefão final”, estava o Monstro X e sua forma verdadeira Keiser Ghidorah. Este era para ser o último filme do Grande G, mas as coisas não permaneceriam assim.

 

 

Shin (2014-???): O reviver do rei dos monstros

 

O reviver do Rei, versão ocidental
O reviver do Rei, versão ocidental

Dez anos depois das guerras finais, o Rei retornava aos cinemas, em GODZILLA, uma produção da Toho em parceria com a Legendary. Dirigido por Gareth Edwards, o filme dava início a uma nova continuidade do Rei dos Monstros, ignorando completamente todos os filmes anteriores – incluindo, pela primeira vez, o de 1954.

Edwards trouxe as telas a maior (108m de altura) e mais “heroica” versão do Godzilla, aqui apresentado como um “predador alfa” responsável por preservar o equilíbrio do planeta ao eliminar aberrações radioativas como os outros dois monstros do filme, os M.U.T.Os. Enquanto no filme original Godzilla era o fruto de um teste nuclear em 1954, desta vez o teste era uma desculpa para acobertar uma passada operação para abater o monstro.

Em meio ao conflito entre a organização secreta Monarch e os organismos pré-históricos, estava o drama pessoal do físico nuclear Joseph Brody e seu filho, o soldado americano Ford Brody. Após perder a esposa em um acidente na usina nuclear de Janjira, Joseph se torna obcecado com um estranho sinal (causado pelo ataque do primeiro M.U.T.O.) detectado pouco antes do acidente; quinze anos mais tarde, essa obsessão é responsável pelas relações tensas com o filho.

O filme de Edwards mantinha muito dos temas pessoais do filme original, mas alterava a mensagem sobre armamento nuclear e a corrida armamentista para uma ligada aos danos ambientais. Com o sucesso do filme, a Legendary deu início a sua própria continuidade do Godzilla, com dois filmes já planejados: Godzilla vs Kong, recriando o histórico duelo entre Godzilla e King Kong, para 2020, e um filme ainda sem título retomando a série em 2018.

Resssurgence: um Godzilla mais "visceral"
Resssurgence: um Godzilla mais “visceral”

Ao mesmo tempo, também para 2016, a Toho prepara seu próprio revival do Godzilla, Shin (novo) Gojira – ou Godzilla Ressurgence no ocidente, dirigido por Hideaki Anno e Shinji Higuchi. O filme deve ser a primeira produção japonesa do Godzilla a abandonar a técnica de Suitmation que marcou o personagem, optando por um híbrido desta com computação gráfica e um visual mais “visceral” para o monstro. Segundo Higuchi, a obra será pesadamente inspirada por eventos como os atentados de 11/9, o terremoto que atingiu o Japão em 2011 e o posterior vazamento nuclear de Fukushima.

Pouco foi divulgado sobre a trama e o filme deve contar com um Godzilla ainda maior do que o da Legendary. Contrariando boatos, não está sendo feito “em resposta ao da Legendary” (produzido em parceria com a Toho), e nem “existe para mostrar como se faz”. Tanto Anno quanto Higuchi chamaram o filme de Edwards de “obra prima”. Com isso, pela primeira vez teremos duas versões do Godzilla simultâneas, em seus próprios universos – seria demais esperar Godzilla versus Godzilla? É esperar para ver.  

 

Eternos aliados e Grandes inimigos

 

Ao longo de seus 61 anos, Godzilla acumulou um grande número de aliados, e um número ainda maior de inimigos. Alguns surgiram em outras séries de monstros; outros, se destacaram em suas aparições originais e ressurgiram ao longo dos anos. E um em particular participou de todas as eras do Rei dos Monstros em encarnações muito diferentes. Eis alguns dos mais notáveis.

 

Anguirus: O primeiro monstro enfrentado pelo Godzilla, e o seu mais antigo aliado. Anguirus, o pseudo-anquilossauro mutante, é o Batman para o Super-Homem do Godzilla: onde o rei dos monstros conta com seu sopro atômico, fator de cura e quase invulnerabilidade, Anguirus conta apenas com suas unhas, dentes e determinação implacável. Apareceu em sete filmes, nunca sendo o protagonista.

Mothra: aparecendo pela primeira vez em seu próprio filme, a mariposa gigante da ilha do Infante é enfrentou o Godzilla com tanta frequência quanto lutou ao seu lado (até mudando de “lado” no decorrer da ação). Uma eterna protetora do planeta, Mothra apareceu em todas as continuidades do Godzilla, e derrotou ele em quase todos os seus confrontos. Apareceu em 11 filmes do rei, além dos seus próprios.

Rodan: outro monstro que surgiu em seu próprio filme, o pterodátilo mutante Rodan (ou Radon em seu filme original) teve pequenas participações na era Showa, lutando junto com Godzilla contra King Ghidorah. Mas sua aparição mais notável foi em Godzilla versus Mechagodzilla II, onde o pterodátilo gigante foi instrumental na vitória Rei dos Monstros contra sua duplicata mecânica. Apareceu em sete filmes do Godzilla.

King Ghidorah: O dragão de três cabeças é um dos mais célebres e reaproveitados monstros da Toho. Seja como um monstro extraterrestre (Showa), uma mutação planejada (Heisei) ou um deus ancestral (Millenium), King Ghidorah e seus raios de gravidade estão entre os maiores inimigos do Godzilla, estrelando também em filmes da Mothra e no obscuro Zone Fighter. Uma variação dele serviu como monstro final em Final Wars. O dragão triplíce teve uma versão mecânica na era Heisei, e uma versão “prehistórica” nos filmes do filho da Mothra, Mothra Leo. Apareceu em oito filmes do Godzilla.

Gigan: Gigan é outro monstro recorrente, mas onde Ghidorah é um ser caótico e destrutivo, Gigan é um sádico covarde notório por ser o primeiro monstro a tirar sangue do Godzilla. Servindo várias raças alienígenas ao longo dos anos, e escapando em quase todas as batalhas, a “Galinha espacial” é um dos mais infames monstros da série  – e finalmente encontrou seu fim em Final Wars, a primeira (e até o momento, única) ocasião cinematográfica em que ele não conseguiu fugir. Aparecendo na obscura Zone Fighter, o Gigan Showa foi morto pelo herói-sósia-do-Ultraman. Apesar da popularidade, está apenas em três filmes.

Mechagodzilla: Um “monstro” que apareceu em todas as eras do Godzilla, mas que tem origens radicalmente diferentes todas as vezes, estas cópias robóticas do Godzilla conseguiram o que poucos podem sonhar: derrotar o Rei dos Monstros.  O primeiro, na era Showa, era um robô criado pelos alienígenas do terceiro planeta do buraco negro para conquistar a Terra. Confrontando o Godzilla quatro vezes, MG saiu vencendor duas – e foi em ambas as ocasiões derrotado na revanche.

Mecha Godzilla II/Super Mecha Godzilla: O segundo Mechagodzilla, da era Heisei, era um robô gigante construído pelo governo Japonês para lidar com a ameaça de monstros gigantes. Fracassando em seu primeiro confronto com Godzilla, o gigante mecânico foi aprimorado com a fracassada aeronave Garuda, e teve sucesso em destruir o “cérebro secundário” de Godzilla. Infelizmente para a UNGCC, o sacrífico de Rodan trouxe o monstro de volta a vida e deu um fim a vitória do segundo MG.

Kiryu/Mechagodzilla III: A terceira versão, estrelando dois filmes da era Millenium, era o ciborgue Kiryu, construído a partir dos restos mortais do Godzilla original. Dotado de um arsenal considerável e um “canhão de Zero Absoluto” o gigante cibernético se provou difícil de controlar, mas após algum empenho da piloto Akane Yashiro e alguns upgrades de sistema, provou-se uma arma eficaz contra seu “filhote”. Sua vitória inicial lhe custou um braço, sua arma final e bilhões de dólares em reparos. O confronto posterior, após reparos incompletos, terminou com a primeira vitória definitiva de um Mechagodzilla sobre o original, apesar da autodestruição de Kiryu, dragando Godzilla junto consigo para as profundezas do oceano – e deixando o original finalmente descansar em paz.

Destoroyah: aparecendo em um único filme, o agregado de micro-organismos pré-cambrianos Destoroyah é ainda assim um dos mais notáveis inimigos do Godzilla – afinal, esse é o ser demoníaco que chegou mais perto de matar Godzilla. Assim como Godzilla nasceu do horror da bomba atômica, Destoroyah nasceu do “Destroyer de Oxigênio”. O primeiro monstro a ferir Godzilla emocionalmente (ao matar o seu “filho”), Destoroyah retoma a temática do primeiro filme: a única arma capaz de nos salvar do Godzilla gerou algo pior que ele, assim como o único deterrente para uma arma nuclear é ter uma arma maior. Justamente por sua importância simbólica, Destoroyah nunca foi reutilizado.

 

Godzilla toma o ocidente

 

O filme da Legendary não foi a primeira tentativa de emplacar Godzilla nos EUA (e por extensão, no ocidente). Assim como o rei tem uma longa história no cinema japonês, ele tem uma extensa e confusa história de distribuição no ocidente. A maior parte de seus filmes não foram distribuídos fora do Japão. E os que foram, muitas vezes passaram por mudanças consideráveis.

Começando pelo filme original, cujo lançamento internacional (Godzilla, King of Monsters!) envolveu edição extensa e refilmagens para incluir um personagem a mais, o repórter americano Steve Martin (não confundir com o ator), interpretado neste filme e em O Retorno de Godzilla por Raymond Burr. Mas as alterações não paravam aí: Godzilla ataca novamente foi reeditado como Gigantis, o Monstro do Fogo em 1956. King Kong versus Godzilla perdeu todo o tom satírico do original, virando um filme completamente sério.

Outros filmes tiveram mudanças de tom graças a dublagens inadequadas e cortes inexplicáveis. Mas dentre todos os filmes, nenhum passou por tantas mudanças quanto Godzilla versus Megalon, lançado como Gorgo y Superman se citan en Tokio na Espanha, como Titanes Planetários no México e King Kong: Dámonen aus den Weltall na Alemanha. Em 2004, após o aniversário de 50 anos do rei, a Sony Pictures, detentora dos direitos de distribuição, lançou versões “perfeitas” dos filmes no mercado ocidental.

Um dos principais responsáveis pela ideia fixa de que Godzilla é verde.
Um dos principais responsáveis pela ideia fixa de que Godzilla é verde.

Nem só de localizações viveu esse mercado, no entanto. Em 1978, a Hannah Barbera produziu o desenho animado The Godzilla Power Hour, em parceria com a Toho. A série trazia Godzilla como um herói defensor do barco de pesquisas  Calico, Na transição para a animação, muitas coisas mudaram: do cinza original, Godzilla agora era verde; o sopro radioativo passou a ser só fogo; incompreensivelmente, ele ganhou lasers dos olhos; e mais infamemente, ganhou também um “sobrinho”, o alado Godzooky.

Mantida nos quadrinhos da Marvel..
Mantida nos quadrinhos da Marvel..

O Rei também figurou nos quadrinhos, igualmente esverdeado, entre 1977 e 1979, pela Marvel Comics. Integrado ao universo normal da Marvel, Godzilla enfrentou de monstros originais (como Lepirax, Yetrigar e Ghilaron) e o robô gigante Red Ronin, até super heróis como os Vingadores, o Coisa e o Homem Aranha. Ele também derrubou o Helicarrier da S.H.I.E.L.D. Posteriormente a licença para quadrinhos do Godzilla passou para a Dark Horse, e hoje se encontra nas mãos da IDW.

G.I.N.O.
G.I.N.O.

 

Em 1998, a Tri-Star arriscou a primeira adaptação do cinema ocidental para o Godzilla. O projeto estava em desenvolvimento desde 1993, quando foi engavetado por “ser caro demais”, com um orçamento estimado em 100 US$ milhões. Em seu lugar, veio Godzilla, dirigido por Roland Emmerich, estourando o orçamento da versão arquivada em 30 milhões. O filme não usava nada dos originais, transplantando a trama para Nova York, reescrevendo o monstro como uma iguana mutante “grávida” e removendo o sopro atômico. Não bastasse isso, o terceiro ato do filme dá uma guinada súbita para um plágio dos velociraptors de Jurassic Park, e se encerra com Godzilla sendo morto por armas convencionais. Essa versão do monstro foi posteriormente escarnecida nos filmes nipônicos, sendo renomeada “Zilla” e espancada pelo verdadeiro em Final Wars.

Ao contrário do filme, a série foi bem recebida
Ao contrário do filme, a série foi bem recebida

 

O filme em si foi um fracasso de crítica e foi odiado pela Toho (que considerou que “tirou o “Deus” de Godzilla). Não havia nele nada de “Godzilla” além do título e o rugido. O filme tinha mais semelhanças com The Beast  from 20,000 Fathoms do que com Godzilla, e mesmo nisso ele falhava, tratando força militar pura e simples como a solução. Mas sua “sequência”, Godzilla: The Series, uma animação produzida para a Fox Kids, teve uma recepção mais positiva: o desenho trazia o “filho” do monstro anterior combatendo monstros gigantes ao lado de um barco de pesquisas, essencialmente refazendo The Godzilla Power Hour sem os elementos mais tolos. E para fechar, um arco de história da série via o Zilla sendo reconstruído como um ciborgue – prenunciando o Kiryu da era Millenium.

 

 

Técnica e influência

 

Para olhares contemporâneos, os filmes do Godzilla podem parecer vazios e tecnicamente pobres. Mas Godzilla é tranquilamente uma das obras mais influentes do cinema japonês. Enquanto filmes de monstro gigante eram comuns na época, enchendo as cadeiras dos filmes “B”, Godzilla essencialmente criou a versão japonesa do gênero, e como muitas obras célebres de Ficção Científica, deixou um legado de técnicas e resultados memoráveis.

Nakajima no Traje de Godzilla: o nascimento de um clássico
Nakajima no Traje de Godzilla: o nascimento de um clássico

Pobres para os padrões de hoje, seus efeitos especiais deram origem a uma das mais amadas técnicas do cinema japonês: a Suitmation. Pensada por Eiji Tsuburaya, diretor de efeitos especiais da Toho, enquanto outros filmes de monstros gigantes usavam a mesma técnica de King Kong (1933), filmando miniaturas em maquetes e combinando-as com o filme, Tsuburaya pensou em outro método, insatisfeito com as miniaturas. No papel do Monstro, ao invés de um boneco, estaria um ator fantasiado Haruo Nakajima, filmado em uma taxa de quadros maior, depois reduzida a velocidade normal(gerando assim a sensação de lerdeza do monstro) em uma maquete da cidade. A seu tempo, esses efeitos lhe renderam o prêmio de melhores efeitos especiais da Associação Japonesa de Cinema.

Tsuburaya depois partiu para criar Ultraman e dezenas de outras séries de monstros e heróis gigantes. A confecção das roupas para este tipo de filmagem é um processo quase artesanal, com pequenos detalhes cuidadosos quanto a textura, modelagem e maleabilidade. Para representar o movimento “facial” do monstro foi usado um fantoche – filmes futuros usariam animatrônicos, chegando ao seu auge nos monstros expressivos dos anos 2000.

O rugido icônico do Godzilla foi outra obra de técnica e improviso. Insatisfeito com os resultados obtidos remixando sons de animais, o designer de som Akira Ifukube apelou para outra fonte para o rugido. Sons de animais eram “mundanos” demais, e o Godzilla tinha que soar “antinatural”: a solução foi esfregar uma luva de couro banhada em resina nas cordas de um contrabaixo, gerando um dos sons mais aterradores do cinema. A técnica é similar a que foi usada dez anos depois pela BBC para criar outro som amado por fãs, o ruído da TARDIS, fruto de uma chave sendo esfregada sobre as cordas de um piano.

 

Godzilla também teve influências fora do cinema e da TV. O monstro foi homenageado em músicas (como Godzilla, da banda Blue öyster Cult, e a banda Gojira), foi referenciado em desenhos, quadrinhos, filmes, cenas dos Simpsons, jogos e linhas de brinquedos. Uma espécie de dinossauro, Gojirasaurus quayi, foi nomeada a partir dele. Por mais que seja ridicularizado por quem não o conhece, é inegável: o Rei dos Monstros veio para ficar – e é uma das figuras mais célebres da longa história do cinema mundial.

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